Olá gente boa!
Hoje, compartilho com você um dos momentos mais tocantes que vivenciei enquanto estava à frente da pasta da cultura na cidade de Laranjeiras. Foram muitas ocasiões marcantes, mas uma delas se destaca como uma memória que permaneceu gravada profundamente em meu coração e mente.
Laranjeiras é uma cidade que abraça a miscigenação e o sincretismo religioso, sendo conhecida como a “cidade das misturas”. Com suas 22 igrejas e capelas, além de mais de 27 terreiros de religiosidade afro, é um local que celebra e valoriza a diversidade cultural. Além disso, é o berço da primeira igreja presbiteriana do Brasil e tem uma forte presença do espiritismo através de figuras como Bitencourt Sampaio.
Em Laranjeiras, durante o Encontro Cultural, somos presenteados com a festa de Reis e a coroação da Rainha das Taieiras ou Rainha do Nagô, uma cerimônia realizada na Igreja de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, santos negros e padroeiros dos escravos que lutavam por sua liberdade. Nesse momento especial, grupos como a Chegança e o Cacumbi realizam um cortejo, entrando na igreja cantando e saudando São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. É uma cena de beleza e emoção ímpar.
Durante os cinco anos em que coordenei o Encontro Cultural, um ano em particular ficou marcado de maneira especial. Enquanto a cerimônia acontecia na entrada da igreja, notei que o Mestre Juarez, do Cacumbi de Itaporanga, estava visivelmente emocionado e com lágrimas nos olhos. Preocupado, me aproximei dele e perguntei se estava tudo bem, considerando o calor intenso. Ele respondeu que sim, mas que estava profundamente emocionado ao ver os grupos entrando na igreja e saudando seus santos, algo que ele não tinha a oportunidade de fazer em seu próprio município.
Tomado por empatia, fui até Antônio Carlos, coordenador do cacumbi, e pedi para que Seu Deca convidasse o Mestre Juarez a entrar na igreja com o grupo. E assim foi feito. Os dois entraram juntos, cantando e louvando, enquanto lágrimas de emoção rolavam. Essa cena permanece gravada na minha memória como um momento de pura autenticidade e devoção.
Por um acordo com Antônio Carlos, decidimos que o Cacumbi de Juarez seria o último grupo a entrar na igreja naquele ano. O emocionante encontro entre Mestre Juarez e Seu Deca resultou em uma experiência profunda, com ambos os grupos entrando na Igreja São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, entoando cânticos de agradecimento e louvor aos seus santos. A emoção tomou conta de todos, e a cerimônia foi celebrada com grande intensidade e união.
Nos anos seguintes, o Cacumbi do Mestre Juarez teve uma participação ativa na coroação das Taieiras, dando continuidade a esse momento de celebração e devoção. Infelizmente, recetemente, o Mestre Juarez nos deixou para encontrar-se com seu amigo e companheiro Deca, para continuarem louvando São Benedito e Nossa Senhora do Rosário juntos. Nossa cultura chora essa perda, e o medo de perder os mestres que tanto amamos e valorizamos toma conta de nós. Mas entre as festividades, reservaremos um momento para honrar a lei que foi criada em defesa da cultura popular e de seus mestres.
Espero que a gestão pública, que compreende de verdade a importância desses mestres para a manutenção da cultura popular em Sergipe, tomará medidas nesse momento delicado. A despedida de Juarez nos faz lembrar da vitalidade e do poder da cultura popular em nossas vidas. Sei que você foi em paz, meu amigo Juarez, sua memória viverá em cada nota de sua música e em cada passo de sua dança. Viva Juarez, viva a Cultura Popular, Viva Laranjeiras!
