Olá, gente boa!

 

Vira e mexe me pego refletindo sobre os caminhos que escolhi trilhar. Entre acertos e tropeços, sigo tentando deixar um legado nesse chão que abracei como ofício e missão: o chão fértil da cultura. Sempre acreditei que minhas escolhas precisavam ter lado — e esse lado sempre foi o da coerência com minha história, com meu povo e com aquilo que pulsa dentro de mim.

Foi por isso que lutei, questionei, cobrei e me fiz ouvir na construção de políticas públicas que reconhecem, valorizam e respeitam a cultura do nosso lugar. Assim nasceu a Lei Mestres dos Mestres da Cultura Popular de Laranjeiras — cidade que respira cultura em cada esquina, onde o patrimônio material e imaterial se entrelaçam na dança dos tempos. E foi também com esse espírito que, junto ao governo Jackson Barreto, idealizamos a Lei da Cultura Viva do Estado de Sergipe, sancionada nos últimos momentos da gestão Belivaldo e, felizmente, hoje colocada em prática no governo Fábio Mitidieri.

Ontem, 1º de agosto, vivi uma celebração simbólica e emocionante: os 15 anos do reconhecimento da Praça São Francisco como Patrimônio Mundial da Humanidade. Um momento para honrar e lembrar. A praça, em São Cristóvão, é uma joia histórica, reconhecida pela Unesco como fusão rara de estilos e culturas. Nascida durante a União Ibérica (1580–1640), quando Portugal e Espanha estavam sob o mesmo rei, ela traduz o encontro do urbanismo português com a concepção de “Praça Maior” das colônias espanholas. É um retrato vivo dos primeiros traços da nossa formação urbana.

A celebração também marcou a reabertura do Museu Histórico de Sergipe, com um acervo belíssimo e comovente: obras de Horácio Hora, Jenner Augusto, José Augusto Garcez, além de salas dedicadas à monarquia brasileira. O prédio, imponente e carregado de simbolismo, já foi sede do governo provincial — é, por si só, um capítulo vivo da nossa história.

Ali, diante daquelas janelas coloniais, deixei minha imaginação correr solta. Vi a chegada da corte, os passos apressados nas pedras do chão, a dança mágica de Rindu e sua Caceteira, os movimentos hipnóticos de Lú Spinelli nos Festivais de Arte, a ginga do Cacumbi, o perfume da história atravessando os séculos. É dali que contemplo o passado e projeto o futuro. Sonho que meus netos, bisnetos — e os filhos deles também — visitem essa mesma praça, esse mesmo museu, e que, dessas janelas, reconheçam com orgulho a nossa história, a nossa identidade.

E é por essa mesma janela que reflito, com humildade e convicção, sobre o lugar de quem faz cultura nesse país. Aprendo todos os dias que a luta é dura, muitas vezes ingrata, mas profundamente inspiradora. Basta olhar para o lado e ver outras janelas acesas: Aglaé D’Avila Fontes, com seus 90 anos dedicados à cultura; Thiago Fragata, Rosângela Reis, Terezinha Oliva, Vânia Dias Correia, Henrique, Adailton, Samuel, Hildênia, Beatriz… tantos nomes, tantas lutas, tantas sementes plantadas com coragem e amor. E não esqueço dos que já partiram, mas deixaram suas marcas eternas.

Essa gente não faz da cultura um adereço turístico, nem um post de Instagram ou TikTok. Faz da cultura um instrumento de identidade, de resistência e de pertencimento. É com essas pessoas que me abasteço. É com elas que sigo acreditando: cultura não é só festa, é ferramenta de transformação.

Por isso, precisamos preservar e valorizar nosso patrimônio material e imaterial com políticas públicas sérias, permanentes e comprometidas. Isso significa investir em educação patrimonial, garantir recursos para conservação dos bens históricos, apoiar nossos mestres e fazedores, e fomentar políticas de salvaguarda contínua. É preciso envolver as comunidades, integrar o patrimônio às ações de turismo e desenvolvimento local, e, sobretudo, reconhecer o valor simbólico, social e econômico da cultura.

Cuidar do que é nosso é afirmar quem somos. É fortalecer nossa memória coletiva. Isso sim é política pública com alma, com direção e com esperança. Isso é cultura protagonista.

E é por essas janelas — do passado e do futuro — que sigo olhando e acreditando.