Olá, gente boa,
Ser artista no Brasil, e especialmente em nosso país e estado, é, muitas vezes, uma luta solitária. Quando um jovem decide seguir a medicina, ele sabe que há uma longa trajetória de estudos e que encontrará escolas e faculdades preparadas para orientá-lo em sua formação. Ele sabe também que a profissão tem seu valor, seu mercado de trabalho, e que ele será reconhecido em sua formação, até como uma contribuição vital para a sociedade.
Porém, quando esse mesmo jovem decide seguir os passos da arte — seja como músico, ator, dançarino ou qualquer outra forma de expressão artística — ele encontra um cenário muito diferente. Não há instituições amplamente acessíveis que o guiem, nem uma rede estruturada que o prepare para os desafios da profissão. O caminho do artista é repleto de incertezas, de críticas e, muitas vezes, de indiferença.
É necessário, então, repensar e afirmar o papel essencial da arte e da cultura na formação de um país e estado mais justo e feliz. Quando falamos em arte, não estamos apenas nos referindo ao entretenimento, mas a algo muito mais profundo: a arte é um espelho da sociedade, uma forma de resistência, de denúncia, de transformação. Através da arte, criamos pontes entre os povos, preservamos nossa história e nossa identidade, e também ajudamos a curar as feridas da alma.
Infelizmente, o caminho do artista muitas vezes se vê cercado por desafios financeiros e falta de apoio. Além de ser humilhado e muitas vezes visto como ‘vagabundo’, o artista é, em muitos casos, reduzido ao status de ‘luxo’, apenas acessível a uma elite que consome arte e cultura como um produto de massa. Para o grande público, o artista só é visto como ‘bem-sucedido’ quando alcança um status midiático ou financeiro. Mas a verdade é que a grande maioria dos artistas vive à margem, trabalhando em projetos independentes, muitas vezes sem o devido reconhecimento ou remuneração.
Não podemos permitir que a arte e a cultura sejam usadas como mera barganha política. A transformação da cultura em moeda de troca, em promessas vazias e festas de massa, precisa ser repensada. O trabalho com a cultura e a arte não pode ser tratado como esmola, mas sim como um investimento real e estruturado. Não podemos mais aceitar que os discursos de valorização da cultura se limitem a eventos superficiais, sem que haja um compromisso genuíno com a formação e o futuro dos artistas. O momento de fazer a diferença é agora.
Proponho a criação de uma Escola Técnica de Cultura e Arte, que deve ser implementada pelos nossos governos, como um centro de excelência na formação de artistas e profissionais culturais. Uma escola que seja o ponto de partida para que nossos jovens possam se qualificar de forma séria e alcançar seu espaço no mercado artístico. Precisamos de um investimento sólido e contínuo, e não de soluções paliativas que apenas perpetuam a falta de estrutura.
Além disso, os eventos culturais têm sua importância, desde que sejam direcionados para toda a diversidade cultural de Sergipe. Não podemos limitar nossas manifestações culturais à cultura de massa. É essencial que as festas, festivais, encontros e eventos promovidos tragam para o mesmo palco a verdadeira arte e cultura de Sergipe — as tradições, os artistas locais, as produções autênticas que representam nossa identidade. A arte e a cultura de nosso estado merecem ser divulgadas, além de serem um grande atrativo para o turismo, é mais uma forma de nos afirmar no cenário nacional e internacional. Precisamos ser conhecidos não apenas por nossas festas tradicionais, mas também pela força e diversidade de nossa produção cultural.
O momento é agora. Temos os recursos das leis federais e a urgência de agir. Precisamos aproveitar essa oportunidade para investir, de forma planejada e estratégica, na arte e na cultura, como um setor vital para a sociedade, e não como uma moeda de troca ou um simples espetáculo para aplacar as demandas do presente.
Investir na arte e na cultura é, acima de tudo, um investimento no futuro. E, ao investir em nossos artistas, estamos investindo em nossa identidade, no bem-estar social e no potencial transformador da arte para as gerações futuras.
* Imagem de Kobe Artz, em homenagem a Zé Peixe – Projeto Colora
