Olá, gente boa,
“Reconhece a queda e não desanima. Sacode a poeira e dá a volta por cima.” Esse refrão, imortalizado por Paulo Vanzolini e levado ao mundo por vozes como Noite Ilustrada e Beth Carvalho, tornou-se um verdadeiro hino da resiliência brasileira. Uma canção que, mais do que samba, é lição de vida: nunca desistir.
Foi nesse compasso que construí minha carreira artística. Entre altos e baixos, vitórias e tropeços — alguns por topadas do destino, outros por rasteiras humanas — aprendi a transformar cada queda em aprendizado. Minha mãe, Dona Susete, sempre dizia: “Isso é orgulhoso que só, por isso sofre tanto.” E é verdade. Trago comigo o orgulho das minhas escolhas e da família que construí. Por elas, aviso aos navegantes, mato e morro.
Sigo minha caminhada sem desistir, mesmo quando o pensamento insiste em martelar como uma bigorna: “Já está bom, desista, nada vai mudar, a cultura não é respeitada e você também não.” Mas não cedo. Se cheguei até aqui, por que não dar mais um passo? São mais de 40 anos vivendo a cultura, vendo artistas nascerem e outros partirem, jovens cheios de talento chegarem com força, e alguns acreditarem que inventaram a roda, como se só a juventude tivesse respostas. Poucos buscam aprender com o passado; muitos o ignoram, achando que um simples clique resolverá os problemas do mundo.
Faço cultura por afeto. Pelo legado que recebi dos meus antepassados, pelas memórias e saberes que vêm da minha terra sergipana. É o afeto que vibra no som dos tamancos do Samba de Roda e de Pareia em Laranjeiras, ou nas batucadas de minha Estância querida. É o afeto que colore meus olhos com as obras de Hortência, Cãa, Inácio e Jo’k. Afeto que ecoa nas vozes de Chico, Rebeca e Amorosa, nos acordes de Argolos, Saulinho Ferreira, Alberto Silveira e Ricardo Vieira. Que grita nos personagens de Lindolfo, Jorge, Talita, Izabel. Que pulsa nos sanfoneiros como Mestrinho, Erivaldo, João, Joésia e tantos outros que me alimentam e me dão força para sempre dar a volta por cima.
E como é gratificante provar a mim mesmo que teoria e prática se encontram, que minhas escolhas não foram em vão. Minha luta não é apenas por reconhecimento pessoal, mas pelo desejo de ver nossa cultura ocupar o lugar que merece: ser protagonista do desenvolvimento de Sergipe, e não apenas um enfeite, um “biscoitinho” para festas e discursos vazios.
Recentemente, tive a oportunidade de levar esse afeto além-mar. Fui à França, ao Festival Internacional do Forró em Lille, para defender o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade para o nosso forró. Sergipe brilhou ali, com a presença da Secult, da Funcap, da Setur e até do próprio governador Fábio Mitidieri. E brilhou ainda mais na noite mágica em que dois grandes artistas sergipanos, Mestrinho e Amorosa, enfeitiçaram franceses e brasileiros com música, canto e dança. Cada gesto, cada acorde, cada movimento foi um pedaço da nossa alma partilhado com o mundo.
E foi ali, sentado em frente ao maior museu do mundo, o Louvre, que vi a cultura passar diante dos meus olhos. Os franceses oferecem ao mundo, sem disfarces, a sua maior riqueza: a cultura.
Está em tudo: no despertar e no adormecer, nas paredes e nos caminhos, no modo de andar, nas roupas, no jeito de se alimentar. Em cada movimento, em cada palavra, em cada olhar, a cultura se revela como a verdadeira fábrica que sustenta a França. Um país que construiu sua riqueza e sua identidade sabendo transformar sua arte, sua história e seu patrimônio no motor do desenvolvimento.
E, sentado ali diante do Louvre, percebi com ainda mais clareza: se a França se sustenta tão ricamente de sua única fábrica — a cultura —, por que não podemos nós, em Sergipe e no Brasil, fazer o mesmo?
Temos uma história tão poderosa quanto, uma diversidade que encanta, uma musicalidade que não se encontra em nenhum outro lugar do mundo. O que nos falta não é talento nem patrimônio cultural; o que nos falta é olhar a cultura como investimento estratégico e não como gasto secundário.
Em cada sanfona que toca um forró pé de serra, em cada batida dos tamancos do Samba de Pareia, em cada traço dos nossos artistas plásticos, em cada cena de teatro que nasce nas ruas ou nos palcos sergipanos, está escondida a mesma força que ergue a França como referência mundial: a cultura como identidade e como economia.
Esse olhar que tive em Paris reforçou em mim a certeza de que Sergipe pode — e deve — se afirmar como terra de cultura viva, transformando nossos saberes e fazeres em orgulho, em riqueza e em futuro para o nosso povo.
Voltei dessa experiência com o coração cheio de certezas e esperanças. A cultura não é apenas memória ou entretenimento; é força de transformação, é motor de desenvolvimento, é alimento da alma e da economia.
Sergipe tem tudo para mostrar ao mundo o valor de sua identidade. Temos artistas, mestres, tradições, sons e cores que não cabem em vitrines, mas que podem — e devem — ocupar os espaços de protagonismo que merecem.
Que possamos aprender a dar à nossa cultura o mesmo lugar que vi a França dar à sua: o centro da vida, da sociedade e da sustentabilidade. Porque, como sempre digo, faço cultura por afeto, mas também por acreditar que ela é o futuro do meu povo.
E se resistimos até aqui, vamos juntos dar a volta por cima, mais uma vez, com a certeza de que Sergipe pode ser grande através da sua maior riqueza: a cultura sergipana.
