Olá gente boa,
E aí, cultura e memória ou memória e cultura? Parece até aquele dilema clássico: “você quer pão com manteiga ou manteiga com pão?” Pode parecer apenas uma questão de ordem, mas não é. Até na pergunta do pão com manteiga, meu amigo, a ordem muda o sentido!
A memória é como um grande baú sempre presente, guardado em algum canto da gente, cheio de lembranças, imagens, afetos e experiências. É nesse baú que buscamos caminhos, respostas e aprendizados. Ali estão guardados os saberes dos nossos tataravós, transmitidos de geração em geração, ainda que de formas diferentes com o passar do tempo. Tudo isso molda nosso jeito de viver. Como dizia minha bisavó Noemi:
“A memória é a reserva de todas as nossas experiências juntas.”
Essas lembranças são pedaços de vida. São o ontem construindo o hoje, o passado desenhando o presente. Cada gesto, cada ensinamento vivido antes abre a chave desse baú invisível que carregamos conosco.
Quero contar algumas dessas histórias.
Nas férias, minha tia Magarethe me levava para Estância, terra natal da minha mãe e onde moravam meus avós, Dedé Sombrinha e Marocas. Ali conheci o buscapé, as batucadas, o barco de fogo e, principalmente, o gosto pelo popular e pela música. Meu avô Dedé me ensinou a soltar buscapé: primeiro o meio-fogo, depois o buscapé maior. Ele dizia:
“Veja como o fogo fica mais laranja e bonito, mas cuidado, porque fogo que bole pode queimar.” De uma só vez, tive aula de tradição, química e segurança do trabalho! Hoje, os buscapés são de titânio, a chama é mais clara, mas o ensinamento segue aceso em mim.
Minha bisavó Noemi, minha filósofa favorita, sempre deixava lições de vida. Contava histórias da sua infância em Estância, do seu pai apaixonado por fotografia, do seu tio Calazans, General e Interventor de Sergipe. Suas frases de efeito eram certeiras:
- “Minha família veio ao mundo pra fazer raiva, e não pra tê-la.”
- “Sergipe é terra de muro baixo, onde todo mundo conhece a vida de todo mundo.”
Mas a lição mais forte foi sobre respeito. Quando eu chegava cheio de pompa, todo vaidoso por cantar, tocar e me achar “o bacana”, ela me olhava com seus olhos verdes-azulados e dizia: “Meu neto, antes de você vieram seus pais; antes dos seus pais, seus avós; e muito antes ainda, seus bisavós. Por enquanto, o bacana aqui sou eu.”
Com ela aprendi que idade é posto, antiguidade é matriz, e memória é a base da construção do futuro. Foi esse aprendizado que me deu horizonte em Laranjeiras, quando conheci Mestre Deca do Cacumbi — uma memória viva da cultura laranjeirense. Ele me contava, lembrando os tempos de criança com Zé de Pita: “Galeguinho, eu achava aquilo tudo fora de série. Uma ruma de home com uma muié atrás só pra acompanhar. Aquele negócio de quem tem o reis, tem a rainha. E quando aparecia outro Cacumbi, roubava a rainha e aí era guerra, por causa de uma muié.”
Mas a frase que ele mais repetia era um desabafo: “Ninguém olha pro lado da gente. Só chegam quando é tempo de brincadeira. Depois fica pra lá. A gente merecia um cachêzinho, toda semana ou todo mês, entendeu?”
Esse lamento me fez pensar em como mudar aquela realidade. E assim nasceu a Lei Mestres dos Mestres, garantindo uma renda vitalícia de dois salários mínimos para Mestres da Cultura Popular. Essa lei transformou vidas, inclusive a de Deca, que mesmo com problemas de saúde, pôde viver com mais dignidade por mais de dez anos.
O maior beneficiado, no entanto, foi o próprio povo de Laranjeiras, que pôde conviver por mais tempo com seus mestres e guardar na memória viva exemplos de amor e dedicação à cultura popular.
São muitos os que nos ensinaram pela memória: meu tataravô, pioneiro da fotografia em Sergipe; José Calazans, que registrou Conselheiro; minha bisavó Noemi, que me ensinou a respeitar o passado para melhorar o presente; e mestres como Deca, que deixou uma família guardiã de sua memória e da cultura de Laranjeiras.
Hoje, essa família perpetua seu legado, como prova a bela escultura do Mestre Deca feita por Elias Santos e instalada no Largo das Esculturas da cidade, ao lado de João Sapateiro e do busto de Horácio Hora. Parabéns a Antônio Carlos e a toda a família Cacumbi por manter viva essa chama. Como dizia o Mestre Calazans: “Quem tem que preservar somos todos nós que amamos o que fazemos, para deixar na memória a cultura popular.”
E assim, volto à primeira pergunta: cultura e memória ou memória e cultura? A resposta é simples: uma não existe sem a outra.
