Olá, gente boa,
Sou um folclorista, dentre tantas coisas que sou — e que dizem que sou. Um apaixonado, guiado por meus mestres e professores da vida. Talvez até uma “praga boa” deixada por meu tio José Calazans Brandão da Silva. Fico feliz quando vejo o folclore ocupar as ruas com suas cores, sons e sentidos, mas entristeço profundamente quando ele é maltratado, esquecido ou, pior ainda, desonrado por gente sem memória e sem noção de pertencimento.
Herdei as memórias de minha bisavó, que sempre dizia: “A memória é a reserva de todas as nossas experiências juntas. É um baú sempre presente, cheio de lembranças, fotos mentais, coisas guardadas que nos guiam. É como aquele cofre onde os tataravós guardaram seus saberes e bagulhos. E não é só porque uma mãe contou à filha, que contou à outra. É também porque a gente repete, recria, compartilha de formas diferentes — e isso gruda na maneira de viver.”
No dia 22 de agosto de 2011, tive a honra de acompanhar meu amigo Luiz Antônio Barreto em um debate inspirador com o tema “Folclore, Tradição e Modernidade”. Participaram também três grandes mestres de nossa cultura: Zé Rolinha, Mestre da Chegança, do Batalhão e Rei do Lambe-Sujo; Bárbara Cristina, Mestra das Taieiras e Lôxas do Nagô; e o próprio Luiz Antônio Barreto, com sua erudição e defesa incansável de nossa herança cultural.
Na ocasião, mesmo relutante em voltar à cidade por perceber o desprezo crescente com que a cultura popular vinha sendo tratada, Mestre Luiz Antônio aceitou o convite e compartilhou um pensamento que permanece atual:
“Nos últimos anos, testemunhamos um abuso no domínio dos shows de artistas midiáticos, que disputam espaço com nossos grupos folclóricos… Os grupos folclóricos são momentos gloriosos para as comunidades, moldando a história e tradições de nosso povo. Devemos, portanto, valorizá-los.”
A emoção daquele encontro foi imensa. Luiz Antônio saiu feliz, reconhecido pela prefeita que havia sancionado a pioneira Lei dos Mestres, tornando Laranjeiras o primeiro município do Brasil a criar esse reconhecimento. Hoje, 22 de agosto de 2025, 14 anos depois, seguimos a luta: há muito ainda a preservar, defender e reconstruir no campo do folclore. Não basta discurso bonito — é preciso ação concreta.
Temos a Lei Estadual da Cultura Viva, aprovada no fim do governo passado a pedido do então governador Fábio Mitidieri e do vice Zezinho Sobral, que já premiou dez Mestres, agora revista e melhorada pelo Conselho Estadual de Cultura. Enquanto isso, a primeira lei municipal do Brasil, criada em Laranjeiras, segue esquecida em uma gaveta, usada como moeda política ao sabor dos interesses de quem governa. Desde 2013, nenhum edital foi aberto, contrariando o que determina a lei: seleção anual. Dos oito mestres contemplados, já nos despedimos de alguns — como Mestre Ranulfo, Mestre Sales, Mestre Deca e Mestra Efigênia — sem que novos tenham sido reconhecidos. A cada ano que passa, em vez de fortalecer, a lei definha, submetida à lógica da omissão e da conveniência.
Enquanto isso, o município parece empenhado em destruir sua maior riqueza: a cultura popular, patrimônio material e imaterial, entregue aos interesses políticos e econômicos.
O momento é de urgência. Nossa identidade está sendo corroída dia após dia. Precisamos de todos, unidos, para reverter essa situação e devolver dignidade aos grupos de tradição — no folclore, nos terreiros, nos versos, aboios e festas de um povo rico, múltiplo e criador que é o sergipano.
VIVA O NOSSO FOLCORE!
