Olá, gente boa.

Quando dizem que hoje tudo está melhor, muitas vezes volto aos meus 18 anos e me vejo caminhando pelas ruas de São Cristóvão, em plena ditadura militar, participando do Festival de Artes da cidade.

Era um tempo de muitas limitações políticas, mas também de uma enorme efervescência cultural. No meio de cabeludos, hippies, cantores, poetas, bailarinos, artesãos e estudantes, existia algo que hoje parece cada vez mais raro: a disposição para ouvir, aprender e conviver com as diferenças.

A população ocupava as praças, os largos e os casarões históricos movida pela curiosidade e pelo desejo de conhecer arte, cultura e gente. Todos conviviam em paz, cada um com suas ideias, seus sonhos e suas utopias. Mesmo os mais céticos pareciam seguir, ainda que intuitivamente, um dos maiores ensinamentos da humanidade: amar o próximo como a si mesmo.

A juventude daquela época se orgulhava da rebeldia. Mas era uma rebeldia construída no pensamento, na palavra e no debate. Não se enfrentava o mundo com armas, mas com argumentos. Aprendíamos com os mestres, fossem eles conservadores ou progressistas. Havia respeito pelo conhecimento, porque ser professor era um ofício admirado, quase um sacerdócio.

Muitos de nós seguimos caminhos progressistas. Eu mesmo continuo acreditando que uma sociedade mais justa e solidária é possível. Talvez por isso me considere socialista até hoje. Não por cartilhas ou partidos, mas pela crença de que a igualdade, a solidariedade e o respeito ao outro são princípios fundamentais da convivência humana. Como dizia Jesus, é preciso cuidar dos que mais precisam. Só faço um aviso aos navegantes: solidariedade não significa passividade.

Foi nesse ambiente que conheci Maria Glória Santos.

Na linguagem daquela época, Maria era uma verdadeira “porra louca do bem”. Livre, inquieta, intensa, dona de uma energia que parecia não caber dentro dela mesma. Estava sempre envolvida em alguma atividade cultural, em alguma luta, em alguma causa. Somava, multiplicava e, quando necessário, dividia opiniões.

Costumava dizer que tinha vindo ao mundo para causar.

E causou.

Nossa amizade nasceu ali, naquele ambiente de sonhos, debates e descobertas. Sem preconceitos, sem divisões artificiais, apenas com respeito, afeto e admiração mútua.

Aquela jovem inquieta transformou-se em mulher, mãe, poeta e referência cultural. Mas nunca perdeu a essência da menina que conheci. Continua caminhando de cabeça erguida, perseguindo sonhos, defendendo causas e acreditando que a cultura pode transformar vidas.

Maria Glória é filha de São Cristóvão, cidade-mãe de Sergipe. Talvez por isso carregue tão fortemente esse sentimento de pertencimento. Sua trajetória está profundamente ligada à defesa da memória, da identidade e da cultura popular da sua terra.

Criou a Casa do Folclore Zeca de Norberto, que coordenou e dirigiu durante muitos anos. Trabalhou na revitalização de grupos folclóricos, valorizou mestres da cultura popular, promoveu saberes e fazeres tradicionais e desenvolveu projetos importantes, como a Ladeira da Poesia, uma iniciativa que aproximou a literatura do cotidiano das pessoas.

Como escritora, publicou a obra Escarlarte, livro que revela suas vivências, sentimentos e percepções de mundo. Um trabalho reconhecido e premiado com o Prêmio José Cândido Cordeiro.

Mas Maria nunca foi daquelas pessoas que ficam esperando as coisas acontecerem.

Lembro de uma tarde em que ela apareceu no estúdio Capitania do Som e foi direta ao assunto:

— Neu, preciso que você me ajude a gravar os grupos folclóricos de São Cristóvão.

Nem precisou dizer mais nada.

Marcamos logo para o sábado seguinte.

E assim começou uma verdadeira peregrinação cultural. Grupo por grupo, mestre por mestre, ela foi levando ao estúdio aquilo que considerava um patrimônio vivo da cidade. Gravamos manifestações, cantos, memórias e saberes. Um trabalho silencioso, mas fundamental. Um registro que permanece e que ajuda a preservar parte importante da história cultural de Sergipe.

Em outra ocasião, já ocupando o cargo de secretário de Cultura, participei de um evento em São Cristóvão. No meio da plateia avistei Maria.

Fiquei feliz.

Na minha informalidade habitual, resolvi demonstrar o carinho que sentia por ela.

— Olha ali uma amiga antiga! Sou amigo dessa doida desde jovem!

A plateia riu.

Eu também.

Só não percebi que ela não gostou muito.

Meses depois nos encontramos na porta da Assembleia Legislativa.

Ela veio séria.

— Neu, não gostei de você me chamar de doida naquele evento.

Expliquei que jamais tive a intenção de diminuí-la. Pelo contrário. Era uma forma carinhosa de lembrar nossa juventude.

Ela ouviu e respondeu:

— Somos todos doidos. Quem escolhe viver de arte e cultura já fez essa opção.

Rimos.

E seguimos em frente.

Porque a amizade verdadeira também é feita dessas pequenas diferenças e dos aprendizados que elas nos proporcionam.

Maria Glória pertence àquela categoria rara de pessoas que insistem em sonhar. Daquelas que acreditam que uma cidade pode ser melhor, que a cultura pode ser mais valorizada e que a poesia ainda pode mudar o rumo das coisas.

Ela torce para que o vento mude de direção e, quando muda, corre atrás dele.

Sonha com novas casas de poesia, novos projetos culturais, novos livros e novas possibilidades para São Cristóvão.

Sonha, sobretudo, com uma sociedade mais justa.

Sua luta nunca foi apenas por si mesma.

Sempre foi coletiva.

Em sua escrita encontramos muito daquilo que Conceição Evaristo chamou de escrevivência: a narrativa construída a partir da própria experiência, da memória e da realidade do povo negro brasileiro.

Existe nela também a coragem de Beatriz Nascimento, a força intelectual das mulheres negras que transformaram a luta em conhecimento, e um pouco da liberdade criativa e inquieta de Ilma Fontes.

Hoje, com novos livros no prelo, Maria continua escrevendo sua história e ajudando a escrever a história da cultura sergipana.

Mulher.

Negra.

Mãe.

Poeta.

Produtora cultural.

Pesquisadora da memória popular.

Maria Glória é dessas pessoas que entendem que cultura não é apenas espetáculo. Cultura é pertencimento. É identidade. É resistência.

Como toda artista verdadeira, é admirada por muitos e contestada por alguns. E isso é absolutamente natural. Quem provoca reflexão dificilmente passa despercebido.

Mas, acima de qualquer divergência, permanece uma certeza.

Maria Glória Santos construiu uma trajetória que merece reconhecimento.

Pelo trabalho realizado.

Pela memória preservada.

Pelos sonhos que continua alimentando.

E pela generosidade de dedicar a própria vida à cultura do seu povo.

Por tudo isso, considero Maria Glória um patrimônio vivo da cultura sergipana.

E São Cristóvão, sua cidade amada, certamente é melhor porque teve — e continua tendo — Maria em sua história.

Ô Glória!