Olá gente boa,
Minha bisavó Noemi Brandão — minha filósofa de plantão — sempre me ensinou coisas bonitas e profundas. Uma delas foi aquele antigo provérbio chinês: “Todos os fatos têm três versões: a sua, a minha e a verdadeira.” Lembro também de Confúcio, que dizia: “O homem superior atribui a culpa a si próprio; o homem comum, aos outros.” Talvez seja por isso que sigo a vida tentando entender o meu caminho, minhas escolhas e minhas responsabilidades dentro da cultura.
Recebi do Tribunal de Contas do Estado de Sergipe o convite para participar, no próximo dia 18 de novembro de 2025, da solenidade de Outorga da Medalha de Mérito Cultural Carlos Pina. Serei agraciado com essa honraria como reconhecimento público da minha trajetória e das minhas contribuições à cultura sergipana.
E isso, gente boa, me deixa profundamente emocionado. É bonito ser lembrado ainda em vida. Nem sempre entendi as homenagens — achava que muitos outros estavam à minha frente, com mais obra, mais estrada, mais merecimento. Hoje compreendo diferente: cada reconhecimento é o resultado de uma vida inteira dedicada à cultura. Não é um adereço de peito. É a síntese de uma caminhada.
E no meu caso, é síntese de uma caminhada independente, feita com coragem, teimosia, renúncias e escolhas. Uma vida onde cultura não é discurso bonito: é prática diária, é compromisso, é propósito.
Não é difícil fazer cultura ou arte — difícil é fazer as pessoas entenderem a nossa escolha.
A família, preocupada com o amanhã, sempre lembra que arte “não dá segurança”.
Os empresários enxergam o negócio, o lucro, mas raramente olham o artista.
Produtores chegam com receita de bolo pronta que não cabe dentro do nosso imaginário.
Gestores acham que cultura é palco para voto ou prestígio, e quando descobrem a complexidade dizem: “trabalhar com cultura é complicado, é cheio de bicho-grilo e doido.”
É por isso que venho lutando — há décadas — para que nossos fazedores entendam o tempo novo que estamos vivendo.
Um tempo em que não cabe mais só o lúdico, o sensível, a inspiração que chega e vira obra.
Nós, artistas, somos um produto?
Sim, somos. Mas um produto muito diferente: alimentamos a alma, salvamos mentes, despertamos memórias, oferecemos beleza, saudade, sorriso e sentido.
O dinheiro não é o mais importante. Mas sem ele não se constrói dignidade, não se cria família, não se ergue carreira, não se sustenta futuro. Cultura é trabalho — e trabalho merece respeito.
A cultura deste país sempre foi uma riqueza extraordinária.
Mas, ao longo da história, os poderes preferiram explorar petróleo, desmatar, tirar ouro, arrancar borracha, plantar cana. A cultura, quando lembrada, era apêndice da educação ou vitrine do turismo. Vendia-se a mulata, a bunda nacional, a seca do Nordeste, o “folclore” pobre como espetáculo. Teatro, dança, música, artes visuais e audiovisual eram taxados de coisa de comunista ou vagabundo que não queria trabalhar.
Nós provamos que tudo isso era falácia de uma elite arrogante e preconceituosa.
Eu mesmo já ouvi muito: “Vai investir nesse artista aí que nem banho toma?”
“Olhe como ele se veste…” Sempre houve medo de quem pensa, de quem cria, de quem mexe com o imaginário do povo.
Mas hoje temos saída. Temos um Sistema Nacional de Cultura fortalecido, um novo Plano Nacional de Cultura — enviado pelo Presidente Lula ao Congresso — do qual tive a honra de participar diretamente na construção. Tem editais, prêmios, marcos legais e, principalmente, um modelo de investimento fundo a fundo com estados e municípios, que garante continuidade, estrutura, dignidade e futuro para quem faz cultura de verdade.
Só precisamos compreender, de uma vez por todas, que a cultura é o novo protagonista do desenvolvimento local — capaz de gerar renda, identidade, pertencimento, turismo, autoestima, cidadania e transformação real nas comunidades.
E aqui entra a minha verdade, aquela com a qual vivo até hoje — que não precisa se opor à verdade de ninguém, mas que sempre se coloca diante da verdade real.
A cultura é a minha vida, o meu ofício, a minha morada espiritual.
Sou artista, sou fazedor de cultura, formado no chão da minha aldeia, no terreiro da minha cidade, no meu Sergipinho amado. É ali que aprendi tudo. É ali que me fiz. É ali que me reencontro quando o mundo pesa.
Por isso mereço, sim, ser lembrado e homenageado sempre que quiserem — e também fico em paz quando não quiserem.
Porque meu valor não depende do aplauso: depende da minha consciência, da minha entrega e do meu caminho.
Mas hoje, neste momento, recebo essa Medalha Carlos Pina com o coração cheio de gratidão, felicidade e senso de missão cumprida — ainda que a luta continue todos os dias.
Obrigado, TCE.
Obrigado a Susana Azevedo
Obrigado a todos vocês.
Obrigado à minha Sergipanidade que nunca me abandonou e que me faz seguir, firme e independente, honrando a cultura que me escolheu.
