Olá, gente boa.
Tenho muitos amigos na vida. Alguns vieram na infância, outros chegaram ao longo do caminho. Todos deixaram marcas profundas. Mas existe um amigo diferente de todos. Um amigo que me acompanha desde menino, conhece meus silêncios, minhas alegrias, meus medos e meus sonhos. Um amigo que nunca me abandonou. Esse amigo é o meu violão.
Desde menino fui cercado por eles. Cresci convivendo com os filhos de Seu Milson e Dona Lucy Barreto — Milsinho, Marcelinho, Virgínia, Bel, Tita, Mercinha e Kinho. Vieram Abelardo Neto, Carlinhos, Augusto Tainha, Lula Ribeiro e, ao longo da caminhada, a vida ainda me presenteou com irmãos escolhidos pelo coração: Denys Leão, Miltinho Goulart, Alexi Pinheiro, Rubens Lisboa, Susana Azevedo, Jorge Lins, Ione e Monica Sobral, Antônio e Lindolfo Amaral, Tonho Rolemberg, Manuel Vasconcelos, Roberto Bispo, Elber Batalha e, mais recentemente, Fernandinho Montalvão.
São amizades que o tempo nunca conseguiu diminuir. Cada um segue sua vida, seus compromissos, suas batalhas, mas permanecem por perto.
Só que existe um amigo diferente de todos.
Um amigo que nunca foi embora.
Conheci esse companheiro ainda menino, na casa do meu avô José Domingues. O velho Castelinho, como todos chamavam a casa dos meus avós paternos, era um verdadeiro templo da música. Ali aconteciam saraus inesquecíveis. Bastava meu pai, Irineu, estacionar o carro que eu já corria para dentro.
E lá estava ele.
Sempre nas mãos de alguém que sabia fazê-lo falar.
Via e ouvia Carnera, um dos maiores músicos que conheci, fazia dele uma extensão da própria alma. As notas enchiam a sala e pareciam encantar até quem não entendia nada de música. De vez em quando aparecia também Sílvio Caldas, amigo da família, que quando vinha a Sergipe fazia questão de passar pelo Castelinho.
Eu ficava apenas olhando.
Observava aquelas mãos passeando pelas cordas e me perguntava como um pedaço de madeira podia provocar tanta alegria, tanta saudade, tanto amor, tanta esperança.
Naquele tempo eu ainda não sabia.
Mas já estava apaixonado.
Os anos passaram.
Um dia cheguei em casa e minha mãe, Suzete, abriu um sorriso daqueles que anunciavam coisa boa.
— Tem uma surpresa no seu quarto.
Saí correndo.
Sempre gostei de surpresas.
Quando abri a porta, lá estava ele, deitado sobre a cama.
Um violão Di Giorgio Estudante.
Era 1968.
Nunca esqueci aquele momento.
O brilho do verniz.
O cheiro da madeira nova.
A beleza das curvas.
A promessa silenciosa de uma vida inteira.
Peguei o violão nas mãos e tentei fazê-lo cantar.
Coitado.
Só saíam ruídos.
Foi ali que aprendi a primeira grande lição.
O violão fala bonito apenas quando quem o abraça aprende sua linguagem.
Ao ouvir aquele festival de desafinações, minha mãe entrou no quarto sorrindo.
— Meu filho, primeiro você precisa aprender a tocar.
E eu aprendi.
Com o professor João Pires Argollo, amigo do meu avô e frequentador assíduo dos saraus do Castelinho, vieram os primeiros acordes, os primeiros exercícios e as primeiras descobertas.
Foi naquele Di Giorgio que fiz minha primeira composição.
Foi com ele que embalei minhas primeiras paixões.
Foi com ele que conquistei Dona Cássia.
Foi nele que nasceram as canções dedicadas às minhas filhas.
Foi ele quem me acompanhou no meu primeiro espetáculo profissional.
E, sem que eu percebesse, deixou de ser um instrumento.
Virou irmão.
Companheiro.
Confidente.
Na alegria e na tristeza.
Nas vitórias e nas derrotas.
Nas noites de esperança e nos dias de dúvida.
Foi flor.
Foi arma.
Foi luz.
Foi caminho.
Quando escolhi viver da música e da cultura, deixei para trás muitas das possibilidades que meu pai sonhava para mim.
Levei apenas um violão.
E foi ele quem me ensinou a conversar com o mundo.
Foi ele quem abriu portas.
Foi ele quem, muitas vezes, colocou o pão sobre a mesa da minha família.
Com o passar dos anos, outros violões chegaram.
Nacionais.
Importados.
Cada um com sua beleza, seu timbre e sua personalidade.
Mas havia uma regra que nunca mudou.
O velho Di Giorgio continuava morando no meu quarto.
Era com ele que as melhores canções apareciam.
Até que um dia aconteceu o inevitável.
Minhas meninas, ainda pequenas, brincavam pela casa.
Num descuido, o violão caiu.
A mão quebrou.
Doeu como se tivesse sido a de um velho amigo.
Na época, quem cuidava dos meus instrumentos era Carvalhau, músico e Luther muito respeitado. Mas ele enfrentava problemas de saúde e precisei guardar meu companheiro no estojo enquanto esperava a oportunidade de restaurá-lo.
O tempo passou.
Entreguei o violão a outro luthier, também músico, acreditando que em pouco tempo ele voltaria para casa.
Nunca mais voltou.
Já se passaram mais de vinte e cinco anos.
Hoje tenho nove violões.
Tenho filhas.
Tenho netos.
Tenho uma vida inteira construída ao lado da música.
Mas ainda sinto falta daquele primeiro companheiro.
Gostaria que meu neto pudesse tocar exatamente o mesmo violão que um dia minha mãe colocou sobre minha cama.
Não pelo valor da madeira.
Nem pela marca.
Nem pelo tempo.
Mas porque alguns objetos carregam dentro de si a história de uma vida inteira.
Hoje compreendo que um violão nunca foi apenas um instrumento.
Ele guarda as digitais de quem sonhou.
Absorve lágrimas sem reclamar.
Escuta segredos.
Conhece silêncios.
Transforma dores em melodias e alegrias em canções.
Meu violão conhece tudo o que sou.
Talvez me conheça melhor do que muita gente.
Porque foi ele quem caminhou comigo por todas as estradas.
Ao nascer do sol.
Ao cair da tarde.
Nos palcos.
Nas serenatas.
Nos amores.
Nas despedidas.
Nas esperanças.
Se um dia alguém me perguntar qual foi o maior companheiro da minha vida artística, não terei dúvida na resposta.
Foi um velho Di Giorgio Estudante.
Aquele que minha mãe me deu em 1968.
Dizem que cada violão tem um timbre próprio. Eu acredito que cada violão também guarda uma alma. A do meu aprendeu a rir comigo, a chorar comigo e a cantar a minha história.
Talvez seja por isso que, depois de tantos anos e de tantos outros instrumentos, eu ainda sinta saudade daquele velho Di Giorgio Estudante. Algumas amizades nunca acabam. Apenas continuam ressoando dentro da gente.
