Olá gente boa,
Esta semana, vi nas redes sociais um clamor do amigo e artista de primeira grandeza, Cid Natureza, expressando sua preocupação com diversos artistas que simplesmente não têm onde tocar ou com poucos shows no Carnaval. Artistas como Maísa Reis, Valtinho Nogueira, Banda Agua de Cheiro entre outros, músicos e bandas talentosos enfrentam grandes dificuldades para realizar seus shows. Muitos deles construíram suas carreiras vendendo apresentações, em sua maioria, para o poder público.
A música popular brasileira, a chamada MPB, tem perdido cada vez mais espaço na grande mídia e, principalmente, nos grandes eventos. Sou de uma época em que, independentemente do palco, meu repertório era composto por canções da minha autoria, de parceiros e de compositores sergipanos, além de clássicos da MPB. Afinal, como construir uma identidade artística cantando apenas covers?
Mesmo no Carnaval ou no São João, festas das quais participávamos por necessidade, pois o pouco investimento era quase todo voltado para artistas locais, tocávamos frevos, marchas e músicas tradicionais dessas festividades. Havia espaço para Luiz Gonzaga, Nando Cordel, Jorge de Altinho, Trio Nordestino, Duda, Dodô e Osmar, Caetano Veloso, Dominguinhos, entre outros.
Mas então veio o Axé. As rádios passaram a promover massivamente os artistas da Bahia, nessa época ainda disputávamos nas programações e palcos do estado com esses artistas. Ai o PréCaju foi criado, um evento grandioso que movimentou substancialmente o turismo e o comercio, e, por um longo tempo, nosso Carnaval foi esquecido. Antigamente, tínhamos a Praça do Povo, Neópolis, Pirambu, Japaratuba, Estância e muitos bailes em bairros e cidades e pequenos blocos. Com a chegada do Axé, tentamos imitá-los, mas como todos sabem, a cópia nunca supera o original.
Essa nova realidade ocupou as emissoras de rádio e a boca do nosso povo, que, infelizmente, tem a tendência de desvalorizar sua própria cultura em favor do que vem de fora, a tal síndrome do vira lata.
Nossa falta de autoestima é enorme. Alguns locutores e programadores querem ser cariocas ou baianos, jornalistas se consideram críticos musicais e empresários artísticos que nunca ouviram boa música passaram a ocupar o espaço deixado pelos nossos artistas. Muitos desses artistas, por sua vez, preferiram culpar apenas a gestão pública, sem perceber que foram eles mesmos que abriram mão de seus espaços, aceitando qualquer cachê e tocando qualquer música da moda.
Agora, esses empresários se tornaram megainvestidores e decidem, conforme seus interesses, quais artistas receberão investimentos. O talento ou o potencial a longo prazo não importam; o foco é ganhar dinheiro rápido. Como a música atual é passageira, quando a fama de um artista começa a esfriar, pegam outro “produto” e repetem o ciclo, inflacionando o mercado e expondo gestores e artistas aos olhares atentos do Ministério Público.
É difícil compreender como cidades pequenas, com populações entre 5.000 e 10.000 habitantes, investem em cachês milionários para artistas. É óbvio que isso um dia trará problemas. Os artistas precisam entender melhor os processos e investir em carreiras sustentáveis. Já a gestão pública, que nunca foi uma empresária artística, deve focar na construção de um processo cultural e econômico que contemple todos, inclusive os artistas locais.
Hoje, alguns artistas jovens emergem com o advento de ritmos popularescos que se tornaram movimentos, como aconteceu com o forró eletrônico. Todo movimento tem seus aspectos positivos e negativos. O Positivo é que aparecem novos músicos, artistas começam a ganhar muito dinheiro, meninos que tocavam por 300 a 500 reais hoje tem cachet de 500 mil. Empresários milionários, e uma música infelizmente frágil e passageira, como a nossa vida. Só pra constar não se faz movimento consistente nenhum, musical, político, social, popular de cima pra baixo, e sim de baixo pra cima.
Se uma banda faz sucesso com uma música que repete “Você não vale nada, mas eu gosto de você”, logo outra chega com uma letra apelativa, tentando copiar e consolidando uma tendência de composições limitadas a temas como cachaça, traição, sacanagem e xingamentos. As melodias se tornaram repetitivas, e os plágios são ignorados, tudo isso em um ritmo muito antigo o “Bolero”. Quando alguém critica essa fase da nossa música, a resposta é sempre: “É isso mesmo! O povo não quer pensar”. Eu teimo a não acreditar nisso. Pois o povo só gosta do que conhece e do que escuta.
Assim, jovens artistas são explorados por empresários que os tratam como produtos descartáveis. Enquanto isso, os artistas locais, que cobram cachês menores e têm qualidade, ficam de fora desse mercado cruel e excludente. Como dizem, a falta de pensamento crítico leva a sociedade a viver a vida dos outros. Fascistas, direitistas, esquerdistas e influenciadores se aproveitam desse cenário, inclusive usando o nome de Jesus como mercadoria e muitos se comparam a ele, que nunca foi influencie e sim inspiração. Infelizmente, o poder público de grande parte do país se deixou enfeitiçar por esse fenômeno ou simplesmente se beneficia dele. E garanto que não é pelo voto.
No passado, o entretenimento era visto como expressão cultural, sem a noção clara de seu potencial econômico. Projetos eram financiados de forma tradicional, sem explorar eventos e produções como fontes de receita. Hoje, tudo mudou: shows, festivais e transmissões viraram grandes motores financeiros, financiando desde startups até campanhas políticas. O espetáculo deixou de ser apenas arte para se tornar um negócio estratégico, onde cada evento é uma oportunidade de monetização e influenciar a massa. A questão é: isso foi uma evolução natural ou perdemos algo no processo?
Aos nossos artistas, fica a reflexão: tudo que se planta, um dia se colhe.
