Olá, gente boa,

Há algum tempo eu não escrevia por aqui sobre artistas verdadeiramente apaixonados pelo que fazem. Talvez porque, para ser sincero, faz tempo que não encontro com tanta frequência gente com tamanho talento e, sobretudo, com tanto amor pela própria obra, pela música em si, pela sonoridade, pelos acordes, pelos solos, pelas harmonias, pelos pequenos detalhes que fazem uma canção respirar, ganhar corpo e alma.

Falo daquele artista que não apenas grava uma música, mas a escuta como quem contempla um milagre. Que ouve a própria criação repetidas vezes, degustando cada milímetro da canção, cada entrada de instrumento, cada respiração, cada intenção, até quase flutuar e se desligar do corpo físico. Não por vaidade, mas por encantamento. Por pertencimento. Por amor profundo ao que foi capaz de criar.

Lembro de uma cena antiga, dessas que a memória da gente guarda com muito carinho.

Vindo de São Paulo num voo da Varig — veja só como já vou ficando velhinho — avistei, sentado algumas poltronas adiante, o amigo e cantor e compositor sergipano Antônio Carlos Du Aracaju. Dono de uma obra vasta, bonita e muito particular, Antônio Carlos sempre foi desses artistas inquietos, que pesquisam, que misturam, que bebem em muitas fontes sem perder a identidade. Em sua música cabem os Beatles e Luiz Gonzaga, os aboiadores e os repentistas, a cultura popular e a invenção contemporânea. Tudo isso com muito critério, sensibilidade e verdade.

Ele estava de olhos fechados, com fones nos ouvidos, mergulhado em alguma audição tão intensa que parecia reger uma orquestra invisível. Havia uma concentração tão bonita naquele gesto que achei melhor não interromper. Havia ali, diante dos meus olhos, um homem em comunhão com a própria arte.

Sentei na minha poltrona e seguimos viagem até Salvador. Mais tarde, em dado momento, levantei para ir ao banheiro. Quando voltei, ele seguia ouvindo aquela mesma música empolgante, agora já de olhos abertos. Aí sim me aproximei, cumprimentei-o, e ele, muito alegre, pediu logo que eu sentasse ao seu lado. E foi dizendo, com aquela empolgação de menino que acabou de descobrir um tesouro:

— Irineu, ouça aqui… tá muito lindo! É o meu novo disco!

E emendou, com o brilho no olhar de quem sabia bem o que estava me mostrando:

— Passei vários dias em estúdio, arranjando, montando e gravando esse meu novo LP.

Ouvi boa parte do trabalho ali mesmo, entre as alturas e as nuvens, enquanto ele ia me explicando cada acorde, cada harmonia, os efeitos, a intenção da voz, os caminhos do arranjo. Ele sabia tudo de cor e salteado. Falava do estúdio, dos músicos, do processo de gravação, das escolhas feitas com um entusiasmo contagiante. Era feliz pelo trabalho. Feliz de verdade. Realizado.

Voltei à minha poltrona pensativo. Fiquei me perguntando de onde vinha tanta alegria, tanta paixão pelo próprio fazer. Porque, no meu caso, depois de dias intensos em estúdio, eu costumava me afastar um pouco daquilo. Precisava de silêncio. Precisava dar um descanso ao ouvido para depois voltar e rever o trabalho com distância. Achava — e ainda acho, em certa medida — que o ouvido cansa de tanto conviver com o mesmo som.

Mas aquela cena ficou em mim.

Só mais tarde fui compreendendo melhor esse sentimento. Essa espécie de irmandade entre o artista e a obra. Esse estado de encantamento com o que se faz. E me peguei, eu mesmo, em alguns momentos da vida, ouvindo sem parar canções que compus e gravei para espetáculos, revisitando ideias, me emocionando com detalhes, redescobrindo sentidos. Foi aí que percebi: existem artistas que vivem uma relação amorosa com a própria criação. Não se trata de ego. Trata-se de entrega.

Ao longo da caminhada, fui percebendo esses apaixonados. Essa inquietação harmoniosa. Esse olhar deslumbrado sobre o próprio trabalho. E aqui posso nomear alguns que foram, são e sempre serão referências nesse jeito de amar profundamente a música: Alcides Melo, João Melo, Lina Sousa, Joésia Ramos, Saulo Ferreira, Ricardo e Rebeca Vieira, entre tantos outros que honram a arte não apenas com talento, mas com devoção.

E foi justamente nesse espírito que março me reservou uma bela surpresa.

Participei, em Olinda, do Festival Canavial. E comigo estava o amigo Fernando Montalvão, que me convidou para irmos à casa de Juba. Sinceramente, naquele primeiro momento, nem me lembrava direito de quem Fernandinho falava com tanto carinho e afeto. Seguimos até um bonito sobrado no centro de Olinda, numa daquelas ruas boêmias cheias de bares, música, encontros e arte, como tantas que fazem daquela cidade patrimônio um território onde a cultura parece brotar das paredes.

Quando avistei, pela janela do casarão, o rosto do anfitrião, a ficha caiu. E confesso: num primeiro instante quase me confundi, porque ele lembra muito o pai no começo da carreira.

Era Juliano Miranda Valença, que assina artisticamente como Juba Valença. Cantor, compositor e músico pernambucano, Juba carrega no sangue um DNA de nobreza musical nordestina e universal. Filho de Alceu Valença, de quem muito justamente se orgulha, ele não tenta fugir dessa herança. Ao contrário: honra esse berço com personalidade, autenticidade e vontade própria.

Juba estreou na música em 2020 com o disco Ethos, trabalho em que mistura ritmos nordestinos com referências universais, revelando desde cedo uma cabeça aberta para experimentações e travessias sonoras. Em 2023, lançou o EP São Jubão, com foco no forró, mostrando intimidade com a tradição e, ao mesmo tempo, liberdade para atualizá-la. Há no seu trabalho uma singular capacidade de dialogar com linguagens distintas, reproduzindo com identidade própria essa mistura de forró, beats e sintetizadores que Assisão, outro grande ícone da música pernambucana, já experimentava com ousadia ainda nos anos 1980.

E agora Juba começa a entrar de corpo inteiro no universo do frevo com o projeto Freverá, criação sua, que já teve estreia no Galo da Madrugada, símbolo maior da alegria popular pernambucana. Também se apresenta em espaços como a Casa Estação da Luz, em Olinda, consolidando uma caminhada que mistura pesquisa, pulsação popular e visão contemporânea.

Mas mais do que currículo, o que me encantou em Juba foi a presença.

Ele nos recebeu com alegria genuína e muita cortesia. Estava visivelmente feliz por nos ter em sua casa, contente por rever Fernandinho e totalmente à vontade para compartilhar o que estava criando. Conversamos, bebemos cerveja, falamos de música, da vida, das estradas, até que em certo momento ele puxou o celular e disse, com aquele sorriso de quem guarda um segredo precioso:

— Quero mostrar umas coisas para vocês… mas é sigilo.

Ligou o som e começou a nos apresentar algumas canções do novo EP que está gravando.

Como é sigilo, respeito aqui esse pacto e não vou revelar o que ouvi. Mas posso dizer, sem medo de errar, que ali descobri um dos artistas mais apaixonados pela música e pelo próprio trabalho que encontrei nos últimos tempos. Era só amor. Só tesão criativo. Só orgulho saudável da própria obra, da própria identidade, da estrada que está construindo e, sobretudo, do berço musical de onde veio.

Passamos algumas horas ouvindo Juba falar daquele novo trabalho. E era bonito demais ver a forma como ele se relacionava com cada faixa. Falava dos solos, dos grooves, dos encaixes harmônicos, das vozes, das homenagens, dos timbres, dos climas. Cada canção parecia ter para ele não apenas uma estrutura, mas uma história, uma imagem, um sentimento, um mundo inteiro dentro.

E havia mais: Juba gosta de ouvir. Gosta de trocar. Gosta de saber das histórias dos outros. Pergunta, quer conhecer o som da gente, quer ouvir opinião, quer entender caminhos. Isso é coisa rara. Muito rara. Porque talento sem escuta às vezes vira vitrine. Mas talento com curiosidade, generosidade e fome de mundo vira arte viva.

Com formação em cinema, Juba tem ainda uma visão privilegiada da criação. Dirigiu o curta Cavalo Concreto e lançou, junto com o pai, o single Meu Querido São João, canção composta por Alceu para a trilha de A Luneta do Tempo. Essa dimensão cinematográfica parece contaminar o seu olhar para a música. Juba escuta e pensa em CinemaScope: tudo é amplo, em formato aberto, em widescreen, cheio de cor, movimento, profundidade e intenção. Sua música parece querer não apenas ser ouvida, mas também vista.

Juba Valença foi, para mim, uma feliz surpresa. Um achado precioso nesses tempos em que tanta coisa anda marcada pelo desamor, pela pressa, pela superficialidade e por uma certa futilidade que castiga a arte. Em meio a tanta coisa rasa, encontrar um jovem artista com esse grau de envolvimento, respeito e paixão pelo que faz renova a esperança.

Sua presença traz alento à nossa combalida Música Popular Brasileira. Traz frescor sem romper com a raiz. Traz invenção sem desprezar a tradição. Traz juventude sem arrogância. Traz história sem peso. E, acima de tudo, traz amor — esse ingrediente que sempre foi a matéria-prima das grandes obras.

Que venham seus discos, seus frevos, seus forrós, seus voos, seus filmes, suas ousadias e seus encantamentos.

Porque quando um artista ama de verdade o que faz, a música agradece. E nós também.

Viva Juba. Viva Valença. Viva a música feita com alma.