No País do Forró, a modernidade jamais superará a tradição junina. Nosso coração bate como zabumba, nossos pés deslizam no xaxado, e o sangue corre ligeiro feito cobra em arraial animado. Isso é o que move a alegria dos moradores e encanta os turistas que chegam para viver uma experiência que não se encontra em nenhum outro lugar do mundo, senão aqui, no nosso querido Sergipe.
Por essas bandas, temos arraiais de todo tipo e em todo lugar. Eita, que esse País do Forró é grande e maravilhoso! Aqui, até crustáceo dá nome ao forró — é o caso do Forró Siri, em Nossa Senhora do Socorro. Já uma topada inspirou o Arraiá Arranca Unha, no Centro de Criatividade. Em Rosário do Catete, tem o Forró do Catete; em Japaratuba, a Festa da Sarandagem. Em Aracaju, brilham o Forró Caju, a Vila do Forró e o Arraiá do Povo.
Estância tem o Arraiá de Chico Torto, berço do famoso Barco de Fogo, terra dos busca-pés e da festança braba. Em Itaporanga, o Arraiá da Pedra Bonita; em Itabaiana, o Arraiá de Santo Antônio; e em Capela, o tradicional Mastro de São João. Não podemos esquecer a cidade de Arreia Branca com o São João de Paz e Amor, que ecoa por todos os cantos do estado.
Agora, vamos subir o mapa e chegar ao sertão sergipano. Porto da Folha — terra dos buraqueiros — orgulha-se de se autodenominar a Capital da Vaquejada. Lá, tem forró na praça, quentão, tradição e resistência. Tem a Ilha do Ouro, a Ilha de São Pedro, as terras da Tribo Xokó, história de luta e de vida sertaneja. Porto da Folha também é celeiro de artistas, como Antônio Carlos do Aracaju, músico e compositor de carreira sólida pelo Brasil; Radinho, da dupla Ramon e Radinho; e Luiz Fontineli — o buraqueiro que é o protagonista dessa lorota bem séria que venho contar.
Conheci Luiz Fontineli através de três amigos: o músico e arranjador Valdo França, e os cantores e compositores Joaquim Antônio e Cláudio Barreto. Valdo me apresentou a voz de Luiz, que ele havia produzido no CD Luzes, onde o artista interpretava oito canções autorais: Sedução, Luzes, Nova Manhã, Ficou Claro, Tarde Demais, Só, Viajante, Preciso de Você e Sonho Azuldo. Um disco bem arranjado, com boas canções, mas que, à época, me soou estranho: a estética pop rock não combinava com a voz, nem com o perfil de Fontineli. Era um trabalho bonito
Confesso: na época, estranhei. O repertório não parecia combinar com a voz nem com o perfil de Luiz. Embora o disco fosse muito bem arranjado e com composições interessantes, não traduzia a alma do artista.
Foi só depois, com Joaquim e Cláudio, que conheci o homem por trás da voz — pessoalmente, no meu estúdio Capitania do Som. Os três planejavam gravar juntos, como forma de baratear o custo da produção. Gravamos os projetos de Joaquim Antônio e Cláudio Barreto no Capitania, mas o de Luiz acabou não sendo feito lá.
Algum tempo depois, ouvi o disco Lendas de um Cantador, produzido antes de Luzes. Aí sim! Ali estava o verdadeiro Fontineli: nordestino de corpo e alma, cantando com sotaque arretado e um estilo que mescla o lirismo de Dominguinhos com a força poética de Alceu Valença.
Luiz José Fontineli nasceu em Porto da Folha, no dia 14 de janeiro de 1971. Décimo terceiro filho de Manoel e Matildes, tem uma família numerosa: Elpídio (Careca), Maria (Ezinha), Zé Alves, Maria José (Mazé), Antônio, Pedro (Pedrinho), Manoel (Maneca), Gizélia (Zelinha), Terezinha, Conceição (Ceição), Francisco (Chico) e Aparecida (Cida).
Começou a tocar violão aos 15 anos, incentivado pelo irmão Zé Alves, também compositor. Do torrão sertanejo ele carrega a identidade forrozeira no peito e a espalha com orgulho por onde passa.
E ele passou longe. Luiz é um matuto do mundo, com apresentações em várias cidades do Brasil e até em Portugal. É recordista de participações em festivais de música: já soma mais de 135. Entre os muitos prêmios, destaca-se a vitória no Festival de Música de São Lourenço, em Santa Catarina, com a canção “Vidas Secas”. Já brilhou nos festivais de Penedo, Maringá, São José do Rio Preto, Ronda de São Pedro (Argentina), Limeira, Paraíba, Sescação Aracaju, entre outros.
Fontineli tem uma discografia sólida, com álbuns como:
- Lendas de um Cantador (1999)
- Luzes (2005)
- C’lariou (2009)
- Doido Amor (2013)
- Forró In Cantus (2016)
- Coletâneas de Forró (2017)
- Memória de um Cantador (2021)
- Sons da Caatinga (2024)
Além de DVDs e shows pelos principais arraiais do Brasil e do Nordeste.
Luiz Fontineli é um nome consagrado na música sergipana. Ama o cheiro da sua terra, as lendas do seu povo, o sotaque carregado do seu sergipanês. Não é por acaso que compôs “Sergipe, o Meu Lugar” — uma ode ao estado que tanto representa.
É um vaqueiro da música, um buraqueiro legítimo da mais tradicional cidade do sertão sergipano. Um trabalhador incansável da cultura que soube domar sua montaria com criatividade, talento, aprendizado e persistência. Luiz Fontineli é, sem dúvida, um vencedor.
