Olá gente boa,
Há hoje uma tentativa insistente — e perigosamente naturalizada — de diminuir, esvaziar e, em alguns casos, extinguir a cultura, sobretudo a cultura tradicional e popular. Seus ritos, festas e celebrações, construídos ao longo de gerações, vêm sendo substituídos por eventos midiáticos padronizados, onde a lógica do mercado se sobrepõe ao sentido comunitário, simbólico e histórico dessas manifestações.
A cultura popular não nasce do improviso nem da moda. Ela nasce do tempo. Do chão. Da fé, da brincadeira, da luta e da memória coletiva. Quando falamos de festas como o Lambe-Sujo e Caboclinho, o Micareme e o próprio Encontro Cultural de Laranjeiras, O Mastro de Capela e as Cabacinhas de Japaratuba, estamos falando de expressões que ultrapassam o entretenimento. São rituais de identidade, pertencimento e educação cultural.
O Lambe-Sujo e Caboclinho, por exemplo, é mais do que um espetáculo: é narrativa histórica encenada pelo povo, com personagens, cantos, cores e conflitos que atravessam séculos. O Micareme, por sua vez, carrega uma história própria, ligada à religiosidade, à música e à ocupação simbólica das ruas. Já o Encontro Cultural de Laranjeiras, com mais de meio século de existência, consolidou-se como um dos mais importantes espaços de reflexão, pesquisa e celebração da cultura popular no Brasil.
O que se observa, no entanto, é um processo preocupante de deslocamento dessas festas de seu sentido original. Sob o argumento de “agradar a juventude” ou “modernizar os eventos”, manifestações centenárias passam a ser reconfiguradas para atender a um modelo de festa de consumo rápido, com grandes palcos, trios elétricos e atrações midiáticas que pouco dialogam com a história e o território onde se instalam.
Esse fenômeno não se restringe a Laranjeiras. Ele se repete em diferentes municípios sergipanos. A Festa do Mastro de Capela, profundamente ligada à religiosidade popular e à cultura dos ciclos festivos; as Cabacinhas de Japaratuba, expressão singular de fé, música e tradição.
É preciso dizer com clareza: juventude não é sinônimo de apagamento da tradição. Jovens também são herdeiros da cultura popular. Retirar deles o acesso às festas, aos ritos e aos saberes do seu próprio território não é inovação — é empobrecimento cultural. O novo só faz sentido quando dialoga com o que veio antes.
Quando o poder econômico passa a ditar sozinho as regras, ultrapassando os limites do bom senso e da responsabilidade pública, o resultado é quase sempre o mesmo:
– mestres e grupos tradicionais empurrados para horários secundários;
– manifestações populares tratadas como “abertura” ou “atração menor”;
– recursos públicos concentrados em estruturas caras e efêmeras, que não deixam legado;
– e comunidades transformadas em plateias passivas de uma festa que já não lhes pertence.
A cultura popular não pode ser reduzida a cenário. Ela não é figurante. É protagonista. Não existe desenvolvimento cultural verdadeiro sem respeito às raízes. Não existe futuro sem memória. E não existe política cultural séria baseada apenas em números de público, alcance de redes sociais ou retorno financeiro imediato.
Defender o Lambe-Sujo e Caboclinho, o Micareme, o Encontro Cultural de Laranjeiras, a Festa do Mastro de Capela, as Cabacinhas de Japaratuba, — e tantas outras festas populares — não é ser contra a modernidade. É ser a favor de um modelo de cultura que inclui, forma, educa e fortalece o povo.
A economia da cultura deve ser instrumento, nunca fim. Quando a festa deixa de ser do povo para virar apenas vitrine de interesses, perde-se mais do que um evento: perde-se o direito de uma comunidade contar sua própria história.
E um povo sem história viva é um povo facilmente substituível — inclusive em suas próprias festas.
