Olá, gente boa,
Venho acompanhando um debate que já deixou de ser regional e passou a ser nacional.
Artistas tradicionais do forró, alguns dos maiores nomes da música nordestina, vêm denunciando a perda de espaço nos festejos juninos. Em vários estados surgem movimentos, manifestos e campanhas pedindo mais respeito ao forró e aos seus artistas.
Não faltam exemplos.
Grandes nomes reclamam da redução dos espaços nas programações. Artistas denunciam a descaracterização das festas. Produtores apontam a concentração de recursos em poucas atrações. E gestores se defendem dizendo que estão apenas atendendo ao gosto do público.
A pergunta é: quem está certo?
Talvez todos tenham uma parte da razão.
Mas acredito que estamos discutindo apenas os efeitos de um problema muito maior.
Nos anos 80, nós, artistas locais, já sentíamos isso na pele. Éramos substituídos pelos artistas regionais emergentes que chegavam trazidos por empresários mais estruturados. Depois vieram as grandes bandas eletrônicas. Mais tarde surgiram novos estilos, novos mercados e novas formas de consumo musical.
O tempo passou e a cultura começou a ser tratada cada vez mais como entretenimento e cada vez menos como identidade.
Foi nesse momento que algo importante começou a acontecer.
Os pequenos artistas tradicionais foram desaparecendo.
Trios pé-de-serra encerraram atividades.
Muitos músicos abandonaram a profissão.
Mestres populares deixaram de encontrar espaço.
E o Nordeste, tão cantado por Luiz Gonzaga, começou a assistir, muitas vezes em silêncio, ao enfraquecimento de uma parte importante de sua própria tradição.
Não se trata de ser contra o novo.
A cultura sempre dialogou com o seu tempo.
O problema não é o sertanejo.
Não é o arrocha.
Não é o piseiro.
Não é o DJ.
O problema surge quando a festa deixa de reconhecer aquilo que lhe deu origem.
Quando o São João passa a existir sem compromisso com o forró, não estamos diante de uma evolução cultural.
Estamos diante de um processo de perda de identidade.
E isso produz consequências que vão muito além dos cachês.
A cultura perde força.
O turismo perde autenticidade.
A economia criativa local enfraquece.
E o povo vai deixando de se reconhecer naquilo que produz.
Porque um povo que não valoriza sua cultura corre o risco de esquecer quem é.
Por outro lado, também é preciso fazer uma reflexão dirigida aos próprios artistas.
Nenhuma mudança acontecerá se continuarmos agindo como indivíduos isolados.
Os grandes nomes do forró precisam compreender que sua luta não pode ser apenas pela manutenção dos próprios espaços.
A verdadeira batalha é pela reconstrução de toda a cadeia cultural.
Não existe artista consagrado sem base.
Não existe topo sem alicerce.
Os pequenos artistas, os trios pé-de-serra, os músicos do interior e os grupos populares precisam fazer parte da mesma estratégia.
Luiz Gonzaga compreendia isso como poucos.
Nunca teve medo de compartilhar espaço.
Nunca precisou diminuir ninguém para ser maior.
Sabia exatamente quem era, qual era sua música e qual era sua missão.
Aos gestores públicos também cabe uma reflexão. Governar a cultura não é apenas contratar atrações. É proteger identidades. É estimular pertencimento. É garantir que o investimento público fortaleça a cultura local e não apenas alimente uma indústria nacional de espetáculos.
Da mesma forma, os Tribunais de Contas, Ministérios Públicos e Procuradorias têm um papel importante. Controlar gastos públicos é necessário. Mas a discussão cultural não pode se limitar ao valor dos cachês. Não basta perguntar quanto custa um artista. É preciso perguntar o que aquela programação entrega para a identidade cultural do território.
Nos últimos anos, tornou-se comum utilizar notas fiscais e valores de mercado como parâmetro quase exclusivo para avaliar contratações artísticas.
Esse critério pode ser útil para verificar compatibilidade de preços.
Mas é insuficiente para avaliar relevância cultural.
Arte não é commodity.
Patrimônio cultural não é produto de prateleira.
A cultura precisa ser analisada também pelo seu valor simbólico, social e identitário.
Talvez esteja na hora de construirmos um novo pacto.
Um pacto entre artistas, gestores e órgãos de controle.
Um pacto que compreenda que o forró não precisa de privilégios.
Precisa de proteção.
Não para fechar portas.
Não para impedir a diversidade.
Mas para garantir que a maior festa popular do Nordeste continue reconhecendo sua própria alma.
O desafio não é impedir que outros ritmos participem do São João.
O desafio é garantir que o forró continue sendo seu protagonista.
Porque sem forró pode até existir festa.
Mas dificilmente existirá São João.
E sem identidade cultural não existe futuro.
Existe apenas entretenimento.
