Olá gente boa,
Era uma tarde ensolarada de abril de 1976 quando, ao completar meus 16 anos, recebi em casa uma visita especial: meu tio-avô e padrinho, José Calasans Brandão da Silva. Vindo de Salvador, ele aproveitou uma viagem para um evento cultural em Sergipe para chegar mais cedo e celebrar meu aniversário. Entre abraços e conversas, ele, sempre atento ao que nos cercava, notou meu interesse pelas suas histórias da cultura e disse com aquele tom professoral: “Irineuzinho, venha comigo participar dessa programação.”
Nem pensei duas vezes. No dia combinado, ele passou em casa com um carro oficial e partimos para Laranjeiras. Assim que chegamos, a cena que me esperava parecia saída de um sonho: um circo montado na entrada da cidade e, ao redor, um desfile vibrante de cores, sons e alegria. Eram grupos folclóricos dançando, cantando e tocando seus instrumentos.
Foi ali que conheci o Cacumbi, o São Gonçalo, a Taieira, a Chegança, os Reisados e os Guerreiros. Tudo era um festival de fitas, tambores e sorrisos. Meu tio, sempre generoso em apresentar pessoas, me levou até mestres como Bilina das Taeiras, Seu Oscar da Chegança e Deca do Cacumbi, Mestre Sales. Também conheci figuras ilustres da cultura como Luiz Antônio Barreto, Bráulio do Nascimento, José Sobral, Valdemar Valente, Mário Souto, Roberto Benjamin, Osvaldo Trigueiro, Jackson da Silva Lima, Algaé D’Ávila Fontes, Beatriz Góis Dantas, Antônio Garcia Filho e Luiz Fernando Ribeiro Soutelo. Que turma arretada!
Luiz Antônio Barreto, aliás, virou um grande incentivador meu. Ele e José Calasans tinham aquele jeitão de nos puxar pela mão e mostrar o que realmente importa na vida. Eles estavam à frente do projeto que transformava a Festa da Cultura, criada por José e Ione Sobral, em algo muito maior: o Encontro Cultural de Laranjeiras. Foi assim que vi nascer o maior encontro da cultura popular do Brasil.
Naquele dia, a programação incluiu a inauguração do Museu Afro-Brasileiro de Sergipe e o lançamento de livros, discos e cadernos que davam visibilidade às riquezas culturais do estado, debates e projetos futuros tudo cercado do ritmos folcoricos. Lembro que a abertura foi na porta da igreja, e o povo se juntava num entusiasmo contagiante.
Em 1977, seguindo a ideia da professora Beatriz Góis Dantas, o evento passou a ser realizado em janeiro, durante as festas de São Benedito e Santos Reis. Foi nesse período que o Encontro ganhou o formato que o tornou famoso: pesquisa, estudo e divulgação. Foi também nessa época que uma pesquisa revelou que Sergipe tinha 220 grupos folclóricos – a maior reserva do Brasil. Esse trabalho ajudou a criar o Atlas Folclórico, um marco pra nossa cultura. E foi assim que o mundo conheceu a coroação da Rainha das Taieiras.
A Taieira é uma dança que sempre me emociona. Durante a procissão do Dia de Reis, os grupos cantam, dançam e tocam em louvor a São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Depois da missa, acontece a coroação das rainhas, um momento único, quando o padre coloca a coroa de Nossa Senhora sobre a Rainha. Esse ritual me faz pensar nas coroações dos Reinados do Congo, criadas pelos colonizadores, mas que permitiram a preservação da cultura africana. É história viva, cheia de significado e resistência.
Infelizmente, a organização parece não respeitar essa fé e tradição. O Encontro Cultural, que nasceu ligado intimamente à Festa de Reis, agora acontece depois da procissão, desconectado de suas origens. Mesmo assim, para quem vive esse momento, a Taieira continua sendo símbolo de identidade e força cultural.
Participei de inúmeras edições do Encontro, cantando, tocando e trabalhando pela Fundesc e na Secretaria de Estado da Cultura. Tive ainda o privilégio de ser Secretário da Cultura de Laranjeiras e coordenar esse projeto tão importante por cinco anos. Nesse período, conseguimos resgatar a verdadeira essência do Encontro, trazendo os maiores e melhores nomes da cultura popular: mestres, pesquisadores, professores e aqueles que falam a língua da cultura popular. O mais importante é que conseguimos envolver os estudantes e a população de Laranjeiras e de todo o estado. O Encontro acontece em Laranjeiras para o mundo, mas a voz ativa é dos mestres, dos brincantes e do povo da nossa Capital da Cultura Popular.
Hoje, ao celebrarmos 50 anos do Encontro, é triste ver como sua essência tem se perdido. Os interesses midiáticos e a ganância engolem aos poucos a riqueza que deveria ser o coração do evento. Gestores de visão curta deixam de lado a pesquisa e o estudo, transformando o Encontro numa festa qualquer, uma festa de largo, um evento. Como diria a Professora Aglaé em um É……..VENTO, que passa e não deixa nada. Mas cultura não é qualquer coisa. Ela é o que nos faz ser quem somos.
Ainda acredito que é possível equilibrar o tradicional e o moderno. Quem souber valorizar o que é nosso de verdade ganha duas vezes: fortalece nossa identidade e ainda atrai quem vem de fora pra conhecer. Aprendi aos 16 anos que não se entrega os pontos na defesa daquilo que amamos. E o Encontro Cultural de Laranjeiras é isso: a alma da nossa cultura popular.
“Não se defende o que não se conhece.” Essa frase, que ouvi tantas vezes, segue sendo meu lema. Que o Encontro continue divulgando a nossa maior riqueza: a cultura do povo sergipano.
