Olá, gente boa,
Escrevo esse texto movido por um sentimento que não é só meu — é coletivo.
Um sentimento que vem crescendo em todos os estados do Nordeste, ecoando entre artistas consagrados, músicos da base, produtores e defensores da nossa cultura.
Há muito tempo, o nosso forró tradicional vem sendo relegado a segundo, terceiro plano nos festejos juninos.
E as justificativas são sempre as mesmas.
“Precisamos abrir espaço para o moderno”, dizem uns.
“Estamos dando ao povo o que ele quer”, dizem outros.
Mas eu pergunto:
Quem está formando esse querer?
E a que custo estamos abrindo mão da nossa identidade?
O que estamos vendo hoje não é um caso pontual.
É um movimento nacional.
Artistas vêm se organizando, se manifestando, levantando suas vozes.
A campanha “Devolva Meu São João”, com nomes como Chambinho do Acordeon, Targino Gondim, Flávio Leandro e Joquinha Gonzaga, é um exemplo claro dessa mobilização.
Grandes referências como Maciel Melo, Alcymar Monteiro e Elba Ramalho têm se posicionado com firmeza.
O desabafo de Flávio José, no São João de Campina Grande, em 2023, não foi apenas um momento isolado.
Foi um grito.
Um grito de quem viu sua história sendo comprimida no tempo e no espaço dentro da própria festa que ajudou a construir.
Se artistas como Flávio José e Elba Ramalho estão levantando a voz, se estão gritando por espaço, por respeito e por equilíbrio… o que será que está acontecendo com a base?
Com os pequenos…
Com os desconhecidos…
Com os trios pé-de-serra que sustentam essa cultura no dia a dia?
Porque quando quem está no topo começa a sentir o impacto… é sinal de que, lá embaixo, a estrutura já está profundamente comprometida.
Em 2021, depois de uma longa luta, o forró foi reconhecido pelo IPHAN como Patrimônio Cultural do Brasil.
Um marco histórico.
Mas que precisa ser dito com toda clareza:
O reconhecimento simbólico ainda não virou política pública estruturante.
E enquanto isso não acontecer, o forró continuará sendo celebrado no discurso…
e reduzido na prática.
Em várias cidades, surgem iniciativas como a “Sala de Reboco”, em Caruaru.
Espaços que tentam garantir o mínimo:
Um palco digno para o trio pé-de-serra, para o sanfoneiro, o zabumbeiro, o triangleiro.
Mas aqui cabe uma reflexão necessária:
Será que o forró precisa de um “cantinho” dentro do São João?
Ou deveria ser o eixo central da festa?
O que está em jogo não é gosto musical.
Nunca foi.
O que está em jogo é a identidade cultural nordestina.
A substituição progressiva dos ritmos tradicionais por “modismos” — muitas vezes importados e desconectados da realidade local — não é apenas uma mudança estética.
É um esvaziamento de sentido.
E isso impacta, a médio e longo prazo, tudo:
A cultura… vai se perdendo, pouco a pouco, até não se reconhecer mais.
O turismo… se enfraquece — porque ninguém viaja para ver o que já tem em qualquer lugar.
A economia criativa… passa a viver do que vem de fora, em vez de fortalecer o que é nosso.
E, principalmente… o pertencimento do povo.
Porque um povo que não reconhece sua própria cultura,
já não sabe mais quem é.
E aqui eu quero propor uma virada de chave.
Sim, existe perda de espaço.
Sim, existe distorção de cachês.
Mas esse não é o problema central.
Isso é consequência.
O problema real é outro:
A ausência de uma política pública estruturada para o forró.
Enquanto o forró estiver submetido apenas à lógica de mercado, ele continuará sendo substituído, negociado e enfraquecido.
Em Sergipe, começamos — por determinação do governador Fábio Mitidieri — a construir uma experiência diferente.
Uma decisão clara: Valorizar e investir na identidade cultural sergipana dentro dos grandes eventos já consagrados.
A partir daí, iniciamos um caminho que não é simples, mas é necessário.
Um diálogo direto com o Tribunal de Contas do Estado e com a Procuradoria-Geral do Estado e gestores, buscando estruturar parâmetros técnicos de valorização da atividade artística, dentro do novo Marco Regulatório da Cultura.
Um trabalho de formiguinha.
De passos lentos, é verdade… mas firmes e eficazes.
Enfrentando, dia após dia, resistências burocráticas, muitas vezes presas a uma visão excessivamente formal, distante da realidade da cultura.
Mas avançando.
Porque o que está sendo construído aqui não é apenas um modelo administrativo.
É um novo entendimento:
De que a cultura não pode ser tratada apenas pela lógica do “juridiquês”, mas precisa ser compreendida como expressão viva da identidade de um povo.
E o que isso significa?
Significa organizar o setor.
Criar critérios.
Estabelecer equilíbrio.
Dar segurança jurídica.
E, principalmente:
Assegurar o protagonismo dos artistas nas programações públicas.
O que está acontecendo hoje no Brasil não é um conflito entre artistas. É um descompasso entre cultura e gestão. E enquanto não organizarmos isso como política pública, vamos continuar assistindo: Artistas disputando entre si, perdendo espaço, e sendo substituídos individualmente.
Estaremos reunido com artistas de todo o país. Gente que vive o forró. Gente que sustenta essa cultura.
E se tiver a oportunidade, levarei essa reflexão:
Ou a gente se organiza como setor… ou a gente continuará sendo substituído como indivíduo.
O forró não é um gênero musical.
É um patrimônio vivo.
E patrimônio não se improvisa.
Se protege.
Se organiza.
E se respeita.
