Olá, gente boa,

A vida inteira aprendi que arte e cultura nunca foram inimigas de ninguém. Pelo contrário: sempre foram cura, abrigo, remédio, reza, salvação. Quem vive da cultura — como eu vivo desde menino, desde o primeiro canto afinado até hoje, caminhando entre palcos, salões, terreiros, praças e governos — sabe que ela cicatriza feridas que médico nenhum alcança. Cultura sara a mente, o corpo e a alma.

Mas chegou um tempo sombrio, e como todo mundo, eu também vi de perto um monstro crescer. Um fascismo disfarçado de opinião, um veneno que se espalhou feito praga, feito vírus invisível. E que, quando a gente menos percebeu, estava ali: entrando nas casas, nos grupos de amigos, nos lares, nos afetos, nos sonhos e até nos corações mais distraídos.

Perdi familiares e amigos. Outros se perderam de si mesmos. Gente boa se separou, famílias se partiram… Tudo por causa dessa doença moral que se espalhou pelo mundo, uma pandemia que não tinha testagem, que não tinha máscara que bastasse. Uma insanidade coletiva que fez a humanidade adoecer.

Essa destruição que vimos — e que ainda vemos — é a marca de uma gente que esqueceu o básico: o que é ser humano.

Sim, eu quero minha vida de volta. Quero o melhor para os meus, para os nossos, para todos nós. Quero o país que tínhamos antes da praga, e o que ainda podemos ter depois dela.

Se tem que punir, que se puna. Se tem que perdoar, que se perdoe. Mas que se reconheça uma verdade dura: essa doença não tem cura fácil. E até agora, nenhuma vacina emocional foi capaz de afastar totalmente esse mal.

Por isso eu digo: Prendam esse vírus em redoma de aço.

Isolado, estudado, controlado — até que entendam que democracia não tem dono, nem tutor, nem coronel. Democracia é para todos.

E nela cabem três pilares que nunca podem sair de moda: respeito, liberdade e solidariedade.

A culpa também é nossa.

Nós, que às vezes descuidamos.

Nós, que subestimamos o perigo.

Nós, que achamos que o mal não chegaria tão perto.

Mas o mundo pertence a todos nós. E se pertence, então cuidar também é nossa parte.

Talvez estejamos no fim.

Mas se for mesmo o fim, que seja o fim de um ciclo doente, para que a gente tenha, enfim, uma chance de recomeçar direito.

Com arte

Com cultura.

Com humanidade.

Com coragem de reconstruir o que a praga tentou destruir.

Porque, no final das contas, a salvação sempre esteve naquilo que criamos juntos:
o canto, o riso, o afeto, a memória, a festa, o teatro, a dança, o forró, o encontro, a esperança.

Que a redoma nos proteja.

Que a democracia nos guie.

E que a cultura — essa velha amiga fiel — continue sendo o nosso melhor remédio