Olá, gente boa!
Hoje, diante da nossa bandeira, em frente ao Palácio do Governo, celebrando os 205 anos da Emancipação Política de Sergipe, senti um misto de emoção, memória e esperança. Estavam ali o povo, as autoridades, o governador Fábio Mitidieri, o secretário Valadares Filho, representantes de diferentes áreas — e também a história viva do nosso estado.
Enquanto as cores da bandeira tremulavam ao vento, me vi voltando no tempo… Lembrei do início da minha caminhada na cultura. Do menino que cantava, tocava e sonhava. Do jovem que acreditava que a arte podia transformar destinos. Do artista que, ao ser chamado à gestão pública, entendeu que o palco também podia ser trincheira — lugar de luta por políticas justas, por espaços abertos, por inclusão e pertencimento.
E foi nesse reencontro com o símbolo maior da nossa identidade que me veio, mais uma vez, a certeza: a cultura não pode ser privilégio de poucos, nem acessório de governo. Ela tem que ser uma propriedade viva, afetiva, coletiva e inclusiva do nosso povo.
O verdadeiro sentido da emancipação está na liberdade de ser quem somos, de expressar nossas raízes, nossos ritmos, nossas narrativas. Por isso, acredito profundamente que a cultura deve estar no centro das políticas públicas, pois ela é a força que une, que cura, que empodera e que emancipa de verdade.
Meus sonhos e desejos na cultura nascem de uma utopia. Como todo pensamento utópico, brota da esperança em uma sociedade com valores culturais sólidos, capaz de enfrentar desafios e adversidades sem perder sua coesão, identidade e capacidade de imaginar um futuro melhor. A utopia, para mim, não é uma ilusão — é um farol. Um ideal que, mesmo parecendo distante, nos guia, inspira e orienta.
A utopia é também uma crítica ao presente. Mas pode ser, sobretudo, semente de transformação. Ela nos impulsiona a sonhar e a realizar. Sonhos que se transformam em ações, políticas, encontros, ideias compartilhadas. É assim que tento agir: sonhando, sim — mas com os pés firmes no chão sergipano e com o coração pulsando na defesa da nossa cultura.
Minha utopia é uma sociedade em que a cultura seja eixo central e estruturante. Onde a arte seja força vital, promovendo identidade, coesão social, desenvolvimento humano, econômico e simbólico. Uma cultura forte é sinal de um povo forte. É assim que entendo o papel da cultura na construção de um mundo melhor — mesmo que a perfeição seja inalcançável, o caminho vale a pena.
Comecei cedo na música. Cantando, tocando, compondo. Como Platão, sempre acreditei que a música tem um papel fundamental na formação moral dos cidadãos. Que os sons, os ritmos e as harmonias moldam o caráter de um povo. E isso me formou.
Mais tarde, fui convidado por Eugênia Teixeira, lá pelos anos 1990, a ingressar na gestão pública. Um universo novo, quase paralelo à minha vida artística. De repente, deixei de ser pedra e me tornei vidraça. Do palco fui para os bastidores da política pública. Foi um processo. Aprendi a ouvir mais que falar, a gerir, entender, buscar caminhos, dialogar até convencer. Aprendi que a responsabilidade pública é coletiva — e ainda mais densa quando se trata de cultura, que tantas vezes é colocada em segundo plano.
A cultura precisa ser organizada, fortalecida, defendida. A gestão cultural exige estratégia, sensibilidade e firmeza. Ela passa pela criação de políticas públicas consistentes, pela democratização do acesso, pela valorização das identidades e pelo enfrentamento da lógica mercadológica que tenta padronizar tudo, esvaziando nossos símbolos e modos de vida.
Vivemos sob o bombardeio constante de uma indústria que não se importa com nossa história — apenas com o consumo. E o papel de quem está na gestão pública é resistir a isso. Com projetos, com ações, com coragem.
Por isso, quando sou chamado a ocupar qualquer cargo público na área que escolhi para viver e construir minha trajetória, não posso — e não devo — ser passivo. É preciso aproveitar cada espaço e oportunidade para avançar na direção da utopia. Mesmo que a passos curtos, mesmo enfrentando resistências. Avançar.
Realizar sonhos é o que sei fazer. Transformar ideias em ação, memória em política, talento em oportunidade. Porque sei que isso é importante não só para mim, mas para o povo. Precisamos preservar e promover a diversidade cultural como uma riqueza, como base do desenvolvimento humano.
Hoje, Sergipe começa a viver um novo tempo com o projeto VIVA-SE, no qual a cultura é protagonista do desenvolvimento. Mas não basta um bom projeto — é preciso sustentação. Por isso, defendo a consolidação de uma Secretaria de Cultura e Economia Criativa forte, articulada com a sociedade, e de uma FUNCAP estruturada, robusta e eficaz.
Sonhamos — e já projetamos — buscamos aprovação — a criação de uma sede própria da cultura sergipana: o Palácio da Cultura, instalado no histórico prédio Walter Franco. Um símbolo vivo da memória, restaurado e transformado em espaço de futuro. Um centro integrado com a Secretaria, a FUNCAP, o Conselho Estadual de Cultura, a Galeria J. Inácio, um Memorial da Cultura Sergipana, um Cine Teatro Palace e um restaurante escola voltado à gastronomia local. Um complexo que, além de abrigar estruturas, ajudará a ocupar de forma criativa o centro histórico da nossa capital.
Essa ação não seria apenas um marco administrativo — seria um gesto simbólico e concreto de valorização da cultura como eixo estruturante da vida sergipana. Um exemplo para todos os entes federativos de como preservar, revitalizar e dar destino viável a um patrimônio que é do povo.
Sei que o caminho é longo. Que precisamos trabalhar muito. Mas também sei que é preciso apontar rumos, abrir janelas, mostrar à sociedade que essa luta não é apenas por verbas ou editais. É por identidade. Porque um povo sem identidade é facilmente comandado por qualquer um.
Seguimos. Com coragem, com sonhos — e com a certeza de que a utopia, mesmo que distante, é uma estrela que vale a pena seguir. Hoje, diante da bandeira, me emocionei por tudo que já fizemos. Mas me motivei ainda mais por tudo que ainda precisamos — e podemos — fazer juntos.
