Olá gente boa,
Hoje, na cidade de Laranjeiras, está acontecendo o 11º Encontro de Cacumbis e Convidados, uma demonstração da capacidade e visão dos brincantes e do coordenador Antônio Carlos. Todos os anos, ele se empenha para realizar este evento, criado, conduzido e produzido pelo grupo Cacumbi Mestre Deca. O Cacumbi é um folguedo popular cuja origem se perdeu no tempo, impossibilitando, assim, marcar com exatidão a sua fixação no país. Sabe-se que o folguedo vem de variações de Autos e Bailados, como as Congadas, Guerreiros, Reisados, Lambe Sujos e Caboclinhos, que, apesar das diferentes denominações, têm como referencial comum a “luta entre o Rei negro e o Rei indígena”.
O Cacumbi de Laranjeiras é oriundo dos componentes da confraria de São Benedito. O grupo é formado exclusivamente por homens, considerados “verdadeiros artesãos da simétrica dos gestos” (Dantas, 2013). Composto pelo Mestre, Contra-Mestre e dançarinos que cantam, dançam e tocam seus instrumentos, a idade dos participantes varia entre 17 e 86 anos, e todos são moradores de Laranjeiras.
Atualmente, o grupo é conhecido como Cacumbi Mestre Deca. O Mestre Deca, nascido em 13 de julho de 1936 na Fazenda Boa Luz, em Laranjeiras/SE, é filho de Cândido Ramos dos Santos e Maria São Pedro dos Santos. “Participo do Cacumbi desde pequeno”, conta ele em entrevista, onde relembra sua trajetória: “Eu brincava com os falcões, com os chefes. Meu mestre e amigo Zezinho morreu, fiquei para não deixar a tradição morrer […] O mestre antigo era o Zé de Pita […] Mas eles não ensinavam a ninguém, o Mestre é minha cabeça mesmo” (Mestre Deca, 1985).
Cheguei em Laranjeiras no início de 2009, como produtor e diretor de um documentário sobre o XXXV Encontro Cultural de Laranjeiras, em parceria com Milton Goulart. Reencontrei mestres e grupos da cultura popular, amigos que fizemos em nossas caminhadas e pesquisas de músicas e ritmos da cultura popular realizadas nos anos noventa. Constatamos a ausência do Mestre Deca na chefia do seu Cacumbi, que parecia um grupo de homens desorganizados e sem liderança. Vi o Mestre apenas no domingo, na Igreja São Benedito, durante a coroação das Taieiras, muito abatido e sendo apoiado pelo filho Antônio Carlos. Em março de 2009, fui contratado pela prefeita Ione Sobral para assessorar a formulação de um planejamento nas áreas de turismo, cultura e comunicação. Imediatamente, procurei Antônio Carlos para saber sobre o estado do Mestre, pois fiquei preocupado. Antônio Carlos informou que o Mestre Deca estava acamado, com muitas dores e sem vontade de continuar vivendo.
Com o apoio da gestora Ione Sobral e do filho Antônio Carlos, conseguimos levar Mestre Deca ao hospital, onde foi constatado que ele havia quebrado a bacia há pelo menos três anos. A omissão estava clara. Nem a gestão municipal anterior percebeu a ausência do Mestre, e não se interessou em saber os motivos do afastamento dele, nem a sociedade civil sentiu a falta do Mestre na brincadeira do Cacumbi, e tampouco a família assumiu sua responsabilidade.
Daquele momento em diante, o trabalho da gestão municipal e o interesse de Antônio Carlos em aprender a cuidar do grupo que seu pai amava deu nova vida ao Mestre Deca e ao Cacumbi. No mesmo ano, Mestre Deca participou da inauguração do Campus da UFS em Laranjeiras ao lado do presidente Lula e recebeu a Medalha Tobias Barreto do governador Marcelo Déda. Inspirados em uma fala de 1985 do Mestre Deca, que disse à professora Beatriz Gois: “Por que ninguém olha pro lado da gente? A gente fica aí… só chega pra gente quando é tempo de brincadeira e depois fica pra lá. Não tem nada, entendeu? Eu e todos os chefes merecíamos ter um cachêzinho mensal ou semanal, entendeu?”, criamos a Lei dos Mestres, que concede aos mestres dois salários mínimos mensais vitalícios. O Cacumbi ressurgiu das cinzas e se transformou em um exemplo de gestão de grupo, criou sua Associação e aprendeu a não mais depender unicamente da gestão pública.
Em uma das falas do Mestre Deca, essa se destaca e serviu de combustível para seus filhos retornarem a defender e trabalhar pelo Cacumbi: “Nós brincamos em Aracaju, Itabaiana, em qualquer lugar, entendeu? Lá fora pagam, mas aqui! aqui só recebi dinheiro duas vezes em trinta e três anos. Se eu disser uma coisa, o senhor não vai acreditar, sabe o que fizeram com a gente? Chamaram a gente pra uma apresentação, pra uma filmagem na porta da igreja da matriz, e eu reuni meu grupo, acertei tudo direitinho e quando acabou, sabe o que vieram me dar? duas garrafas de Pitu. Eu me conformei e fiquei com isso guardado, entende?” Não deixe o Cacumbi morrer. Esse conformismo não pode existir, foi o que me disse Antônio Carlos. Mesmo sob grande pressão, pois há quem se interesse por um grupo independente do poder público? É assim que pensam alguns maus gestores.
Em 2013, o Cacumbi criou o “Festival Mestre Deca – Encontro Nacional dos Cacumbis”. Foi instituído o Dia Municipal da Dança do Cacumbi, no dia 13 de julho, aniversário do Mestre Deca, e a realização anual do Festival Mestre Deca – Encontro. Nos anos seguintes, aproveitando-se da humildade de Antônio Carlos, colocaram na cabeça dele que mudasse o nome para Encontro dos Cacumbis e Convidados, diminuindo o pensamento e a realização do grupo. Uma mistura de ciúme e demonstração de poder. Infelizmente, ele acabou cedendo, mas isso não chegou a atrapalhar o trabalho que vem sendo realizado por Antônio Carlos e todos do grupo. Em 2009, o grupo tinha problemas para se apresentar, pois contava com menos de cinco componentes, todos com idade avançada. Hoje, o grupo é completo, com uma média de idade que vai dos 17 aos 90 anos. Com futuro garantido, o Cacumbi realiza, e o “Encontro” está comemorando 11 anos sem deixar o protagonismo da realização. O Encontro é do Mestre Deca, do coordenador Antônio Carlos (Neguinho), do mestre José Carlos (Testinha) e do contramestre José Adilson, e de todos os brincantes do Cacumbi Mestre Deca. Torço para que sigam de cabeça erguida e orgulhosos de serem Cacumbi, uma riqueza da cidade de Laranjeiras, de Sergipe e do Brasil.
