Olá, gente boa,
Recebi um artigo do amigo Afonso Oliveira — pesquisador, produtor cultural, curador, consultor de políticas culturais, educador, diretor artístico, escritor, designer e artista plástico — que você pode ler aqui:
https://www.instagram.com/p/DTy3aefjkwI/?igsh=bXVmNjMyZml1bms=
É um texto forte, necessário, que toca numa ferida real. Concordo com ele e trago aqui uma pequena contribuição, no sentido de avançar estrategicamente: sair do diagnóstico puro e entrar no campo das respostas possíveis, sem perder o tom crítico e humano que a Política Nacional Aldir Blanc exige.
Concordo integralmente com a análise de que a burocratização excessiva tem afastado a Aldir Blanc do seu sentido público original. Mas é preciso reconhecer que esse problema não nasce apenas dos formulários, plataformas ou exigências formais. Ele é fruto de um histórico estrutural de ausência de políticas culturais continuadas no Brasil.
Durante décadas, a cultura foi relegada ao improviso, ao voluntarismo e à sobrevivência individual. Gestores públicos não foram formados para pensar cultura como política de Estado, e fazedores e fazedoras de cultura, igualmente, não tiveram acesso sistemático à formação em gestão, planejamento e sustentabilidade. Quando, finalmente, surgem políticas estruturantes e recursos continuados, como a Aldir Blanc, o campo cultural se vê diante de uma oportunidade inédita — mas também de uma distorção perigosa.
Para muitos agentes culturais, os editais passaram a ser vistos não como instrumentos, mas como fins em si mesmos. Não devem ser — nem podem ser — a única forma de sustentação da cultura. Tampouco podem substituir a responsabilidade direta dos estados e municípios na manutenção de suas políticas culturais próprias. O risco é evidente: governos locais passam a “terceirizar” sua política cultural, utilizando majoritariamente recursos federais, enquanto seus próprios orçamentos ficam concentrados em grandes eventos, festas e ações pontuais — importantes para o turismo e a economia, mas insuficientes para estruturar um sistema cultural sólido.
Outro ponto sensível é a assimetria de informação e poder dentro do próprio campo cultural. Há artistas e mestres com enorme densidade simbólica, qualidade estética e profunda relevância comunitária, mas sem domínio das ferramentas de escrita técnica e gestão. Há outros extremamente habilidosos no uso da linguagem institucional, com pleno domínio dos editais, planilhas e plataformas — alguns, inclusive, sem lastro artístico real. E há ainda um grupo intermediário, que aprende a operar o sistema por tentativa, erro e muita mediação.
Nesse terreno desigual, surge um problema ético grave: quem “tem um olho” vira rei. Criam-se editais cada vez mais complexos e, em seguida, surgem assessorias especializadas para “decifrá-los” — muitas vezes ocupando, direta ou indiretamente, o mesmo campo de disputa dos recursos públicos. O resultado é um sistema que passa a premiar mais a habilidade burocrática do que a relevância cultural.
Nada disso invalida a Aldir Blanc. Ao contrário: revela o quanto ela é necessária e, ao mesmo tempo, ainda está em construção. O Brasil nunca tratou sua cultura como ferramenta estratégica de desenvolvimento humano, social e econômico. Está aprendendo agora. E todo processo novo carrega falhas, ajustes e contradições.
O caminho não é simplificar irresponsavelmente nem abandonar os critérios públicos, mas equilibrar controle com acesso, técnica com escuta, norma com realidade territorial. Isso passa, obrigatoriamente, por:
- Formação continuada de gestores públicos de cultura, para que saibam desenhar políticas adequadas aos seus territórios e não apenas reproduzir modelos nacionais de forma automática;
- Programas permanentes de formação e qualificação dos fazedores e fazedoras de cultura, respeitando seus modos próprios de criação, oralidade e organização;
- Diversificação dos instrumentos de fomento, indo além dos editais competitivos: prêmios simplificados, bolsas, termos de reconhecimento, fomento direto a mestres e grupos tradicionais;
- Planejamento cultural local, para que a política pública não seja apenas resposta a chamadas federais, mas parte de um projeto próprio de desenvolvimento cultural.
A Aldir Blanc não deve ser vista como solução mágica, nem como problema em si. Ela é uma oportunidade histórica de aprendizado coletivo. Errar faz parte. Corrigir é obrigação. E ouvir quem faz cultura todos os dias — no terreiro, na rua, na escola, no palco improvisado — é o único caminho para que a política pública não perca aquilo que lhe dá sentido: a vida cultural real do povo brasileiro
