Olá, gente boa,

 

Com meus 7 ou 8 anos já cantava no coral da escola Sagrado Coração de Jesus. Dizia Manoelzinho, nosso regente: — Menino, você tem uma voz muito melodiosa e afinada.


E eu, sem entender muito de música, ia acreditando que aquele som que saía de mim podia ter algum destino bonito.

 

Um dia, meu pai Irineu chegou em casa com um LP na mão e disse à minha mãe: — Comprei o disco daquele cantor negro de Minas que participou do FIC. A voz e a música desse sujeito são sensacionais, lembra até o Marco Antônio, nosso grande compositor sergipano.

 

Logo depois do jantar, ele colocou o Long Play na radiola Empire. Foi quando ouvi, pela primeira vez, a voz mais linda que já escutei, clara, terna e forte. A música me deixou quietinho, só ouvindo e observando meus pais comentarem. Eu não entendia nada da letra, mas aquela melodia não saiu mais da minha cabeça:

“Quando você foi embora…

Fez-se noite em meu viver…”

 

E quando chegava na parte:

“Solto a voz nas estradas…

Como posso sonhar…”, eu sonhava.

Sonhava mesmo — com a música, com o mundo, com o poder que uma canção tem de transformar a alma da gente.

 

Quando comecei a estudar violão, pedi ao professor João Argolo que me ensinasse a tocar Travessia, de Milton Nascimento. Ele respondeu seco:

Essa canção é linda, mas é difícil. Você ainda não está pronto.
Mas eu não desisti. Fui descobrindo as harmonias, as melodias e os acordes sozinho, até conseguir tocá-la em casa. Mostrei a ele como um troféu. Argolo olhou e disse: — Essa eu vou deixar você tocar. Ali comecei a entender que o popular e o erudito se encontram onde há verdade.

 

Mais tarde, o professor Henrique Souza, com seu método “Prático, Rápido e Eficiente”, me ensinou que a canção é um organismo vivo: ela precisa respirar, ter pausas, silêncios — cada parte tem uma função vital.

 

Foi então que voltei ao velho LP de Milton e encontrei outro disco que mudou tudo: Clube da Esquina, lançado em 1972. Meu tio Sérgio me deu de presente. Era a primeira parceria entre Milton e um jovem gênio mineiro que, sem saber, passaria a habitar minha alma musical: Lô Borges.

 

As harmonias dele eram diferentes, as melodias pareciam conversar com o céu. Fui entendendo que o verso é o caminho da história, o refrão é a chegada — o clímax onde a emoção explode — e a ponte, a travessia, é a surpresa, o instante em que a canção abre uma janela e nos faz respirar um novo ar.

 

Com Lô aprendi que a introdução é o convite e o outro, o adeus. Ele fazia tudo isso soar natural, como se a canção já existisse antes dele e ele apenas a revelasse ao mundo.

 

Lô Borges revolucionou a composição. Junto com Milton Nascimento, Beto Guedes, Toninho Horta, Márcio Borges, Wagner Tiso e Fernando Brant, formou o Clube da Esquina — esse movimento de liberdade, poesia e amizade que virou símbolo de uma geração. Um bando de mineiros sonhadores que ensinou o Brasil a cantar com o coração aberto.

 

Hoje, Lô Borges fez sua travessia para o astral.


Vai se encontrar com Vilas Lobo, vai cantar “Paisagem da Janela” olhando o infinito, embarcando nesse “Trem Azul” sem rumo, mas cheio de luz.

Lô, suas canções me ensinaram a compor, a sentir, a respeitar o silêncio entre as notas.


Você foi e sempre será a melodia da liberdade, o som da ternura, o exemplo de que música é, antes de tudo, amor e invenção.

 

Vá em paz, Lô.

Leve com você a certeza de que sua travessia continua ecoando em nós.
E como você mesmo cantou:

“Eu já estou com o pé nessa estrada…

Qualquer dia a gente se vê.”