Bom dia, mãe, bom dia, pai, bom dia. A minha gratidão, por me ensinarem meus primeiros passos, por me entregarem régua e compasso. Esses sentimentos de gratidão ecoaram na Canção de Mestrinho na magnífica Sala São Paulo, acompanhado pela Orquestra Brasil Jazz Sinfônica.
Mestrinho, o talentoso músico sergipano de Itabaiana, é filho do renomado Erivaldo de Carira e irmão de Erivaldinho, três verdadeiros monstros da música nordestina e da sanfona brasileira. Mestrinho é um artista completo, que abraça o modernismo sem jamais desrespeitar a rica tradição musical que o inspira. Em um momento emocionante, ele compartilhou: – Este momento é a realização de um sonho! Mas não é apenas só um sonho dele, é um sonho maravilhoso compartilhado por todos nós, que sempre acreditamos no potencial da música de Sergipe.
Assistir tudo e confesso que não consegui conter as lágrimas. Ando com o chorador aberto. Chorei! Chorei de alegria, relembrando todas as experiências e emoções que vivi ao longo do tempo. Chorei ao relembrar o jovem de 16 anos que adentrou meu estúdio, o Capitania do Som, convidado por mim para gravar uma canção do grupo Cataluzes. Naquele momento, todos presentes se emocionaram ao ver esse jovem prodígio tocando como um músico experiente.
Hoje em dia, mantenho meu coração aberto para o choro, pois essas lágrimas me trazem uma enxurrada de momentos especiais. Recordo-me vividamente de quando Amorosa subiu ao palco do Canta Nordeste para interpretar “Coco da Capsulana”. Dizer que ela cantou é um eufemismo; na verdade, ela deu uma aula de interpretação, entregando sua alma e voz como tributo a Deus. Aquela performance exemplificou o verdadeiro espírito da música sergipana, e isso foi apenas um ensaio geral. Cada passo, cada olhar, cada movimento estava perfeitamente sincronizado com a essência da vida real. Uma luz divina irradiou daquela apresentação, iluminando a todos os presentes e despertando a curiosidade sobre como seria a noite do festival. Surpreendentemente, a noite do festival superou todas as expectativas. Amorosa impressionou os 15 jurados, recebendo uma pontuação perfeita de 10 em 12 deles, incluindo a minha avaliação, que não hesitei em dar a nota máxima. Até hoje, Amorosa e sua interpretação de “Coco da Capsulana” permanecem como a lembrança mais significativa e marcante do Canta Nordeste.
Na noite memorável de 1984, eu estava atuando como jurado no primeiro Festival Novo Canto, quando algo extraordinário aconteceu. De repente, um jovem magrinho apareceu no palco, segurando seu violão, e começou a cantar: “Aqui no fim do tempo, passa uma ventania. Fui tomado por um misto de surpresa e emoção, algo que permaneceria comigo para sempre, porque a voz daquele jovem era simplesmente transcendente, muito além do que qualquer ser humano poderia imaginar.
Ele entoou as palavras com tamanha paixão: “Aqui no fim do tempo, passa uma ventania, pra levar toda alegria. Aqui não passa bonde nem passa trem, mas passa uma ventania…” Era Chiko Queiroga com sua canção Fim de Primavera, um dos cantores mais notáveis e talentosos que já tive o privilégio de ouvir. Sua afinação era impecável, com falsetes e melismas cativantes, e sua interpretação era uma mistura única do Nordeste com as raízes de Minas Gerais. Naquele momento, eu sabia que estava testemunhando o nascimento de uma estrela, uma estrela destinada a brilhar intensamente por muitos anos.
Outra emocionante experiência ocorreu durante o Festival Famp, que tive a honra de criar em 2001. Esta edição do Festival também incluiu o Novo Canto e, com a agitação da produção, tínhamos pouco tempo para apreciar as performances dos intérpretes, pois todos nós, da equipe, estávamos focados em garantir que tudo ocorresse sem problemas. Claro, observávamos cada detalhe técnico, mas então algo extraordinário aconteceu no palco.
Patricia Polayne, uma verdadeira força da natureza, apareceu e começou a cantar, entregando sua música de forma poderosa e apaixonada. As palavras ecoaram com tanta sinceridade: “Amarelo, anil, verde, vermelho, espelho: Aparelho de memoriar!” Fiquei tão emocionado que me vi sentado na arquibancada do Centro de Criatividade, incapaz de me mover. Sua performance era definitiva, iluminadora e não deixava espaço para dúvidas. Patrícia era, e é, uma estrela resplandecente no cenário da música brasileira.
Esses momentos de descoberta e admiração pela música são tesouros que carregamos conosco para toda a vida. Eles nos lembram da beleza e do poder da música em nos conectar de forma profunda e emocional.
Todas essas emoções começaram quando eu tinha apenas quinze anos, quando tive a incrível oportunidade de testemunhar e aplaudir a melhor cantora deste país, Elis Regina. Naquela época, foi uma enxurrada de emoção e felicidade que eu jamais imaginei que viveria. Ledo engano, pois mais tarde, eu teria o privilégio de conhecer uma diva, uma cantora completa, que, ao subir ao palco, se transformava na mulher mais poderosa e genial que já vi. Ela possuía superpoderes, capazes de fazê-la voar, multiplicar-se e deixar todos atônitos e extasiados. Ela apaixonava a todos indiscriminadamente, sem preconceitos. Gena Karla, uma musa inspiradora que nunca esquecerei.
Tenho inúmeras histórias de emoções vividas ao lado dela, que simplesmente não têm explicação. Vou compartilhar uma delas, ocorrida em Salvador, no Shopping Brotas. Gena, ainda muito jovem, uma estudante de arquitetura na UFBA, sabia que eu estava na cidade e me ligou, dizendo que se apresentaria no shopping às 17:00 e que gostaria que eu fosse vê-la. Aceitei imediatamente o convite e cheguei cerca de dez minutos antes do horário marcado. De repente, lá estava ela, atrasada e toda descabelada, com a mesma roupa que usara durante todo o dia na universidade e sem nem mesmo lavar o rosto. Subiu ao palco com sua parceira, Lili, que tocava violão. Gena começou a cantar na praça de alimentação, com muitas pessoas conversando e fazendo barulho ao redor. No entanto, à medida que sua voz se infiltrava em cada ouvido e coração, a praça se aquietou, todos absorvidos e enfeitiçados por aquela jovem que, naquele pequeno palco, se transformou na mulher mais linda e produzida. Isso porque o que realmente importava era sua música, sua interpretação, sua verdade absoluta. Eu estava ali, maravilhado, testemunhando uma estrela em ascensão e seus fervorosos fãs, todos rendidos àquela cantora maravilhosa.
E não posso deixar de compartilhar outro momento de pura emoção e fascínio. Ao longo da minha trajetória, criei várias trilhas sonoras para espetáculos de teatro e selecionei muitas músicas para Lú Spinelli em seus espetáculos. No entanto, eu nunca havia composto música para dança até conhecer Cecilia Cavalcante, uma jovem bailarina que estava começando sua carreira empreendedora com sua escola, graças ao meu querido amigo Nery, músico e compositor. Em um dos espetáculos, intitulado “Carta Marcada do Tarô” em 2005, sugeri que a trilha sonora fosse composta por músicas originais, inspirado pelo trabalho de Nery. Acabei me envolvendo profundamente na produção e, juntamente com Rubens Lisboa, compus algumas canções.
À medida que dirigia o espetáculo, assisti a todos os ensaios e, a cada dia, ficava mais apaixonado por tudo, especialmente pelo talento de Cecilia. No entanto, um momento que jamais sairá da minha mente e do meu coração aconteceu na primeira cena em que Hanna Belly participou do espetáculo. Ela desceu em um balanço bem no centro do palco e, antes de tocar o chão, lançou-se em uma dança solo com minha voz e composição. Cecilia, transformada em Hanna Belly, dançou com uma beleza e talento inigualáveis, cativando a todos. Foi uma cena que permanecerá eternamente viva em minha memória e coração.
As emoções e certezas que escolhi viver foram reacendidas quando tive a honra de assistir ao nosso Mestrinho na Sala São Paulo, uma das melhores salas de concertos da América do Sul. Ele compartilhou o palco com o talentoso Chico César da Paraíba, a incrível Mariana Aydar de São Paulo e a grandiosa Orquestra Brasil Jazz Sinfônica. A emoção foi tão avassaladora que não consegui conter as lágrimas, e todas as escolhas que fiz ao longo da minha vida, todas as alegrias que superaram as tristezas, vieram à tona.
Chico César disse algo significativo naquela noite: “- Olhe só para quem veio de uma sala de reboco e agora estamos na maior sala de concertos. Estamos em um “Con-sertão”. É um sonho realizado.” Eu acrescentaria: “Para aqueles que vieram da sala de reboco, estamos ocupando o nosso merecido lugar na Sala São Paulo, porque a nossa música deve ocupar todos os espaços.
Eu chorei naquele momento, não de tristeza, mas de alegria profunda, de saudade boa, de uma certeza de que cumpri o meu papel na vida, como artista, como filho, como pai e como avô, e acima de tudo, como ser humano. Para quem nunca sentiu essa vontade de chorar pelo que lhe pertence, pelas suas raízes, pela sua identidade, pelas suas emoções e paixões, lamento profundamente. Viva Mestrinho!
