Quando ainda no governo de Albano Franco, a agência Conceito recebeu a missão, através de Fabiano Oliveira, então Secretário de Cultura e Turismo, de criar uma campanha publicitária para os festejos juninos. Fui chamado por Fabiano e pela agência para colaborar na tarefa — éramos amigos de longa data e já tínhamos desenvolvido diversos projetos juntos.

Em uma dessas iniciativas, fui apresentado ao então prefeito de Aracaju, João Augusto Gama, pelos amigos Antônio Rolemberg, Hélvio Dórea e Manuel Vasconcelos, donos da Conceito, para coordenar e projetar a retomada do Forró Caju, evento idealizado por Jackson Barreto quando foi prefeito de Aracaju e que, na sua origem, acontecia na Praça Fausto Cardoso.

Levamos o Forró Caju para os mercados centrais e realizamos um dos maiores festejos juninos da história de Sergipe: 30 dias de festa, mais de 180 shows, quadrilhas e grupos de cultura popular, reunindo, em média, 80 mil pessoas por dia. A partir dali, ficou provado que não precisávamos de tantos artistas nacionais para fazer um grande São João. Naquela edição, contratamos apenas cinco atrações nacionais, priorizando nossos artistas locais. E deu certo! Foi um sucesso absoluto de público, de programação e de repercussão, consolidando novos espaços e fortalecendo nossa identidade cultural.

A proposta de Fabiano era ousada: criar uma marca forte e definitiva para os festejos juninos de Sergipe. Na primeira reunião, Helvinho Dórea soltou a frase que mudaria tudo:
— “Sergipe é o País do Forró”. O slogan foi inspirado no refrão da música “Chamego Só”, gravada anos antes por Rogério. Após o sucesso da campanha, a música acabou sendo regravada com o título “Sergipe é o País do Forró”, tornando-se trilha sonora da nossa identidade junina.

A campanha foi tão bem-sucedida que extrapolou os festejos e se transformou em marca de estado, não apenas de governo. O slogan estampava ações da Emsetur, brilhava no camarote do Carnaval da Bahia e era usado na promoção turística de Sergipe, levando a força da nossa cultura para além das divisas. E mais do que tudo, cumpria sua missão maior: valorizar nossos artistas, gerar trabalho, renda e autoestima para quem vive da cultura popular.

Essas ideias não surgiram do acaso. Vieram da minha vivência direta com a música junina. Durante muitos anos, gravei músicas, produzi discos e participei de forrós e festas por todo o estado. Embora nunca tenha me declarado forrozeiro de raiz, o forró sempre fez parte da minha vida — sou filho de uma estanciana apaixonada pelos festejos juninos, e cresci respirando essa cultura.

Sergipe é, historicamente, um polo junino. Dos 75 municípios, praticamente todos celebram seus arraiás, com shows, quadrilhas e manifestações como samba de coco e samba de aboio, atraindo artistas de outros estados desde abril, muitos dos quais passavam a temporada inteira por aqui.

Nomes como Anastácia, Zé Duarte, Zé Nilton, Sandro Becker, Zezinho do Acordeon, Durval Vieira, Zinho, Trio Nordestino e Os Três do Nordeste eram presenças constantes, dividindo os palcos com gigantes como Dominguinhos, Luiz Gonzaga, Marinês e Alcymar Monteiro.

E nossos forrozeiros também brilhavam: Clemilda, Gerson Filho, Robertinho dos Oito Baixos, Erivaldo de Carira, Josa — o Vaqueiro do Sertão, Joseane, Amorosa, Edgar do Acordeon, Batista do Acordeon, Trio Passarada do Ritmo, Zé Rosendo e Marluce, Rogério, Antônio Carlos du Aracaju, Adalvenon, Sena e Sergiva, Raimunda Andrelina, Jorge Maravilha, Sebinho, Grupo Repente, Negão do Xaxado, Ismael, Ararão, Trio Bem-te-vi, Lourival Mendes, Brasas Nordestinos, Forró Bis, Lourinho do Acordeon, Luiza Lu, Virgínia Fontes, Saco de Estopa, Cabeça de Frade, entre tantos outros.

Esses artistas se preparavam o ano inteiro para os 30 dias de ouro do São João, quando faziam sua maior arrecadação. Entre esses nobres do forró, está Luiz Paulo, personagem que faz jus ao subtítulo deste texto. O Reizinho do Baião

Nos conhecemos nos anos 1980, em campanhas políticas, e ele já era conhecido como “O Reizinho do Baião”. Sempre dizia com orgulho: — “Nos meus shows não tem essa história de forró eletrônico nem de bailarinas. Aqui o som é triângulo, sanfona e zabumba!”.

Forrozeiro de altíssimo nível, dono de uma voz marcante e de um domínio absoluto do palco, Luiz Paulo, nascido em Malhada dos Bois, Sergipe, demonstrou desde cedo vocação para a música. Aos 15 anos, mudou-se para São Paulo, onde, inspirado por um irmão sanfoneiro, comprou sua primeira sanfona. Pouco tempo depois, já estava tocando nos forrós da capital paulista e se tornou cantor oficial do lendário “Forró de Pedro Sertanejo”.

Luiz Paulo ganhou reconhecimento e prestígio, dividindo palcos e estúdios com nomes como Dominguinhos, Osvaldinho, Jackson do Pandeiro, Antônio do Baião, Nivaldo Gomes (Castanheiro), Lili Melo, Raminho, Adolfinho, Geraldo Correia, Zézinho, Zito Borborema, Carmelita, Carmélia Alves, Zé Gonzaga, Ary Lobo, Garoto Nordestino e Trio Mossoró.

Em 1975, lançou seu primeiro disco solo, “Leva Eu, Maria”, pelo selo Tropicana, de Pedro Sertanejo, com produção do próprio Pedro e participação de Osvaldinho na sanfona. O álbum trazia 12 faixas, incluindo músicas próprias e sucessos da época. Foi nesse período que recebeu o apelido carinhoso e merecido de “Reizinho do Baião”, em homenagem ao seu grande ídolo Luiz Gonzaga.

Nos anos 1980, Luiz Paulo voltou para Sergipe, consolidando-se como um dos grandes nomes da música local. Gravou vários discos, entre eles “Rosinha Pegou na Minha” (1989), que emplacou o sucesso “Minha Vitória no Amor”, além de participar de projetos culturais e sociais, como o Colóquio Medieval, realizado em Sergipe, Portugal e Espanha.

Em 2007, tive a honra de produzir, no meu Estúdio Capitania do Som, o álbum “Cada Vez Melhor”, com 14 faixas, arranjadas por Erivaldinho, e participações especiais de seu filho Marcos Paulo, de Mestrinho e de Thays Nogueira, do Trio Juriti. Além da produção musical, também assinei a criação da capa. Esse trabalho reafirmou a importância de Luiz Paulo na cena cultural sergipana, mostrando que ele segue, sim, cada vez melhor.

Luiz Paulo é aquele artista que, depois que você ouve, nunca mais esquece. Um verdadeiro nobre. Um cavalheiro. O nosso eterno Reizinho do Baião. Representa o que há de mais autêntico na música nordestina. Gogó de ouro, forrozeiro nato, patrimônio vivo do nosso São João.