Olá, gente boa,
Tem gente que nasce para brilhar.
Outras, para acender o refletor.
E há aquelas que fazem as duas coisas.
Assim venho conhecendo e convivendo com os iluminados e com os que iluminam. Cada um tem sua função. A vida me ensinou o quanto é importante quem nasce com luz e quem aprende a iluminar caminhos. Às vezes, a alma é tão bacana que consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Não sou tão bacana assim. Mas tento iluminar caminhos e preservar a luz que trouxe do além, de outras vidas — porque acredito, piamente, que elas existem. Luzes que são trabalhadas, ampliadas ou diminuídas com o passar do tempo, sempre de acordo com as vidas que vamos vivendo.
Uma dessas almas nasceu neste plano em uma família de intelectuais, escritores, poetas e juristas. Desde cedo, destacou-se com uma luz do tamanho do universo — alma cigana, andarilha. Primeiro, como a menina mais bonita, inteligente e comunicativa da família. Depois, na escola, sempre a primeira da classe, sem jamais perder sua essência rebelde, mesmo em um colégio formal e severo.
Destacava-se cantando na escola e nas rodas de amigos. Até que um dia se apresentou a mim dizendo:
— Sou sua prima e sua fã.
Depois de cantar karaokê no Amoras e Amores, deixou-me de boca aberta, sem ar. Aquela menina, ainda tão jovem, cantava como gente grande. Fez-me sentir a mesma emoção de quando ouvi Elis Regina pela primeira vez. Paixão na primeira frase musical — porque sou, assumidamente, tarado por talento.
Ela se apresentou:
— Sou Gena Carla, filha de Eugênia, viu? Sou sua prima.
Daquele dia em diante, coloquei como missão fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para mostrar ao mundo aquela voz, aquela interpretação, aquela capacidade de transformação. Uma alma que brilhava e trazia no canto uma vivência que parecia de muitas vidas passadas. Era nova demais para carregar, com tanta verdade, todos os sentimentos que traduzia ao cantar.
Coloquei Gena cantando rock na banda Exceção, com Miltinho Goulart e uma turma jovem como ela — e ela se saiu brilhantemente. Trouxe-a para cantar músicas infantis no Grupo Raízes; sua voz era perfeita para os espetáculos. Participou de festivais como Novo Canto e Canta Nordeste, fez shows no projeto Seis e Meia. Ela não se preocupava com o lugar, mas com o palco. Onde estivesse, o palco virava seu reduto. E ali ela se transformava em Deusa, Rainha, Cigana do Tempo e da Vida.
Apaixonava todos que ouviam sua voz e seu recado — dito sempre ao pé do ouvido, com a força e a delicadeza de cada canção.
Gena faleceu em setembro de 1999, após um mês de diagnósticos incorretos. A causa foi Porfiria Aguda, uma doença rara — um grupo de distúrbios causados pela deficiência de enzimas necessárias à síntese do heme, componente essencial da hemoglobina.
Formou-se em Arquitetura pela UFBA, cantou e atuou em diversos palcos de Salvador, na música e no teatro. Casou-se com o ator Vladimir Brichta e deixou sua semente mais preciosa: sua filha, Agnes.
Estava pronta para gravar seu primeiro disco, com data marcada para poucos dias após sua internação. Um trabalho esperado por ela — e, principalmente, por mim. Teria direção do seu irmão, Thiago Ribeiro, produção minha e seria gravado no Estúdio Capitania do Som. Infelizmente, Deus não quis assim.
E há 28 anos, todo mês de fevereiro — especialmente no dia 17, data do seu aniversário — fico tomado por um sentimento que nunca consegui explicar. E sei que levarei comigo até o nosso próximo encontro.
Hoje, Gena estaria completando 55 anos de vida terrestre. Infelizmente, não conseguiu, nesta existência, mostrar ao mundo inteiro a dimensão do seu talento, a beleza do seu canto e a luz que iluminaria tantas vidas.
Viva Gena Carla
