Olá gente boa!

Hoje vou compartilhar uma das histórias mais incríveis da minha jornada musical, envolvendo o lendário Dominguinhos e uma corrida contra o tempo para uma gravação inesperada do primeiro disco de um dos artistas sergipanos que gosto muito.

Era uma bela segunda-feira, às 6h30 da manhã, quando meu amigo e artista Sergival me liga cheio de empolgação. O motivo? Ele conseguiu a proeza de ter Dominguinhos gravando uma faixa em seu primeiro disco solo, “As coisas do Caçuá”. Fiquei saltitante de alegria, afinal, o mestre da sanfona ia gravar no meu estúdio, o Capitania do Som. A notícia era ótima, mas o detalhe é que a gravação seria… no mesmo dia, às 10h! E o melhor de tudo? A gente não tinha nem base musical pronta para o álbum. Ai pensei Sergival bebeu demais ontem para comemorar essa proeza.

Pois é, não foi, eu estava sem palavras. Não por causa da gravação relâmpago, mas sim porque nem uma base musical sequer havíamos gravado. Minha mente estava a mil, imaginando como o próprio Dominguinhos, o rei da sanfona o herdeiro de Luiz Gonzaga, iria tocar sua sanfona se nem a base das músicas estava pronta. Mas é claro que a vida nos prega peças, e a aventura estava só começando.

Sergival aparece no estúdio às 7h30, todo animado, e me diz que já tem a música escolhida: “Sempre Boiadeiro”. Só que tem um detalhe: ele tinha uma gravação amadora do show que fizeram no sábado, e Dominguinhos ia tocar a sanfona por cima dessa base musical. Imaginem só, o gênio Dominguinhos tocando com uma gravação ao vivo como base! Aí, ele me entrega o CD e diz que confia em mim, e foi embora trabalhar na Petrobras. Eu fiquei ali, atordoado, sem saber nem por onde começar, coloquei a gravação no computador e fui ouvir o que podíamos fazer.

Eu tinha uma gravação tosca e a missão de receber Dominguinhos e explicar que a base seria aquela. No meio da confusão, pensei: “Vai ser legal explicar que a base é um show ao vivo, né? Que cilada!” Fui ouvir a gravação e percebi que precisava de uma contagem para que Dominguinhos entrasse no tempo certo. Sabe como é, a gente precisa fazer as coisas funcionarem!

A hora chegou, e lá estava ele, o rei Dominguinhos, no meu estúdio. Fiquei meio sem jeito, afinal, era uma lenda da música brasileira ali na minha frente. Mas expliquei a situação, e ele ouviu atentamente. Aí veio a decisão, ele com sua voz tranquila e na paz disse: – “Tudo bem, irmão, vamos gravar assim mesmo. Coloca para eu ouvir.” E apertei o play. Ele começou a comentar, com aquele jeito descontraído: “Boa ideia essa contagem.” Era um grito do Sergival que coloquei no tempo. Heiiii. E lá vinham as perguntas: “Quem tá na sanfona é o Waltinho?”

Espantado respondi que sim, e ele solta: “Esse Waltinho é bom mesmo, mas devia ter consertado a sanfona dele. Eita me deu um calafrio na espinha. ” A sanfona de Waltinho estava com problema e afinação estava em meio tom abaixo do diapasão, assim todos os músicos teriam que afinar seus instrumentos a partir da sanfona!

Mas Dominguinhos não se deixou abalar. Ele disse: “Tô vendo que você está agoniado. Fique tranquilo, vai ser assim mesmo, vamos gravar.” E nós gravamos. Foram três tentativas e uma gravação linda, com Dominguinhos deixando sua marca genial na música. Ele saiu do estúdio, e a gente ouviu aquela gravação umas duas ou três vezes, e ele só dizia: “Danada, vai ficar boa, hein?” Ele deu uns toques sobre zabumba e baixo, e continuamos a conversa, passei o que faria na canção, ele disse uma frase que não esqueço jamais, Gosto de gente que se preocupa e tem cuidado com os trabalhos dos outros. Gostei de você.

Eu aprendi naquela manhã que uma estrela não depende da luz dos outros, ela brilha com sua própria essência. E ali, na presença de Dominguinhos, eu tive uma aula de talento, humildade e carisma. Foi uma verdadeira honra e uma lição que carrego até hoje.

Nesse mesmo disco, Sergival capitaneou nomes importantes da música nordestina, como o Zabumbeiro Quartinha, o violonista Renato Piau, Sanfoneiro Chiquinho Ceara, Ari Colares e Alcimar Monteiro e outros nomes da cena musical sergipana.

E assim tive alguns encontros, com ícones da música e das artes, como João Melo, Toninho Horta, Ivan Lins, Bibi Ferreira, Lú Spinelli, Marika Gidale, Décio Otero, Djalma Oliveira, Adelmário Coelho, entre outros, estrelas de um céu da estrelado da música e das artes.