Olá Gente boa,

Essa semana vi coisas que ultrapassam a indignação. Neste país onde o ódio e o desrespeito viraram rotina, já não basta o crime de usar metanol em bebidas e matar consumidores — agora o veneno parece ter chegado também à cultura. Porque quem mata o povo mata também a economia, a identidade e a memória coletiva, mas para alguns engravatados fascistas, isso pouco importa.

Mesmo com o esforço do Governo Federal e dos estados para fortalecer a cultura viva, proteger mestres, identidades e fazeres tradicionais, enfrentamos hoje uma concorrência desleal do digital, das redes sem filtro e de influenciadores ignorantes e oportunistas. Agora, o que vejo é um tipo de metanol simbólico circulando na cultura do meu pequeno Sergipe.

Um município sergipano aceitou participar de um evento nacional e, pasmem, enviou um grupo falso para representar uma das manifestações mais singulares do Brasil. Uma mentira oficializada, que desmoraliza a história do grupo verdadeiro e do próprio município – que sempre guardou esse fazer com orgulho. Estamos falando de uma manifestação reconhecida nacionalmente, com registro no Congresso e título de Patrimônio Imaterial de Sergipe.

Os Parafusos de Lagarto, que já tiveram como guardião o Professor Gerson Santos e desde 1997 integram a ASFLAG, hoje são conduzidos por Maria Ione. Uma manifestação única no país. Os dançarinos usam anáguas brancas e giram como parafusos, simbolizando a luta por liberdade dos ex-escravizados. Não é folclore de vitrine – é memória em movimento.

O que fizeram foi um crime cultural. Precisa ser explicado e punido. Usaram o nome, o figurino e as características do grupo verdadeiro, enganando o público e colocando em xeque a imagem do próprio prefeito — que, espero, não compactue com tamanho desrespeito a um patrimônio da cidade. Estamos falando de uma família tradicional do município, não de aventureiros.

Os Parafusos existem desde o século 19. Merecem respeito de todos — do mais novo brincante ao mais antigo guardião. Eles não se representam sozinhos: carregam a história de um povo, a memória e a identidade de Lagarto. Falsificar isso é mais que irresponsabilidade: é envenenar nossas raízes.