Olá, gente boa!
A vida sempre me ensinou que a cultura é muito mais do que festa, palco e aplauso. Cultura é caminho, pertencimento, economia, educação e identidade. Mas, claro, sempre aparece um ou outro que usa cultura como piada de salão — daquelas bem sem graça, de mesa de bar sem gelo.
Depois de mais de 40 anos nessa vivência cultural — entre música, produção e gestão — acumulei histórias que daria para escrever um livro só de causos. Hoje resolvi contar apenas dois… mas que valem por vinte.
Fiz muitos shows por esse Sergipe afora, e Cassia, minha companheira de vida, sempre reclamava que eu não a levava. E eu explicava:
— “Meu amor, eu tô trabalhando… não posso te dar atenção no meio da correria.”
Mas em certo São João, resolvi levar. Dois shows na mesma noite, cidades perto de Aracaju. Tudo ia se encaixando.
Chegamos na primeira cidade às 20h: praça da matriz, palco grande, som maravilhoso e o público daquele jeito — animado, afiado e pronto pra dançar. Minha banda completa: Nor na bateria, Carlinhos nos teclados, Miltinho na guitarra, Flor no baixo, Chicão na percussão, Marcos Trolleis na produção e Augusto da Apa como empresário.
Tudo fluía bem… até que percebo um sujeito cambaleando perto de Cassia. Assediando, insistindo. Olhei para Marcos. Marcos entendeu. Foi lá, tirou. O homem voltou. Marcos tirou de novo. Voltou de novo. Na terceira, Marcos já estava quase arrumando uma tendinite de tanto carregar o cabra.
Aí perdi a paciência. Coloquei o microfone no pedestal, e eu mesmo puxei o elemento pelo braço e fiz ele descer do palco. O homem estava tão bêbado que não sabia nem quem era. Tirei, voltei, cantei, tudo ficou em paz.
No final do show, já na saída da cidade, Augusto me puxa e diz:
— “Rapaz… você expulsou o contratante do palco.”
Eu travei.
E ele completou: — “Mas a sorte é que ele tava tão bêbado que não lembra de nada. E outra: já recebi o cachê.”
Eu apenas sorri. Olhei pra Cassia. Ela me olhou de volta daquele jeito de “Agora entendi por que você não queria me levar.”
Mas a noite era uma criança. Partimos para o segundo show. Estrada escura, van pulando mais que sanfona em festa de roça. Em certo momento atravessamos um rio — isso mesmo, um rio — para chegar à cidade.
De longe ouvimos o som da festa. Mas ali não era praça, não. Quando descemos, percebi que o show seria… dentro do mercado municipal. Palco improvisado, som mais ou menos — mas nada que eu já não tivesse enfrentado.
A banda se aprontou, passou o som como deu. Quando estou subindo no palco, Cassia me puxa pela manga da camisa: — “Meu filho, olhe para as paredes.”
Olhei. E era o mercado de carnes.
Paredes cheias de ganchos de aço. Daqueles que seguram uns dez quilos de picanha fácil. Um festival de armadilhas brilhando atrás de mim.
Naquela hora, lembrei logo do meu avô Dedé Sombrinha: — “Forró sem faca peixeira não é forró de macho.”
E eu, que nunca fui tão macho assim, passei o show inteiro cantando e vigiando os ganchos — com medo de um deles desaparecer misteriosamente no meio do baile.
O forró varou a madrugada. Ao final, encontrei o prefeito, que disse rindo: — “Cabra, o forró foi bom mesmo! Ninguém brigou. E olhe… nós esquecemos de tirar os ganchos das carnes. Se tivesse briga, ia ser bonito.”
E saiu gargalhando, como se aquilo fosse teste de aptidão artística.
Depois dessa noite, sempre que chamava Dona Cassia para ir comigo, ela fazia um questionário mais difícil que edital de fomento:
— “Vai ser onde?”
— “É praça ou é açougue?”
— “Tem gancho pendurado?”
— “Quem é o contratante? Vai estar sóbrio?”
E muitas vezes ela mesma encerrava:
— “Tenho três filhas para criar. Vá só.”
E eu ia. Rindo. Porque com cultura é assim: a gente vive, sofre, aprende e depois vira história boa pra contar.
