Olá, gente boa!
Aos 10 anos de idade, na minha querida Estância, foi meu avô José Alves, conhecido como Dedé Sombrinha, quem me ensinou a soltar uma espada – um tipo de buscapé que não estoura no final. Para quem não conhece, o buscapé é um tipo de rojão que se move em zigue-zague, raspando o chão, típico das festas juninas estancianas. Ele é feito com bambu e, ao ser aceso, percorre o espaço com um chiado estridente até o estrondo final. Dizem que o nome “buscapé” vem do hábito de soltá-lo perto das pernas das pessoas, como uma “busca” aos pés. Tradições que, por aqui, passam de geração em geração.
Foi nessa vivência – acendendo fogueiras nos dias de São José, São João e São Pedro, soltando buscapé, cantando e dançando forró nos bailes e quadrilhas juninas – que cresci. Desde os tempos do Jardim de Infância Augusto Maynard, passando pelo Arquidiocesano, Graccho Cardoso e Salesiano, já em abril a gente ensaiava para dançar em junho. Assim aprendi que minha terra, Sergipe, sempre foi – e é – o verdadeiro País do Forró.
Me tornei cantor, compositor, gravei discos, fiz muitos shows ao longo do ano – e, claro, no mês de junho o forró dominava a agenda. Cantava meus xotes, baiões, xaxados, arrasta-pés e galopes. Repertório que incluía clássicos de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Nando Cordel, Rogério, Antônio Carlos Du Aracaju, Jorge de Altinho, Clemilda, Amorosa, Marinês, Petrúcio Amorim, Ismar Barreto… Tempos de profundo respeito às tradições nordestinas e sergipanas.
O forró é mais que um gênero musical — é um modo de viver, dançar, amar e resistir. Nascido no coração do Nordeste, traduz em notas, versos, passos, cheiros, cores e sabores a alma de um povo que, mesmo diante da seca, da dor e das lutas, nunca perde o sorriso nem o compasso. E quando o nordestino seguiu rumo ao Sul e Sudeste, carregando saudade no peito, foi o forró que ficou na cabeça, no corpo e na alma. Apresentado ao Brasil por essa gente forte e destemida, o forró se espalhou — como semente que brota longe, mas nunca perde a raiz.
Com raízes profundas e múltiplas, o forró nasceu da mistura de ritmos e culturas: do baião ao xote, do arrasta-pé ao forró pé-de-serra, passando por fusões urbanas e contemporâneas, ele se reinventa sem perder sua essência. Nos palcos juninos, nos terreiros de terra batida, nos forrobodós do interior ou nas casas de show das capitais, o forró pulsa como identidade viva.
Luiz Gonzaga, o eterno Rei do Baião, foi o grande responsável por levar o forró aos microfones das rádios e aos salões do Brasil. Com sua sanfona, zabumba e triângulo, tornou visível a vida do sertanejo e abriu caminho para tantos outros. Mas o forró é coletivo: são os mestres anônimos, os compositores, os dançarinos, as quadrilhas e comunidades inteiras que mantêm a chama acesa — mesmo diante da pasteurização, da indústria cultural e da ameaça do esquecimento.
Em cada cidade, em cada vila, sempre nasce mais um forrozeiro ou forrozeira. Famílias inteiras vivem da arte, da música e do amor à cultura. O forró é também sustento, é dignidade, é um dos condutores do desenvolvimento social do nosso povo.
Reconhecer o forró como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, como fez o IPHAN em 2021, não é apenas um gesto simbólico. É uma responsabilidade histórica. É manter viva a chama que aquece memórias, costura pertencimentos e projeta o Brasil que dança com suas raízes. Nós, do País do Forró, temos o dever de cuidar dessa tradição com verdade, sem diluir sua identidade na pressa das redes ou na confusão das influências. Que os jovens saibam reconhecer o que os representa.
Sergipe é um verdadeiro celeiro junino, com arraiais espalhados pelos 75 municípios. Lá pelos anos 1990, no governo Albano Franco, o jovem Fabiano Oliveira criou a marca “Sergipe é o País do Forró”, com o apoio de nomes como Hélvio Dórea, Antônio Rolemberg e o grande artista Rogério. Sempre cabe mais um no coração do forrozeiro, mas os visitantes precisam saber: a casa é nossa — e está de portas abertas para todos.
Hoje o forró é Patrimônio dos Brasileiros, com muito orgulho e alegria. E mais: o movimento agora é pela sua internacionalização. A candidatura do forró para ser reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO já começou. À frente, todos os estados nordestinos, capitaneados pela Paraíba, Pernambuco, pelo Balaio Nordeste e pelo Fórum Nacional de Forró de Raiz, onde Sergipe sempre esteve presente, representado por artistas como Amorosa e Jailson do Acordeon.
Já foram reunidos documentos e pesquisas que comprovam o valor do forró como expressão artística e identitária. O projeto conta com o apoio de 14 estados brasileiros (todos os do Nordeste e do Sudeste, além do Distrito Federal) e de ao menos 30 países. Em reunião com o presidente do IPHAN, seus assessores e representantes das secretarias de estado o processo foi iniciado.
Este é o momento crucial. Precisamos de um grande movimento de pertencimento, de valorização e de orgulho. De mostrar ao mundo o que somos. O que temos. O que defendemos. Pois somos, filhos e netos do forró, respeite nossa família. Porque o País do Forró é democrático, livre, aberto a todos — mas sabe proteger suas fronteiras culturais. E uma delas é essa: o forró é nosso. É do povo. É do Brasil.
