Olá gente boa,
A gestão pública, em qualquer área de atuação, enfrenta incontáveis desafios e dilemas. Uma coisa que aprendi nesses anos de caminhada é que não existe uma fórmula única capaz de resolver todos os problemas de gestão. Cada setor tem suas especificidades, seus caminhos, suas dores e suas potências.
Quando o assunto é gestão cultural, muita gente costuma imaginar que é uma tarefa simples, quase descomplicada. Há quem pense que trabalhar com cultura é apenas escolher shows, organizar festas ou promover eventos, que por si só já é um exaustivo e importante trabalho. E muito mais que isso. Quem vive essa realidade sabe que a cultura, assim como qualquer outro setor, exige planejamento, responsabilidade, estratégia, gestão financeira, de pessoas, de espaços, de infraestrutura, de contratos e de recursos materiais.
Mas há uma característica que torna a gestão cultural ainda mais singular: ela não se resume à administração dos meios. Ela lida, essencialmente, com a subjetividade. Isso significa que, além dos processos administrativos, há um cuidado profundo com a identidade, com a memória, com os saberes, os fazeres, as expressões artísticas, as tradições, os territórios e as representações de um povo.
De acordo com meu professor Albino Rubim, a gestão cultural é uma prática social complexa, que articula dimensões simbólicas, políticas e econômicas. Ela não é apenas a administração de eventos ou espaços, mas um campo estratégico de mediação entre os interesses da sociedade, dos artistas, dos fazedores de cultura e do poder público.
E é justamente aí que entra um dos maiores desafios: a programação cultural. Diferente de outras áreas, na cultura o gestor não apenas organiza os meios para que algo aconteça. Ele também precisa ter um olhar sensível, crítico e atento sobre o conteúdo que será oferecido à sociedade. Mesmo que contrate curadores ou comissões técnicas, cabe ao gestor supervisionar, acompanhar e, muitas vezes, decidir sobre a linha editorial, os critérios e os princípios que vão nortear essa programação.
Além disso, trabalhar com artistas — e não para os artistas — é sempre um desafio. Isso porque lidamos com a natureza subjetiva da arte, com diferentes linguagens, estilos de comunicação, percepções de mundo e maneiras de atuar. A gestão cultural exige, acima de tudo, respeito, flexibilidade, escuta ativa e comunicação clara e honesta.
É importante lembrar que nem todo artista é comunicador no sentido prático da gestão. Às vezes, os ruídos na comunicação geram mal-entendidos, tensões e até conflitos. Por isso, o respeito aos artistas, aos fazedores e aos agentes culturais precisa ser um princípio fundamental. Nos cabe, como gestores, compreender essas dinâmicas e buscar caminhos que beneficiem a todos, de forma justa e equilibrada.
Se eu pudesse estabelecer alguns critérios essenciais, começaria por Liderança. Não abra mão dela. Seja o líder do processo. Prepare-se, estude, tenha segurança para orientar, propor caminhos e tomar decisões, sempre pronto para lidar com imprevistos e desafios. Os conflitos são inevitáveis. Lidamos com artistas, seus egos, suas ansiedades, suas mudanças de visão e suas urgências de realização. Por isso, seja um mediador. Busque sempre encontrar soluções que possam contemplar o coletivo, com muito respeito, firmeza na condução e flexibilidade nas decisões.
No livro “Políticas Culturais no Brasil” (2010), Albino Rubim reforça que a cultura deve ser pensada não apenas como um bem simbólico, mas como um direito humano. E mais: que as políticas culturais precisam dialogar com as necessidades, os desejos e as dinâmicas das comunidades.
Por isso, nossa atuação na gestão exige, além de tudo, capacidade técnica, sensibilidade social e visão política. É indispensável o diálogo permanente com os agentes culturais, os artistas e a sociedade civil. Também são fundamentais o planejamento estratégico, o investimento adequado e a capacitação constante das equipes.
A mistura entre a capacidade política e a competência técnica é, sem dúvida, a fórmula que torna uma gestão cultural eficaz, eficiente e, principalmente, transformadora.
Por fim, é sempre bom lembrar — e aprendi isso com o professor Albino Rubim — que a gestão cultural não é neutra. Tudo que produzimos, programamos, financiamos ou priorizamos carrega uma intencionalidade, seja ela consciente ou não. Portanto, o gestor cultural precisa estar comprometido com princípios inegociáveis: responsabilidade, ética, honestidade, diversidade, pluralidade, inclusão, escuta ativa e democracia cultural. Esses são os alicerces de uma gestão que, de fato, faz a diferença.
