Olá, gente boa,

Minha passagem por Laranjeiras, onde tive a honra de ser Secretário da Cultura por cinco anos, me deu régua, compasso e, sobretudo, um aprendizado profundo da alma humana. Foi ali, no calor das vivências, que recebi alguns dos títulos mais importantes da minha vida — não aqueles escritos em papel, mas os que vêm do reconhecimento verdadeiro do povo.

Um deles me marcou profundamente.

Em uma das muitas rodas de conversa que realizei com os quase 27 terreiros da cidade, em meio a um daqueles debates acalorados que fazem a gente crescer, ouvi de um dos participantes:

— Secretário, você é um justiceiro.

Aquilo me atravessou.

Como diria uma amiga cigana, eu era um gadjó, por não ser cigano. E, na religião afro, um aborí, um leigo, alguém de fora. Perguntei, então, o significado daquilo tudo.

E ele me respondeu com a sabedoria de quem vive:

— A justiça, na nossa tradição, é uma força cósmica que restabelece a ordem, protegendo e garantindo a caminhada. Indica que sua energia atua sob a regência da lei, da verdade e do equilíbrio.

Aquilo não era só uma fala. Era um reconhecimento.

Depois, claro, fui pesquisar melhor — achei bonito demais. Era como dizer que minha caminhada estava alinhada com essa força de equilíbrio, com esse “machado de dois gumes”, o Oxé, que corta para os dois lados: pune o injusto e protege o honesto.

Nem sempre sou compreendido. Mas sigo. Sempre tentando acertar.

E é nessas caminhadas da vida que a gente vai encontrando almas e corpos. Alguns com talento de sobra, outros que compensam com trabalho e determinação. Mas, acima de tudo, gente com sonhos — com essa vontade bonita de mostrar sua arte ao mundo.

Alguns dizem: “Faço minha arte e pronto, quem quiser que aceite.” Podem até ter razão.

Mas eu sempre escolhi outro caminho: trabalhar para que minha arte encontre as pessoas. Para que a mensagem chegue, toque, reverbere. Não sou influencer. Gostaria mesmo é de ser inspiração.

E foi nesse percurso que, já como gestor, conheci muitos artistas das artes visuais, levados por Antônio da Cruz e Mário Brito. Estávamos discutindo o primeiro edital de ocupação da Galeria J. Inácio, recém-instalada na Biblioteca Epifânio Dórea — um espaço que, infelizmente, já não é mais o mesmo.

Aquele edital nasceu de uma provocação do Fórum de Artes Visuais. E à frente dele estava uma jovem chamada Gabi Etinger.

Ali, naquele ambiente de ideias fortes e posições firmes, conseguimos construir juntos. Chegar a um ponto comum. Realizar um edital que marcou uma fase bonita da gestão e do próprio Fórum.

Não criamos proximidade naquele momento. Os caminhos se afastaram.
Mas ficou uma impressão muito clara: uma jovem determinada, afiada nas suas convicções, mas, acima de tudo, uma pessoa do bem. Sem mágoas. Sem dureza no coração. Apenas com a certeza do seu trilhar.

E isso diz muito.

Agora, anos depois, acompanhando de longe sua trajetória — porque gosto disso, de reconhecer talentos — recebo o convite para sua nova exposição:

“Arte, processo & sentir”

E lá fui eu.

Numa sexta-feira, em uma semana corrida, cheguei ao espaço Sabor do Bem. E, logo de cara, fui tomado por uma sensação rara: calma. Aquele silêncio que acolhe. Que desacelera. Que abraça sem fazer alarde.

Confesso que, muitas vezes, me sinto um peixe fora d’água em certos ambientes. Mas ali não.

Ali fui ficando.

E o que encontrei foi mais do que uma exposição. Foi um mergulho.

Envolvida nesse espírito de busca e amadurecimento, Gabi apresenta uma trajetória que mistura design gráfico, xilogravura, intervenção urbana e uma inquietação criativa que não se acomoda. Em trabalhos como “Tramas”, ela funde técnica e emoção, trazendo o coração como símbolo central — esse lugar onde tudo pulsa, onde tudo se emaranha, onde a vida se revela sem filtro.

Na xilogravura, os cortes são quase orgânicos, como se esculpissem sentimentos.

No ploter, a cor aparece como respiro, como expansão.

E na instalação, ela nos provoca: não basta ver — é preciso vivenciar.

Gabi não faz arte para explicar.

Faz para sentir.

E isso, hoje, é revolucionário.

Sua trajetória, iniciada ainda em 2005, logo após sua formação em Design Gráfico pela Unit, é marcada por experiências que atravessam o tempo e o fazer: Xiloanime, Êxodo, Minha Verdade é Vermelha. Sempre transitando entre o artesanal e o contemporâneo, entre o popular e o urbano, entre o íntimo e o coletivo.

Sem levantar bandeiras óbvias, ela carrega Sergipe no olhar. Na escolha das referências. Na forma de construir. E isso é o que mais admiro: a identidade que não precisa ser anunciada — ela simplesmente é.

Mesmo com a maternidade, com a vida acontecendo, Gabi não se afastou da arte. Pelo contrário — aprofundou. E isso é escolha. É compromisso. É verdade.

“Gabigrafia” é mais do que uma exposição.

É uma travessia sensível.

Um convite para desacelerar. Para enxergar com mais presença. Para entender que a arte — quando é verdadeira — não grita. Ela pulsa.

E Gabi pulsa.

E eu, que sigo acreditando no talento, na verdade e na força da criação, saí dali com a certeza de sempre:

Vale a pena.

Vale a pena insistir.

Vale a pena acreditar.

Vale a pena reconhecer.

Porque quando a arte encontra o seu lugar…

ela encontra a gente também.

E isso, minha gente, não tem preço.

 

Vale apena ter essa experiência

GABIGRAFIA

Aberto ao público

Entrada livre

Sabor do Bem

Avenida Tancredo Neves, 336 – Piso Térreo