Olá, gente boa!

Lá pelos anos de 1973, eu, com meus 13 anos de idade, já tocava violão e compunha algumas canções instrumentais — “estudos” que facilitavam meu aprendizado. Foi nessa época que me deparei com uma canção de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, “Juízo Final”, que dizia:

“O Sol há de brilhar mais uma vez; A luz há de chegar aos corações; Do mal será queimada a semente; O amor será eterno novamente.”

Essa canção, posteriormente gravada por Clara Nunes em 1975, tornou-se minha inspiração e a chave para compreender o momento que o Brasil vivia: a ditadura militar, imposta a todos os brasileiros de 1964 a 1985. Sendo um menino de classe média alta, eu não tinha plena consciência de quanto o nosso povo sofria, nem de como sua liberdade era suprimida a cada instante.

“É o juízo final; A história do bem e do mal; Quero ter olhos pra ver A maldade desaparecer.”

Foi esse estopim que me fez querer compor e usar a música como ferramenta de esperança e resistência. Minha arte passou a ser um grito constante pela liberdade, pela democracia, pela paz e pela luta do bem contra o mal — fosse na política ou no meu trabalho com a cultura.

Nos unimos em grupo: eu, Alexi Pinheiro, Denys Leão, Genival Nunes, Emanuel Dantas, Dalila, Maurício Botto, Cal Alencar, Jairo Bala, Paulo Bedeu e Marcos Passos. Juntos, formamos o grupo Entre Amigos e realizamos dois shows memoráveis no Teatro Atheneu: “Entre Amigos” (1981) e “Brasil Conversa de Fome” (1982). Ambas as apresentações trouxeram como temas centrais a liberdade, a desigualdade e a democracia. No segundo espetáculo, fomos surpreendidos com a presença de seis camburões da polícia militar e dois da Polícia do Exército na porta do teatro. Lá dentro, todos assistiram ao show — e, ao final, foram embora sem entender nada. Eram arrogantes, donos de uma verdade imposta, jovens comandados por capitães sanguinários, ditadores de mão de ferro que pregavam obediência cega, enquanto acumulavam os mais graves pecados.

Mas então, o Sol brilhou mais uma vez, e transformamos nosso país em uma terra de liberdade e democracia. As oportunidades começaram a surgir, as pessoas passaram a pensar, a agir, a se manifestar e a dizer o que pensavam. Contudo, esquecemos de alimentar a memória do caos que vivemos, e assim deixamos brechas para o ressurgimento dos filhotes de Costa e Silva, Curió e Ustra — que de “brilhante” não tinham nada. Eram assassinos, fascistas, não-humanos que mataram, sequestraram, perseguiram e torturaram aqueles que ousavam cobrar melhores condições de vida ou questionar o governo autoritário.

Esses filhotes elegeram um dos seus e, cegamente, apaixonaram-se por um psicopata, transformando-o em “mito”. Tentaram destruir a cultura, pois sabiam que, no fim, a cultura sempre venceria. Foi ela quem derrotou os generais, denunciou a fome, a impunidade, a falta de liberdade e democracia, as perseguições e as mortes de brasileiros comuns que apenas sonhavam com uma vida melhor.

Mas, como cantou Nelson Cavaquinho, “o Sol brilhou mais uma vez e a luz chegou aos corações”. Continuamos aqui, agora com liberdade suficiente para que até esses delinquentes e fascistas possam fazer manifestações, ironicamente gritando que lutam por liberdade e democracia enquanto pedem uma nova ditadura.

Felizmente, a nação não é um time de futebol — que, aliás, perdeu de 4×1 para a Argentina recentemente. Somos o país da democracia, e foi esse país que goleou o fascismo por 5×0. Nossa cultura está de volta, ainda na luta, mas feliz, porque agora vivemos com liberdade.

E assim, como na canção: “Do mal será queimada a semente, O amor será eterno novamente.”