Minha avó América era uma dama bonita, elegante, inteligente, pianista, falava fluentemente inglês e tinha diversos sonhos. Casou-se muito cedo, como boa parte de sua geração, frustrando a maioria de seus sonhos. Mãe de oito filhos e esposa de um boêmio, ela fez da sua vida o que todos esperavam naquele tempo: ser uma boa mãe e uma excelente dona de casa, o que certamente não fazia parte de suas escolhas para o futuro. Eu adorava minhas avós, América e Marocas, além da minha bisavó Noemi. Sendo o primeiro neto e o primeiro sobrinho, era muito paparicado por elas e pelos meus tios e tias.
Ela dizia que não gostava de fotografias, mas isso era um equívoco; ela era muito vaidosa, sempre muito arrumada, maquiada e com os cabelos bem penteados. Ela afirmava: “Não gosto de nenhuma fotografia, a única que adoro é essa!” E mostrava uma fotografia bastante danificada da sua juventude, por sinal, uma gata mesmo. A foto estava manchada, um pouco rasgada, desbotada e perdendo a imagem. Era uma foto em preto e branco bem antiga e, para muitos, irrecuperável. Por isso, ela dizia que era a foto que adorava, pois não poderia colocá-la em um porta-retratos.
Trabalhando na Fundesc – Fundação Estadual de Cultura, conheci uma senhora do financeiro, Dona Neuza, muito rígida e um tanto braba, mas extremamente competente. Com o tempo, nos tornamos amigos. Ela era casada com um suíço chamado Marcel Nauer, um fotógrafo talentoso dedicado ao patrimônio material, imaterial e à natureza, além de ser um excelente restaurador. Já conhecia suas imagens e seus trabalhos, e como adoro fotografia, sempre o considerei um gênio. Ele, Fernando Souza e Lineu Lins sempre foram minhas referências.
Então, tive a ideia de roubar a fotografia da minha avó e entregá-la a Marcel para ver se ele conseguia restaurá-la. Um mês depois, Marcel entregou a foto completamente restaurada, como se fosse feita naquela época e assim fiquei fã do Suíço. Coloquei em uma moldura elegante e, no dia do seu aniversário, devolvi a foto danificada, presenteando-a com a nova foto ampliada e completamente restaurada. Ela ficou muito feliz e disse que aquela foto agora me pertencia, seria minha herança, e que a guardaria até sua morte. Infelizmente, ela faleceu muitos anos depois, aos 101 anos, e uma das minhas tias levou a fotografia, fazendo com que minha herança não ficasse comigo. Talvez tenha sido por brincadeiras frequentes com minha avó sobre a foto, sugerindo que ela colocasse no fundo da moldura uma escritura de um dos muitos apartamentos que ele tinha em meu nome, tornando minha herança ainda melhor.
Marcel Nauer começou a fotografar aos 16 anos, em Zurique, na Suíça. Formou-se em uma escola de artes e iniciou sua vida profissional com uma máquina Nikorrmat, que o acompanhou em seus primeiros trabalhos. Antes de comprar a primeira câmera, atuou na área de retoques fotográficos e na montagem de propagandas para empresas e gráficas, em uma época em que a seleção de cores era feita manualmente.
Depois de publicar em algumas revistas europeias, participar de publicações da Nikon e fotografar para marcas como a Nestlé, o fotógrafo mudou-se para o Brasil. Ele costumava dizer que tinha duas paixões: as terras tropicais e a maior delas, Neusa de Souza Bonfim, uma sergipana que conheceu na Bahia, em 1972. Durante quatro anos, Marcel visitou Sergipe para vê-la, até que conseguiu casar-se com ela e levá-la para a Europa, onde tiveram sua única filha, Christine. Assim, fixou residência na cidade de Aracaju. Aqui, Marcel Nauer dedicou-se à fotografia, atuando em diversos programas relacionados ao meio ambiente e à cultura. Trabalhou no Centro de Criatividade, desenvolvendo uma fotografia de requinte técnico e experimental, na qual explorava formas, luzes, sombras e escalas de cores, fotografando quase tudo em cromo. Trabalhamos juntos em diversos momentos e eu sempre admirando seu olhar, pois a cada foto, a cada clic, ele se renovava e entregava um trabalho cada vez melhor.
Ele realizou seus dois sonhos e, mais que isso, construiu seu próprio mundo em um sítio na zona rural de São Cristóvão, que chamava de Jardim dos Sonhos ou Horto de Caípe Velho. Marcel é um multimídia. De artista a botânico, de fotógrafo a tapeceiro. Junto com sua esposa, criou o único jardim botânico de Sergipe. Com a partida de sua amada, ele continua a buscar mais sementes para ampliar seu Jardim, que contém centenas de espécies de todo o mundo. Marcel é um artista, um artesão, um visionário, um poeta de sonhos e cores.
