Olá, gente boa,
Setembro nos trouxe a dor de muitas despedidas. Perdemos o grande sanfoneiro Zé Américo de Campo do Brito, o professor e incansável defensor da cultura e do folclore Paulo Roberto, e uma das vozes mais belas do nosso cancioneiro sergipano, Djalma. Em homenagem a ele, compartilho aqui o texto “Djalma – Um guardião da Canção”, escrito há algum tempo e publicado no Cinform.
Já contei por aqui um pouco da minha infância ao lado de meus pais, Irineu e Susete, na Rua Divina Pastora, e das idas aos saraus no Castelinho, a casa de meu avô José Domingues, na esquina da Rua de Itabaiana com a Senador Rollemberg. Foi ali que conheci dezenas de artistas sergipanos.
Convivi com Ursino Fontes de Góis, o Carnera, músico exemplar, sempre elegante ao violão. Ele foi professor de inúmeros talentos, entre eles João Melo, o “Cantor Máximo de Sergipe”, e João Gilberto, o criador da Bossa Nova. Sempre digo: a Bossa Nova tem raízes em Sergipe, nos ensinamentos do mestre Carnera.
Naquele ambiente efervescente também brilharam Antônio Teles, nosso maior seresteiro, dono de um violão primoroso; Guaracy Leite, cantora corajosa que marcou presença na música sergipana; e o maestro Luiz Almeida D’Anunciação – Pinduca, primo do memorialista Murilo Melins e grande pesquisador dos ritmos brasileiros. Estava lá também Nino e seu conjunto, que acompanharam festivais de canção e marcaram época. Mais tarde descobri que Nino – Vilermano Órico – foi o maior cantor mirim da história de Sergipe, como registrei em meu livro Som da História.
Os saraus do Castelinho atraíam muitos artistas. Em uma dessas noites cheguei com meu pai e encontrei três jovens que não eram frequentadores habituais. Apresentaram-se como Trio Atalaia, antes chamado Trio Aliança. Entre eles estava Djalma, que eu já havia visto no conjunto de Nino. Ao lado de Edildécio Andrade e Agildo Alves, o Gravatinha, formavam uma fusão de vozes perfeita.
O Trio Atalaia foi escola para algumas das vozes mais belas de Sergipe, por onde passaram nomes como Adalvenon, Adenoaldo e Lisboa, dono do timbre mais agudo e limpo que já ouvi. Gravatinha seguiu carreira solo, gravou discos e percorreu bares e casas de shows pelo Brasil. Edildécio Andrade, violonista e cantor excepcional, integrou o Trio Irakitan, permanecendo até o fim da vida. Já Djalma consolidou-se como um dos maiores seresteiros de Sergipe, encantando plateias em bares, clubes e palcos de todo o país.
Djalma Silva Oliveira nasceu em Boquim, em 1942, filho do barbeiro e músico Emístocles Souza e de Maria da Glória. Desde cedo fazia serenatas, e sua primeira apresentação foi aos 15 anos, em um baile no clube social da cidade, no grupo de Edvaldo Medeiros, irmão do maestro Medeiros. Além de cantar, tocava violão e saxofone, talento herdado do pai.
Mudando-se para Aracaju, serviu ao Exército e, incentivado pelo irmão Dermeval Souza, músico e policial militar, começou a se apresentar em cabarés famosos como o Miramar, Xangai Imperial e Bambu, cantando boleros, sambas-canção e sucessos de Nelson Gonçalves e Orlando Silva. Seu talento logo se destacou e o tornou presença constante nos palcos.
Com o Trio Atalaia, Djalma ajudou a projetar a música sergipana. Gravaram sucessos como “Atalaia”, de Antônio Vilela, e se apresentaram em rádios, TVs e clubes, ao lado de grandes nomes nacionais: Wilson Simonal, Altemar Dutra, Vanusa, Renato e seus Blue Caps, Roberto Carlos, entre outros. Depois do fim do Trio, Djalma seguiu carreira solo brilhante, conquistando corações com sua voz potente, afinada e romântica.
Foi também integrante do conjunto de Nino, ao lado de Duda (baixo), Agnaldo (bateria) e Carlos Augusto (piano). Tocaram em festas, clubes como o Iara e a Associação Atlética, além de shows pelo interior. Com a partida de Nino para a Bahia e, depois, Natal, o grupo se desfez, mas deixou saudades.
Assim nasceu e se consolidou Djalma, o Seresteiro. Sua voz foi patrimônio vivo da música sergipana e brasileira, capaz de embalar carnavais com marchinhas e encher noites de poesia. Muitas vezes o ouvi no Hotel Beira Mar, Vaqueiro, Boate Segredo, Cantuá, Cacique Chá, entre outros espaços onde reinava com sua arte. Dancei carnavais embalado pelo seu sax e por sua voz potente.
Djalma faz parte da minha vida, do meu aprendizado musical e do meu amor pela boa música. Seu canto está na minha memória afetiva e na história cultural de Sergipe.
Djalma foi, e sempre será, um guardião da canção. Um seresteiro de almas, que agora encanta os anjos com seu doce cantar. Que sua arte ecoe eternamente, sublime e cheia de vida.
