Olá, gente boa!
Meu primeiro palco não era grande, mas era imenso para o menino que eu fui. A sala Villa-Lobos do Conservatório de Música de Sergipe me recebeu aos 10 anos, com o violão quase do tamanho do meu corpo e um sonho maior do que qualquer nota que eu soubesse tocar.
O Instituto de Música e Canto Orfeônico de Sergipe, nascido em 1945 pelas mãos visionárias de Genaro Plech, já me esperava antes mesmo de eu existir. Criado para formar músicos e orfeonistas, foi a segunda escola desse gênero no Brasil, um farol que iluminava a arte num país que saía de uma guerra mundial e buscava novos sons para se reconhecer.
Entrei no Instituto em 1970, quando funcionava no prédio em frente à Praça da Catedral (onde hoje está o Memorial do Judiciário). Logo depois, a escola se transferiu para a Rua Santa Luzia e se transformou no Conservatório de Música de Sergipe, já sob a direção do professor Leozírio Guimarães.
Tive grandes mestres: João Argolo, no violão; Paulo César; Maria Olívia; professor Alfeu; Henrique Sousa; Rivaldo Dantas — entre tantos outros que me mostraram o caminho musical. Cada um, à sua maneira, deixou um tijolinho na construção do artista e do cidadão que me tornei.
Nesta semana, o Conservatório completou 80 anos, e fui convidado por Heitor Mendonça — músico, professor, ex-aluno e atual gestor — para participar da celebração. Foi uma emoção enorme rever o palco onde subi pela primeira vez com as pernas bambas, o violão quase maior que eu, e tocar minha pequena peça.
As lembranças vieram como um filme: as broncas do professor João Argolo quando eu chegava tocando alguma música popular que tirava de ouvido; as descobertas de Villa-Lobos, Bach, Carlos Gomes, Chiquinha Gonzaga, Camargo Guarnieri… embora, mesmo naquela época, meu coração já batesse mais forte pelos brasileiros.
A comemoração foi linda. Ao entrar no hall, uma banda de jazz formada por alunos já anunciava a força da nova geração. Assistimos à apresentação da Banda do Conservatório, do Coral e do principal projeto educacional da escola: a Orquestra Aprendiz, conduzida com maestria pelo músico e maestro James Bertisch.
Criada em 2024, em parceria com o IFS, a Orquestra Aprendiz é um grupo pedagógico que introduz jovens no universo sinfônico e já acumula feitos importantes, como “The Beatles in Concert” e “Brasil Orquestral”. No concerto dos 80 anos, desfilaram músicas clássicas, trechos de ópera e peças populares — um espetáculo completo.
E ainda tivemos o privilégio de ouvir a diva do canto lírico sergipano, Marília Teixeira. Apaixonada e apaixonante, Marília é daquelas artistas que carregam a arte no sangue. Advogada, cantora lírica, produtora cultural e professora, tem uma formação impecável: Bacharela em Direito (UFS), Bacharela em Canto (UFBA), licenciada em Música (ETEP/SP), mestra em Música (UFPR) e doutoranda na mesma instituição. Uma diva da vida, do estudo e da arte.
Ao pisar novamente naquele chão, percebi algo simples e gigante: Sou o que sou porque a música de Sergipe me moldou. Não seria outro, não seria de outro lugar, não teria outra alma.
Agradeço por tudo que recebi dessa casa — o Conservatório — que me abriu a porta, a vida e o destino. Agradeço aos mestres que me ensinaram mais do que notas: ensinaram caráter, disciplina e sensibilidade. Aos colegas que caminharam comigo entre sonhos, broncas e descobertas. Aos jovens músicos que hoje mantêm acesa a chama que um dia iluminou meu próprio caminho.
E dedico, sobretudo, à música, essa companheira fiel que me guiou desde menino, me deu chão, me deu voz e me devolveu ao mundo maior do que eu cheguei.
Que minha gratidão ecoe como um acorde sincero na história dessa casa que me ensinou a ser quem sou.
Parabéns a todos que fazem o Conservatório de Música de Sergipe.
Parabéns a Heitor Mendonça pela condução moderna e responsável da instituição.
Parabéns a Zezinho Sobral e a toda a equipe técnica pela realização do primeiro concurso público para professores.
E parabéns ao Governador pelo apoio a essa que foi a minha primeira escola de música.
E eu?
Eu sigo, como sempre segui: aprendiz da arte, filho da cultura e devoto da música que me fez ser.
