O sucesso da bossa nova no Brasil e no exterior, a conquista do bicampeonato mundial de futebol, em 1962, no Chile; a conquista da Palma de Ouro, em 1962, pelo filme brasileiro dirigido por Anselmo Duarte, “O Pagador de Promessas”, em Cannes; as vitórias de Maria Esther Bueno, no tênis, e outras conquistas de afirmação nacional, fizeram da década de 60 um período de grande exaltação ao nacionalismo. Com o golpe militar de 1964, aumentou o grau de conscientização política do povo brasileiro. As disputas ideológicas acirram-se entre os vários segmentos da sociedade brasileira.
A cultura musical acompanhou todas essas mudanças, com a afirmação da bossa nova e o surgimento das músicas de cunho social e de protesto, apresentadas principalmente nos “Festivais”. Na verdade, os festivais de música popular nasceram e tiveram seu auge de popularidade nos anos 60. Foram criados para dar espaço ao novo momento musical. Eles aconteceram, principalmente, nas TVs Excelsior e Record. Assim, surgiram composições sociais de Sérgio Ricardo, Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, Geraldo Vandré e muitos outros.
Em Aracaju, os festivais, da segunda metade da década de 60, impulsionaram o surgimento da nova música aracajuana. Jovens compositores, cantores e músicos, acompanhando o pensamento musical nacional, com a bossa nova, o samba e canções com letras de amor ou proclamando a liberdade. Participaram dos festivais da canção, artistas como Marcos Antônio (o popular Marcos Chulé), autor de um clássico da música aracajuana, Cruzada, vencedora do Festival de 1968; Ariquitiba; Luiz Antônio Barreto; Antônio Vilela compositor de outro clássico da cidade, “Atalaia”, tornando-se a canção oficial da cidade de Aracaju, com a Lei nº 1.351, de 05 de abril de 1988; Antônio Teles, considerado o nosso Nelson Gonçalves; Hunald de Alencar, um grande poeta e letrista; Alcides Melo; Irmão; grupo As Moendas; Nery; Valdefrê; Miron; Ailton Cardoso; Tonho Baixinho; Trio Atalaia; Heribaldo e sua Orquestra; Los Guaranis; Brasa Dez; Os Nômades; Vikings; bandas de rock. Nomes que nortearam a música sergipana nas décadas seguintes.
Com a decretação do Ato Institucional nº5, em dezembro de 1968, os compositores foram perseguidos pela censura. As canções politizadas retiradas das rádios, TVs e palcos. Mesmo assim, não se pode dizer que o gênero tenha sido extinto. No mesmo ano na cidade de Estância surge o Festival Estanciano da Canção, uma ideia do radialista e ainda estudante da escola de comércio, Francisco Teixeira da Silva Filho conhecido como Chiquinho o Caminho. O festival durou muitos anos.
Ao longo dos anos 70, os compositores foram obrigados a exercitar com muito mais inteligência, a criatividade. As metáforas, códigos e outras táticas utilizadas, sem esquecer a falta de sagacidade de vários censores, permitiram que mensagens às vezes até cifradas, chegassem ao público. Um dos artistas mais marcantes, na década de 70, foi Alcides Melo, vencedor do Festival estudantil da canção, em 1971, com a música Retirante. Participou de vários movimentos em prol da música nordestina, como os projetos Pró-Disco, Coletiva de Música de Sergipe, Movimento Pró-Cooperativa de Música, Coopermúsica e Gente de Música do Nordeste. Sempre foi um músico atuante em defesa da categoria.
No começo dos anos oitenta, a cidade de Aracaju foi tomada de surpresa com a volta dos Festivais. E aconteceu o I FSMPB – Festival Sergipano de Música Popular Brasileira, promovido pela TV Sergipe, emissora vinculada à TV Globo, vencido por Alcides Melo, com a música “Mercado Thalles Ferraz. Surgem aí novos talentos, como: Grupo Bolo de Feira, Grupo Repente, Paulo Lobo, Antônio Carlos Du Aracaju, Irineu Fontes (Neu Fontes), Lula Ribeiro, Joésia Ramos, Dalila, Mingo Santana, Emanoel Dantas, Alexi Pinheiro, Chico Pires, Joésia Ramos, Jimmy e Neném, Mary Barreto, Crupo Cataluzes, entre outros.
Também teve início nessa década o Novo Canto – Festival estudantil de Música Popular, que foi criado pela equipe da Fundação Estadual de Cultura composta por Jorge Lins, Antonio do Amaral, José Américo (Sucupira) e Acássia Barreto. Lançou no primeiro ano, em 1984, e nos anos seguintes das décadas de 80 e 90, nomes da nova safra da música de Sergipe, Chiko Queiroga, Antônio Rogério, Marcos Aurélio, Sena, Sergival, Antônio Passos, Nino Karvan, Cris Emmel, Doca Furtado, Pantera, Kleber Melo, Décio Nunes, Gena Ribeiro, Marilda Góis, Thiago Ribeiro, Rubens Lisboa, entre outros. Vários discos foram gravados pela instituição de cultura do estado, com os vencedores do referido Festival.
Ainda nos anos 80, tivemos um festival muito importante no interior do estado, o FLAMP – Festival de Música Lagartense de Música Popular, cujo primeiro vitorioso foi Enoque Araújo. A sua segunda edição teve o cantor Mingo Santana, que ganhou o primeiro lugar com a música Sementeira. No começo dos anos 90, foi criado por Rubens Lisboa o Fest-Livre. O festival universitário abriu portas para muitos artistas sergipanos. A Secretaria de Cultura do Estado reeditou o Novo Canto algumas vezes e criou outros como o FAMP – Festival Aberto de Música Popular e Nosso Canto festival de músicas juninas.
A ideia dos Festivais permaneceu viva e o Sesc – Serviço Social do Comércio-Sergipe criou, em 1996, o SESCANÇÃO, acreditando no potencial do artista sergipano e com o propósito de fortalecer a produção musical do estado. A iniciativa já teve 26 edições. Um dos poucos festivais com grande longevidade no país. Muitos nomes firmaram-se, participando do Sescanção: Sena, Nino Karvan, Tânia Maria, Cláudio Barreto, Lena Di Zé, Heitor Mendonça, Joaquim Antônio e Kleber Melo, Alice Nou, Tom Robson, Banda Donali, Celda Fontes, Marcus Vinícius, Alex Sant’Anna, Flor’Marias, Luiz Fontinelli, Róger Kblera, Ronise Ramos, Uma Ruma, Ivan Reis, Ato Libertário, Sergival e Forró Pau de Arara, Dom José do Ban e Gabriel Góis, Duo Setevento, Alysoul, Edson João, Gustavo Mattos, Dami Dória, Os Tabaréus e Camilla Campos.
A Secretaria da Cultura lançou nos anos 2000 o Festival Um Banquinho Uma canção e realizou três edições com participação de dezenas de compositores e músicos sergipanos como: Alice Nou, Cissy Freitas, Tom Robson, Fernando Crateús, Gustavo Mattos, Jiló Santana, Valquíria Queiros, Luiz Fontineli, João Mario, Patrícia Luz, Oscar Emilio, Cristhiane de Liz.
Geraldo Vandré disse uma vez: – A vida não se resume a festivais. Elis perguntou a Edu Lobo: – E ai Edu, dá pra cantar e tocar? E ele respondeu: – É bom! Os festivais são necessários, pois criam espaços e apresentam bons artistas e incentivam novas composições.
Sempre fui um apaixonado por festivais. Participei de dezenas pelo o país e sempre achei muito bom. Não só pelos prêmios e classificações que obtive, mas pelo convivo, experiências e pessoas que conheci. Grande artistas que vi cantando e tocando. Parafraseando Edu Logo: – É muito bom!
