Olá, gente boa,

 

Quando lembro do tempo em que tive o Capitania do Som, aquele movimento de sonhos, descobertas e teimosias musicais, vejo passar na memória dezenas de vozes, olhares e esperanças. Produzi e gravei centenas de artistas naquele período — muitos começando a carreira, sem saber ao certo o caminho, sem imaginar o quanto viver de música poderia ser, ao mesmo tempo, penoso e gratificante. Entre essas histórias todas, teve uma que o tempo guardou com carinho: a de uma menina que apareceu por lá ainda bem jovenzinha.

 

Miltinho — um irmão desses que a vida dá, músico, técnico, parceiro e anjo da guarda — trabalhava comigo no estúdio. Um dia ele chegou com uma moça bonita, estudante do Colégio Arquidiocesano, tímida e curiosa, mas com um brilho danado no olhar. Ela tinha participado de um concurso numa FM da cidade, em homenagem a Ivete Sangalo. Gravou uma música da baiana, fez um vídeo e acabou ganhando, o que lhe rendeu a chance de cantar no Precaju ao lado da própria Ivete.

 

Aquela menina me chamou atenção de imediato: voz grave, levemente rouca, mas afinada, expressiva, com atitude. Mais ainda: tinha simpatia, irreverência e alegria que entravam cantando antes dela abrir a boca. Quando perguntei o nome, respondeu “Maysa”, e os amigos que estavam com ela emendaram em coro: “Maysa Pezão!” — e caíram na risada. Fiquei sem entender, e logo explicaram que era um apelido que veio das quadras de voleibol da escola. Um daqueles bullyings que ela levava na esportiva, sem dar importância.

 

Conversamos. Maysa me contou das músicas que ouvia em casa, das influências dos pais, da Jovem Guarda que embalava seu cotidiano: Roberto Carlos, Wanderléa, Golden Boys, Os Vips, Os Pholhas… Os olhos dela brilharam quando falou de Ivete Sangalo. Disse: “Quando ouvi Ivete cantar Eva, eu me encontrei. Me apaixonei pelo Axé, pelo ritmo, pelo jeito de cantar o mundo dançando.”

 

Pouco depois, Miltinho me pediu para liberar o estúdio e gravar duas músicas com ela. Claro que deixei. Eu já tinha percebido que havia ali talento de verdade, personalidade e futuro. Ela gravou — e se não me falha a memória, uma das canções era dela mesmo. Quando terminei de ouvir, chamei Miltinho e disse: “Diga a ela para não cair na armadilha de ser cover da Ivete. Ela tem voz, chão e presença suficiente para ser Maysa — e Maysa vai longe.”

 

O tempo passou. E foi naquela travessia silenciosa que Sergipe ganhou uma nova estrela: Maysa Reis. Nascida em Aracaju, em 1990, sergipana arretada, virou uma mulher forte, guerreira, mãe e dona de si. Do concurso de FM ao Estúdio Capitania do Som, passando pelo olhar atento de Miltinho Goulart, Maysa seguiu seu destino: cantar, compor, subir nos palcos e encantar.

 

Sempre apostando no axé, na música alegre e carnavalesca, que é sua essência. Do palco do Subúrbia aos circuitos da Bahia, onde ganhou o troféu Castro Alves pelo destaque no Carnaval baiano, Maysa se fez presente e necessária.

 

Seu primeiro CD foi gravado nos estúdios de Carlinhos Brown. Como cantora e compositora, já tem mais de 50 músicas autorais — entre elas “Até Você Me Amar”, “Namora Comigo My Love” e “Ondas de Prazer”. Nas redes sociais, reúne mais de 80 mil seguidores. Mas mais que números, o que ela coleciona é estrada: Precaju, Forrocaju, Réveillon de Aracaju, carnavais pelo Brasil, shows marcantes no Rio de Janeiro, São Paulo, Goiânia e por tantos cantos onde a energia dela abriu portas.

 

Na TV, participou de diversos programas, incluindo o Encontro com Fátima Bernardes na Rede Globo, além do reality A Grande Conquista, da Record.

 

Da atleta de voleibol do Colégio Arquidiocesano à estrela dos palcos de Sergipe e do Brasil, há um caminho de lutas, histórias, aprendizados e conquistas. Hoje, Maysa é cantora, compositora, influenciadora, mulher-mãe e artista feita de coragem e carisma. Uma sergipana vitoriosa, inteira e intensa.

 

E eu me orgulho de ter cruzado com ela ainda menina, antes do palco, antes da fama, antes das luzes. Porque algumas vozes a gente ouve antes de o mundo escutar.

 

Maysa Reis, artista. E das grandes.