Olá gente boa,
Tem gente que nasce para ser o irmão que a vida esqueceu de nos dar, o amigo que a gente sempre precisa, o amparo que sustenta nos dias mais difíceis. Eu tive a sorte — e que sorte bonita — de encontrar pelo caminho da vida algumas dessas raras almas. São poucas, mas essenciais para o meu viver. Já falei por aqui de amigos como Elber Batalha, Antônio Rolemberg, Manuel Vasconcelos, Alexi Pinheiro, Rubens Lisboa, Roberto Bispo, Genival Nunes, Miltinho Goulart, entre outros poucos e bons que permanecem presentes, mesmo quando o tempo e a distância tentam afastar.
Entre esses irmãos que a vida me presenteou, veio pelas mãos de outro querido amigo, Alexi, seu primo Denys Leão. Foi no final da década de 1970 que Denys chegou, e logo estávamos juntos — eu, ele e Alexi — viajando pelos festivais da vida. Denys, sempre com o segundo violão em punho, ajudava na produção, nas parcerias musicais e nos arranjos.
Em 13 de abril de 1980, um acidente de moto mudou os rumos da sua trajetória. Ficou sem andar por um tempo, com pequenas sequelas nas pernas, mas com o coração ainda maior. Essa fase nos aproximou mais ainda. Denys passava as tardes ao lado de Hunald Alencar, e dessa amizade nasceram canções, musicais e um reencontro com sua grande paixão: o teatro.
Em 1981 começamos a sonhar um show, e como todo sonho bom, juntamos uma trupe de sonhadores. Assim nasceu o Entre Amigos, espetáculo histórico e inesquecível. Eu, Emanuel Dantas e Denys ficávamos “bolinando” as cordas dos violões em busca de melodias, enquanto Alexi e Genival brincavam com as palavras. Denys assinou a iluminação; Genival dirigiu; trouxemos o som de Salvador, um PA de verdade — o primeiro num show de artistas sergipanos. No palco, Maurício Botto (piano), Jairo Bala (baixo), Marcos Passos (bateria), Cal Alencar (flautas), Paulo Bedeu (percussão) e nas vozes eu, Alexi, Emanuel e Dalila. Assim nascia o grupo Entre Amigos e, logo depois, o espetáculo Brasil Conversa de Fome, em 1982.
Denys participava de tudo — ensaios, produção, composições — mas seu coração pulsava mesmo pelo teatro. Atuava, dirigia, criava planos de luz, compunha trilhas. Com Hunald Alencar, construiu uma linguagem cênica própria. Foi estudar História em João Pessoa e lá encontrou grandes parceiros que hoje são memória viva da cultura brasileira: Pedro Osmar, Paulo Rô, Bero Quirino, Chico César, Bráulio Tavares, entre tantos outros.
Denys Leão nasceu em 5 de junho de 1957, no Recife, filho de sergipanos. Estreou no teatro em 1974, na Escola Técnica Federal de Sergipe, com Romeu e Julieta, pelo Grupo União. Dali em diante, o palco se tornou sua morada.
Ator, iluminador, diretor e professor licenciado em Teatro pela UFS, Denys marcou gerações. Nos anos 1980 integrou o Grupo Raízes e se tornou iluminador do Teatro Atheneu, trabalhando com grandes nomes nacionais — Stênio Garcia, Tônia Carrero, Eva Wilma, Ítala Nandi, Bibi Ferreira, e tantos outros. Iluminou ainda companhias de dança como o Cisne Negro, acompanhando Ana Botafogo e Fernando Bujones.
Nos anos 1990 dirigiu o Grupo Arquibancada de Teatro do Colégio Arquidiocesano e colecionou prêmios com espetáculos como O Crime Roubado, O Padre Assaltante e Coiote. Foi curador do Festival de Teatro de Sergipe (2008), do Festival Nacional de Monólogos de Laranjeiras (2011) e coordenador de teatro do Encontro Cultural de Laranjeiras por três anos consecutivos.
Recebeu o Prêmio Arlequim de Mármore em diversas categorias — direção, iluminação, trilha sonora, maquiagem, elenco — e a Medalha Tobias Barreto como reconhecimento à sua trajetória.
Hoje, Denys continua inquieto e criador, erguendo com as próprias mãos seu novo espaço: a Casa do Acaso, um abrigo para as artes cênicas e um laboratório onde pretende partilhar tudo o que aprendeu nesses anos de labuta, coragem e amor pela cultura. Só para lembrar nessa sexta dia 07 de Novembro ele recebe a horaria Epifânio Doera concedida pelo Conselho Estadual de Cultura.
Denys é o coração pulsante de um teatro que resiste, um guerreiro da luz, um sonhador de palco e bastidores. Um amigo leal, um irmão presente, um artista que fez da vida o seu maior espetáculo.
Neste Dia da Cultura, presto minha homenagem a esse ser das artes — ator, iluminador, diretor, produtor, compositor, educador — e, acima de tudo, homem de alma luminosa.
Viva Denys Leão. Viva a Cultura Sergipana.
