Olá, gente boa,
Quando decidi ser artista e trabalhar com arte e cultura, foi um choque para minha família. Os comentários eram muitos: “Esse menino não vai dar pra nada!”, “Só quer tocar violão, não gosta de trabalhar!”, “Tomara que não vire maconheiro ou cachaceiro!”. Mas o conselho que segui foi o de minha mãe, que me disse: “Seja feliz, meu filho. A escolha é sua”.
Construí minha vida acreditando na minha escolha, no meu trabalho e na minha capacidade de aprender e crescer. Minha tia Margarethe, professora e uma das pessoas que mais me amava, sempre dizia: “Realize seus sonhos, busque conhecimento, nunca culpe ninguém por suas derrotas e compartilhe o que aprender”. Esse ensinamento foi fundamental para minha trajetória.
Vejo muitos colegas se lamentando, culpando os outros pelo próprio fracasso ou pela falta de reconhecimento, ao invés de entender seu caminho e se fortalecer.
Esta semana, vi um político discursando sobre a necessidade de gerar empregos no Brasil. Ele disse que só teremos uma revolução no crescimento do país e do estado com a criação de empregos. Falou da indústria, do comércio, do petróleo e do gás, mas nada sobre cultura.
Nesses momentos, só consigo me lembrar da minha decisão de ser um profissional da cultura. O que se passa na cabeça das pessoas que não conseguem enxergar a cultura e as artes como um setor produtivo e em expansão em todo o mundo? Ou esses artistas, produtores, diretores, técnicos, iluminadores, mestres e brincantes, circenses, rendeiras, artesões, artistas visuais não são trabalhadores? Ainda em 2025, pensam como meu pai nos anos 70?
Em 2021, o setor cultural pagou R$ 83,3 bilhões em salários, com uma média mensal de R$ 4.135,00, acima do salário mínimo. Em 2023, houve um crescimento de 4% na oferta de empregos, totalizando 7,8 milhões de novos postos de trabalho. A cultura e as indústrias criativas contribuem com 3,11% do PIB brasileiro, impulsionando a economia e o desenvolvimento.
A pandemia mostrou a todos como a arte e a cultura são fundamentais. Foi a cultura que ajudou a preservar a sanidade de muitas pessoas durante o isolamento. No entanto, quando falamos em grandes eventos necessários e justificamos o investimento pela geração de empregos temporários, estamos reduzindo a importância do setor. Investir em cultura não é apenas financiar espetáculos, mas fortalecer toda uma cadeia produtiva que envolve escritores, produtores, atores, músicos, técnicos, artesões, circenses, poetas, grafiteiros, violeiros e tantos outros trabalhadores que fazem da cultura sua profissão. Precisamos urgentemente investir na formação e qualificação.
A falta de investimento na formação e na qualificação cultural não é um acaso. Uma sociedade culturalmente forte desenvolve senso crítico, questiona mais e se torna mais criteriosa em suas escolhas sociais e políticas. Manter a cultura marginalizada é uma forma de controle, pois quanto menos acesso ao conhecimento, mais fácil é manipular e perpetuar as mesmas estruturas de poder.
“A cultura vai muito além do entretenimento. Ela é conhecimento, identidade e senso crítico, mas também um setor essencial para a economia. Gera milhões de empregos diretos e indiretos, movimenta a indústria criativa e fortalece o turismo. No entanto, para que a cultura cumpra seu papel social e econômico, é preciso investimento e valorização. Sem políticas públicas eficazes e apoio ao setor, perde-se talento, oportunidade e desenvolvimento. Investir em cultura não é gasto, é estratégia para um país mais forte e equilibrado.”
Neu Fontes
