Olá, gente boa,

Existem coisas na vida que não podemos varrer para debaixo do tapete. Muitas vezes, por conveniência, por evitar conflito ou até por medo das consequências, a gente deixa de dizer o que precisa ser dito. Mas quando a razão e o bom senso andam escassos, é preciso falar — mesmo que isso incomode. É claro que limpar dá mais trabalho que esconder a sujeira, mas o ar fica mais puro, o ambiente agradece e a consciência fica leve.

Desde os meus 20 anos vivo da música, das artes e da cultura. Já enfrentei bons e maus momentos, aprendi na luta diária a valorizar cada passo, cada conquista e cada aprendizado. Mas foi em Laranjeiras, onde trabalhei por cinco anos e ocupei o cargo de Secretário Municipal de Cultura, na gestão de Ione Sobral, que descobri a verdadeira dimensão da identidade de um povo.

Ali vi um município que respirava sua história, que vivia intensamente suas tradições. Foi em Laranjeiras que entendi, de fato, o significado de amor e vivência cultural que meu tio José Calazans e meu amigo Luiz Antônio Barreto sempre me ensinaram.

Uma cidade capaz de se unir para proteger suas raízes: como quando expulsou um padre que se negou a coroar a Rainha do Nagô com a coroa de Nossa Senhora do Rosário, tradição secular na Igreja de São Benedito. Ou quando, ao saber que um governador queria remover o relógio da torre da igreja, a população desmontou a peça e guardou suas partes em cada casa, devolvendo-as apenas quando o gestor desistiu do absurdo.

Laranjeiras me ensinou a respeitar os Mestres da Cultura Popular, os brincantes, as rendeiras, a Chegança, Taieira, São Gonçalo, Cacumbi, Samba de Pareia, Samba de Coco, Reisados e Guerreiros, os Batalhões, o Lambe-Sujo e Caboclinho, o Micarême e seus blocos. Me apresentou nomes e histórias que moldam sua essência: Candido Aragonez de Faria, Horácio Hora, João Ribeiro, Bitencourt Sampaio, João Sapateiro, Zizinha Guimarães, Quintina Diniz, José Sobral, Seu Oscar, Maria da Conceição, Nadir, Cece, Bilina, Barbara, Ciza, Zé Rolinha, Deca, Sales, seu Ranulfo, e tantas mulheres e homens que pavimentaram essa estrada de cultura.

Foi nesse chão de pedra que ajudei a dar a Laranjeiras o título de “Capital da Cultura Popular” para o Brasil, além de outros ela já tinha recebido como “Museu a Céu Aberto” e “Antena Sergipana”. E foi ali que recebi, com orgulho, o título de cidadão laranjeirense — primeiro por iniciativa de Zé Bodega e depois reafirmado pela Câmara Municipal sob a presidência de Luciano.

Mas é exatamente por esse amor e respeito que não posso me calar diante do que vejo hoje: a substituição sistemática das tradições por festas de largo, povoadas por artistas midiáticos de alto custo, enquanto o município carece de políticas públicas para o povo.

Não estou dizendo que não haja espaço para grandes shows e cultura de massa. Tudo cabe — mas cada coisa no seu devido lugar. É possível fortalecer as tradições e, em outros momentos, trazer atrações populares que movimentem a economia. Pois quando mistura as ações, a cultura sempre perde e assim a cidade também. O erro é sufocar o que é nosso para importar o que já está pronto e caro. Isso não é visão moderna, é miopia cultural.

E o problema vai além. Não se trata apenas de desrespeitar a cultura popular e interferi na função dos Mestres, mas também de mexer na fé da cidade. Setembro, mês do Doloroso, é tempo de devoção a Nossa Senhora das Dores, com suas procissões e trezenas que movem a fé do povo. É também o mês do Corte do Inhame, ritual da tradição afro-brasileira — o Nagô — dedicado ao “Pai da Costa”, onde o inhame é cortado em um momento solene e ancestral. A tradição diz que nenhuma festividade da cidade poderia ser marcada antes da decisão da Lôxa sobre a data do Corte. Esse equilíbrio entre fé, tradição e cultura sempre guiou Laranjeiras. Quando um governante interfere nesse ciclo, não atinge apenas um calendário: fere a alma da cidade.

Na primeira eleição do prefeito, acreditei tanto que compus um jingle que celebrava cada canto e cada manifestação da cidade. Fiz isso porque acreditava que tradição e inovação poderiam caminhar juntas, que a força da juventude somada à história faria de Laranjeiras um polo cultural e turístico sem igual. Mas hoje, vendo o que se desenha, temo ter colocado minha voz e minha caneta a serviço de algo que vai na direção oposta.

Cargos passam, mandatos terminam. O voto popular não dá a ninguém o direito de destruir a identidade de um povo. Ao contrário: é obrigação respeitá-la, apoiá-la e ampliá-la. Só a pouca inteligência ou a ganância impedem de enxergar que há espaço — e lucro político, econômico e humano — nas duas frentes.

Ainda é tempo de rever conceitos. Ainda é possível recolocar Laranjeiras no lugar que lhe cabe. Mas isso exige coragem para não apenas produzir eventos, e sim construir futuro.

Viva Laranjeiras, seu povo e sua cultura.

“E assim eu possa canto com toda força:
Laranjeiras eu sou, na dança do São Gonçalo,
No som da Chegança e do Samba de Pareia…
Laranjeiras eu sou, na dança do Cacumbi,
Do som da Taieira e no canto de Nadir…
Do meu povo guerreiro da Mussuca e dos terreiros.”