Olá, gente boa,
Ao longo das últimas décadas, a cultura brasileira avançou muito. Criou sistemas, conselhos, fundos, planos, editais, mecanismos de participação social e instrumentos capazes de democratizar o acesso aos recursos públicos e ampliar o reconhecimento da diversidade cultural do país.
Mas, apesar desses avanços, ainda persiste um desafio que atravessa gerações de gestores, artistas, produtores e agentes culturais: transformar a cultura em uma verdadeira política de Estado.
A diferença parece pequena, mas não é.
Políticas de governo costumam acompanhar mandatos, prioridades eleitorais e circunstâncias administrativas. Políticas de Estado são aquelas construídas para atravessar governos, sobreviver às mudanças políticas e permanecer servindo à sociedade independentemente de quem ocupa os cargos públicos.
Talvez seja exatamente esse o maior desafio da cultura brasileira na atualidade.
Enquanto outras áreas já consolidaram estruturas permanentes de planejamento, monitoramento e continuidade, a cultura ainda convive com interrupções, descontinuidades e mudanças bruscas de direção a cada novo ciclo político.
Não se trata de responsabilidade deste ou daquele gestor. Trata-se de uma característica histórica que precisa ser enfrentada com maturidade institucional.
A cultura não pode depender exclusivamente da boa vontade de governantes, secretários ou dirigentes. Precisa estar apoiada em estruturas sólidas, construídas coletivamente pela sociedade.
Planos de cultura precisam ser mais importantes que mandatos.
Sistemas de cultura precisam ser mais fortes que circunstâncias políticas.
Conselhos de cultura precisam ser espaços permanentes de participação social.
Fundos de cultura precisam garantir continuidade às ações estratégicas.
E os patrimônios culturais, materiais e imateriais, precisam ser protegidos por políticas permanentes de salvaguarda.
O desafio se torna ainda maior em um mundo cada vez mais globalizado, onde tradições locais, manifestações populares e identidades culturais convivem diariamente com uma poderosa indústria de entretenimento que ocupa espaços, influencia comportamentos e redefine referências culturais.
Não existe problema algum na convivência entre o novo e o tradicional.
O problema surge quando o tradicional desaparece.
Quando uma manifestação deixa de ser transmitida às novas gerações.
Quando os mestres da cultura envelhecem sem sucessores.
Quando os grupos populares encontram dificuldades para continuar existindo.
Quando os territórios perdem suas referências simbólicas.
Quando a identidade se transforma apenas em memória.
Nesse cenário, o papel do poder público não é escolher o que as pessoas devem ouvir, assistir ou consumir culturalmente. Seu papel é garantir equilíbrio.
Garantir que aquilo que constitui a identidade de um povo tenha condições de existir, resistir e se renovar.
Mais do que financiar eventos, a gestão cultural precisa fortalecer ecossistemas.
Mais do que realizar programações, precisa construir legados.
Mais do que promover ações pontuais, precisa criar mecanismos permanentes de desenvolvimento cultural.
Porque cultura não é apenas entretenimento. É também um ativo estratégico de desenvolvimento. Ela movimenta a economia, fortalece o turismo, gera trabalho e renda, estimula a economia criativa e amplia o sentimento de pertencimento das comunidades aos seus territórios.
Quando uma sociedade perde suas referências culturais, não perde apenas manifestações artísticas. Perde memória, pertencimento, autoestima e oportunidades de desenvolvimento. A cultura não é apenas aquilo que nos emociona. É também aquilo que nos identifica, nos organiza socialmente e nos ajuda a construir futuro.
Talvez esteja aí a principal missão dos próximos anos: consolidar estruturas capazes de proteger o patrimônio cultural, fortalecer os artistas locais, ampliar a participação social e assegurar que a cultura continue sendo um instrumento de desenvolvimento humano, econômico e social.
Os povos que preservam suas identidades conseguem dialogar melhor com o mundo. Os que abandonam suas referências acabam se tornando apenas consumidores das referências produzidas pelos outros. Defender a cultura não é olhar para trás. É garantir que exista futuro.
Porque governos passam.
Gestões terminam.
Mandatos se encerram.
Mas a identidade de um povo precisa permanecer.
E essa é uma responsabilidade que pertence a todos nós
“Sem identidade cultural não existe desenvolvimento sustentável, nem social, nem econômico, nem humano”.
