Olá, gente boa,

Nessa minha vida na cultura e na música, já tive encontros de todos os tipos. Trabalhei com gente dos mais diferentes jeitos, temperamentos e visões de mundo. Quase sempre aprendi como fazer. Mas também encontrei pessoas que me ensinaram exatamente como não devemos fazer ou agir. Dessas lições, a gente nunca esquece.

Cada pessoa tem sua maneira de enxergar o mundo, e foi assim que aprendi a conviver com as diferenças. Na música, conheci artistas, compositores e cantores que carregavam universos muito particulares. Para trabalhar com eles, era preciso entrar um pouco em cada um desses mundos. Afinal, o que sempre me interessou foi o talento e a criatividade.

Na produção musical, descobri que o produtor também precisa ser um pouco psicólogo. Há quem só consiga entregar o melhor sob pressão, no grito, na cobrança intensa. Outros florescem apenas com carinho, confiança e atenção. O segredo é entender cada pessoa e ajudá-la a alcançar seu melhor.

Na gestão pública, o desafio é ainda maior. Não lidamos com uma pessoa de cada vez, mas com todas ao mesmo tempo. São disputas por espaço, salários, reconhecimento, poder de decisão, egos, sonhos e urgências. É nesse momento que o trabalho do gestor realmente começa.

Costumo brincar que gerir pessoas é como “gestar sem nunca ter engravidado”. É preciso cuidar, proteger, orientar, decidir e, muitas vezes, assumir sozinho o peso das escolhas.

Lembro sempre de uma frase atribuída a Che Guevara:

“É preciso ser duro, mas sem perder a ternura, jamais.”

A decisão pode ser sua. A responsabilidade também. Mas o resultado sempre será coletivo. E, acima de tudo, o respeito precisa prevalecer.

Ao longo da caminhada, você aprende a dialogar tanto com doutores e pós-doutores quanto com homens e mulheres das comunidades que conhecem, na pele, aquilo que muitos estudam apenas nos livros. É o encontro entre a teoria e a prática. Entre a tese e a vida. Entre o sonho e o fazer acontecer.

Foi assim que conheci pessoas que se tornaram fundamentais na minha formação.

Uma delas foi Maria Aurelina, ou simplesmente. Maurelina Santos. Pedagoga, atriz, pesquisadora e uma das maiores agitadoras culturais que Sergipe já teve, Maurelina dedicou sua vida à cultura popular. Conviveu com mestres dos Reisados, Guerreiros, Bacamarteiros, Sambas de Coco, Cavalhadas, São Gonçalo, Cacumbi, Taieiras, Cheganças, Ternos de Zabumba e tantas outras manifestações que formam a identidade do nosso povo.

Ao lado do pesquisador Antônio Amaral, realizou uma das mais importantes pesquisas sobre os Penitentes. Participou da fundação do Grupo Imbuaça, em 1977, trabalhou na Fundesc e na Secretaria de Estado da Cultura.

Mais do que pesquisar ou registrar, Maurelina amava as pessoas. Tratava mestres e brincantes como irmãos. Defendia cada manifestação como quem protege a própria família. Graças ao seu trabalho, até a sua partida, muitas tradições sobreviveram ao tempo.

E foi justamente essa inspiração que, anos depois, encontrei novamente em outra pessoa.

Quando retornei à Secretaria de Estado da Cultura, como secretário adjunto de Elber Batalha, comecei a montar uma equipe de trabalho. Sempre preferi valorizar quem já estava na casa. Acredito que toda instituição guarda talentos que, muitas vezes, só precisam de uma oportunidade.

Foi então que alguém me disse:

— Tem uma menina lá no Gonzagão que dá oficina de teatro e também é excelente produtora.

Assim conheci Grazielle Alves Silva Coutinho, a nossa querida Grazzi Coutinho.

Ela chegou para colaborar na produção do Festival de Artes Cênicas e do Encontro Nordestino de Cultura, no Arraiá do Povo, ao lado de Mercinha Barreto.

Desde o primeiro momento mostrou competência, responsabilidade, dedicação e uma capacidade impressionante de fazer acontecer. Aos poucos, tornou-se uma das grandes articuladoras da política cultural sergipana.

Licenciada em Pedagogia e Teatro, atriz, diretora, produtora e agente cultural, Grazzi é hoje uma das figuras mais importantes da Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe (Funcap). Coordena projetos estratégicos e participa ativamente das discussões que ajudam a construir políticas públicas para a cultura.

Mas existe algo ainda mais importante do que qualquer currículo.

Assim como Maurelina, Grazzi ama profundamente a cultura popular. E esse amor não se aprende na universidade.  Constrói-se na convivência. Na escuta. No respeito. No abraço.

Foi exatamente isso que fez com que conquistasse o carinho, a confiança e o reconhecimento dos mestres e brincantes de Sergipe. Não pela função que ocupa, mas pela forma como trata cada um deles.

Vejo, em tempos diferentes, duas mulheres ligadas pelo mesmo propósito.

Maurelina abriu caminhos. Grazzi continua a caminhada.

Ambas compreenderam que a cultura popular não sobrevive apenas de editais, leis ou recursos. Ela sobrevive, principalmente, pelas pessoas que dedicam suas vidas a cuidar daqueles que mantêm viva a nossa memória.

Quando penso em cultura popular sergipana, penso em Cheganças, Taieiras, Reisados, Penitentes, Cordel, poetas populares, mestres e brincantes.

Mas também penso em pessoas como Maurelina e Grazzi. Elas talvez não estejam sempre no palco. Nem sejam as protagonistas das fotografias. Mas são parte essencial da história que continua sendo escrita todos os dias.

Vida longa à cultura popular. Vida longa aos nossos mestres e brincantes. E vida longa às mulheres que escolheram dedicar suas vidas a proteger a alma cultural de Sergipe.

Viva Maurelina.

Viva Grazzi.

E viva a Sergipanidade.