No início, havia uma imponente radiola “Empire” ocupando o centro da sala – um móvel belo e charmoso que capturava a atenção de toda a família. Nesse móvel mágico, tínhamos um rádio e um toca-discos, de onde emanavam melodias cativantes, canções e informações que preenchiam nossos dias em casa. Assim, desde cedo, desenvolvi o hábito de ouvir as notícias e histórias de Silva Lima, Batalhinha, Jurandir Santos, Luiz Trindade e Santos Mendonça. No entanto, o que mais me encantava era brincar com os discos que meu pai, Irineu, trazia de vez em quando do trabalho. Alguns eram os favoritos da minha mãe, Susete, e ela os colocava para tocar frequentemente. Eu ficava admirando as capas, observando cada detalhe e ouvindo as melodias.

Meu avô José Domingos, costumava organizar um sarau no Castelinho da Rua Itabaiana, como eu chamava a casa da minha avó, América. De vez em quando, meu pai me levava lá, onde tive a chance de conhecer muitos músicos, cantores e boêmios do nosso estado, como Carnera, Carvalhal, João Rodrigues, João Argollo, Antônio Teles, entre outros. Porém, havia um senhor de cabelos brancos que se destacava. Ele cantava, tocava violão e preparava uma macarronada divina. Sempre que ele estava presente, perguntava por mim, e eu, era sempre o primeiro a se servir daquela deliciosa macarronada. Em um dia comum, enquanto eu estava em casa assistindo à mais recente aquisição do meu pai, uma televisão Empire, vi na tela chuviscada da TV o meu amigo de cabelos brancos cantando. Chamei minha mãe e disse: “Mãe, é ele, o senhor do macarrão.” Ela riu, incrédula, e perguntou se era ele mesmo. Eu disse que sim. Ela então me contou que ele era Silvio Caldas, um grande cantor do Brasil, e pegou entre os discos o LP “Silvio Caldas, um grande seresteiro”. Fiquei impressionado e sempre que podia, ouvia aquela gravação do meu primeiro amigo famoso.

Aos nove anos, comecei a frequentar o conservatório para estudar violão com o professor João Argollo. A música começou a tomar forma em minha vida, e comecei a cantar na escola, entrando em contato com a música clássica. No entanto, um dia ganhei uma vitrola portátil da Empire com dois álbuns de Paul Simon e Art Garfunkel, cantores americanos que eram excelentes em canto e vocais – uma novidade para os meus ouvidos. Logo depois, assisti na TV a uma cantora gaúcha interpretando uma música chamada “Madalena”. Escutei-a apenas duas vezes e já sabia cantá-la e tocá-la no meu violão Di Giorgio estudante 18. A letra dizia: “Ê, Madalena; O meu peito percebeu; Que o mar é uma gota; Comparado ao pranto meu.”

Toquei “Madalena” tantas vezes que ela se tornou mais famosa no bairro do que a “Mariola” ou o “picolé da Cinelândia”. Sempre que os meninos me viam, perguntavam: “Lá vem Madalena de novo? Aprenda outra.” Rapidamente, descobri que a cantora não se chamava Madalena, mas sim Elis Regina, que se tornou outra fonte de inspiração, e os compositores eram Ivan Lins e Ronaldo Souza. Ivan Lins era um cantor sensacional, músico, pianista e compositor que meus tios admiravam. Ele tinha canções como “Até o Amanhecer”, “Bia, Bia, Beatriz”, “Me Deixa em Paz” e “O Amor é o Meu País”, entre outras.

A partir desse momento, Ivan Lins se tornou meu artista favorito. Eu me identificava com ele não apenas na forma de pensar musicalmente, mas também no lirismo do canto e nas melodias bem elaboradas e bem estruturadas que a música clássica proporcionava. Além disso, o fato de seu nome começar com “I” como o meu “Irineu”, e sua relação com Lucinha Lins, uma verdadeira deusa da beleza, além de ser bonitão feito eu, só fortaleceu meu vínculo com ele. Na minha mente, eu era o “brother” de Ivan Lins. Eu desejava ouvir tudo o que ele produzia e até estava considerando trocar de instrumento para estudar piano.

Foi aí que percebi que eu estava me tornando um parceiro, uma sombra de Ivan, suas músicas estavam profundamente enraizadas em meus pensamentos, e toda vez que tentava criar algo novo, surgiam ideias de suas músicas. Foi então que tomei uma decisão radical e juvenil: parei de ouvir suas músicas e as de qualquer outra pessoa, pois queria criar uma música única, só minha.

Graças a Deus, a maturidade chegou e com ela veio a compreensão de que somos todos diferentes, embora compartilhemos sentimentos e experiências semelhantes. A música que criamos é um reflexo de nossa própria vivência. Com essa perspectiva, pude finalmente apreciar uma ampla gama de artistas, cantores, músicos, compositores e letristas, enriquecendo minha coleção musical. Ivan Lins continuou sendo uma presença constante, mas agora ele era apenas um entre muitos em minha apreciação musical.

É impossível expressar em palavras a gratidão que sinto por Ivan Lins. Sua música e sua presença na minha vida representam muito mais do que meras notas e acordes; eles simbolizam uma jornada de descoberta e crescimento. Ivan não é apenas um músico extraordinário, mas também um professor silencioso e distante que me ensinou lições valiosas sobre a arte da música e, ainda mais importante, sobre a arte de ser autêntico.

Sua obra transcende o tempo e as fronteiras, tocando os corações de pessoas ao redor do mundo. As melodias e letras profundas de suas canções são verdadeiras joias da música brasileira e global. Ivan Lins deixa para a humanidade uma herança de beleza, paixão e profundidade que ecoará por gerações.

Além disso, ele me ensinou que a verdadeira criatividade vem da autenticidade. No meu caminho artístico, eu me perdi tentando emular seu talento, mas com o tempo, compreendi que o verdadeiro dom da música reside em compartilhar nossas próprias experiências e perspectivas únicas. Ivan Lins se tornou mais do que um ídolo para mim; ele é um exemplo de como ser fiel a si mesmo e à sua arte.

Hoje, com 63 anos mais e de 40 anos de carreira, estou prestes ao meu primeiro encontro com meu ídolo, abrindo o show dele no teatro Tobias Barreto, com o lançamento do meu novo álbum “Som da História”. É uma honra e um momento que jamais esquecerei. A gratidão que sinto por esse presente divino é imensa, e sei que, de alguma forma, estou retribuindo o que aprendi com meu “brother” da infância.

Ivan Lins é um farol que guia artistas e amantes da música em todo o mundo. Sua música e seus ensinamentos continuam a nos inspirar a ser autênticos e a compartilhar nossas histórias. Minha gratidão por sua contribuição à música e à humanidade é eterna, e sua obra continuará a iluminar nossas vidas, inspirando-nos a criar e a ser verdadeiros conosco mesmos.

E como ele canta: Depende de nós.

*Texto da Coluna Som a Historia no Cinform.