Olá, gente boa!

Fico aqui imaginando o que significa completar 60 anos de atividade artística profissional em um estado que, muitas vezes, pouco valoriza seus artistas e sua cultura popular. Ainda mais quando se é especialista em um instrumento que, por pouco, não desapareceu do cenário musical brasileiro: o querido e desafiador “pé de bode”, a nossa sanfona de oito baixos.

Oito baixos… Instrumento que, décadas atrás, reinava absoluto nos terreiros e arraiais do Nordeste, hoje é quase uma relíquia. Encontrar sanfoneiros de oito baixos, bons e comprometidos com a profissão, é missão difícil. Mas é justamente por isso que a trajetória de Correia dos Oito Baixos ganha ainda mais importância e merece toda a nossa reverência.

Em Sergipe, tivemos gigantes como Gerson Filho – o maior de todos, que abriu caminhos e deixou como herdeiro artístico o talentoso Robertinho dos Oito Baixos. Tivemos também José dos Santos, o inesquecível Coelho dos Oito Baixos. Hoje, celebro com alegria os 60 anos de vida artística de Carlos Correia Matos – o nosso Correia dos Oito Baixos – que segue firme, com seu instrumento pendurado no peito e tocando com a alma e o coração.

Os Festejos Juninos no chamado “País do Forró” estão cada vez maiores, mais coloridos… mas também mais descaracterizados. Ídolos de outros gêneros musicais acabam ocupando os palcos e os corações de parte do público, cantando tudo – menos o nosso autêntico forró. Como dizia Luiz Gonzaga, o Rei do Baião: “O forró é a garantia da preservação da tradição.” E são artistas como Correia e sua família que traduzem essa tradição com compromisso, talento e muita resistência.

A sanfona de oito baixos tem origem na Áustria. Pequeno acordeon diatônico, com 21 botões na mão direita e oito na esquerda. Ficou popularmente conhecida por vários nomes: “harmônica de oito baixos”, “fole de oito baixos”, “pé de bode”, “concertina” ou simplesmente “fole”. Ao contrário dos acordeons cromáticos, o oito baixos é bissonoro: cada botão produz dois sons distintos – um ao abrir o fole, outro ao fechar. Um instrumento de difícil execução, mas que, nas mãos certas, faz a festa em qualquer arraial nordestino.

Correia, aos 60 anos de carreira e 72 de vida, mantém viva a chama desse instrumento. Nascido em Capela/SE, começou aos 12 anos tocando na sanfoninha de quatro baixos do irmão, Moacir Correia. Logo, começou a ganhar uns trocados animando escolas, corais de igreja, leilões e festas juninas. Aos 16, comprou sua primeira sanfona de oito baixos. Seu repertório era um passeio pelas referências que o formaram: Gerson Filho, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino… e até boleros de Adilson Ramos, Orlando Silva e Waldick Soriano.

Tímido, Correia só se soltava quando tinha a concertina nas mãos. Sua família sempre incentivou, mas ele evitava os grandes palcos das capitais, os convites para gravar e a exposição na mídia. Falar em público? Um verdadeiro desafio. Correia chegou a apertar a mão de Luiz Gonzaga, mas tamanha era a timidez que sequer revelou ao Rei que também era sanfoneiro.

Foram 17 anos afastado dos palcos, mas nunca longe do instrumento. Durante esse tempo, seu único filho, Antônio Carlos, começou a se apaixonar pela música, primeiro no contrabaixo e, depois, incentivando o pai a voltar à ativa. Em 2007, com 42 anos de estrada, Correia enfim gravou seu primeiro CD. Esse trabalho abriu novas portas: veio o convite para o Forró Caju e, dali em diante, não parou mais. Gravou três CDs, participou de coletâneas e virou atração obrigatória em vários palcos sergipanos e também fora do estado.

Em 2022, Correia aderiu às plataformas digitais. Gravou músicas como “A Saudade Só Aumenta” e “Não Vivo Sem Você”, além da animada “Quero Ver Quebrar”, que conta a história da tradicional festa do Mastro de Capela/SE. No repertório digital, também estão as instrumentais “Colhendo Fava” e “Sanfona de Brinquedo”, com produção executiva do selo Vixe Maria, responsável pela distribuição e divulgação virtual.

Correia é um guerreiro. Um mestre que, com sua pequena e potente concertina, segue nos incentivando a dançar forró e respeitar nossa tradição.

Da igreja aos leilões, dos arraiais aos palcos do País do Forró, Correia construiu um legado que agora é celebrado com justiça. Em seus 60 anos de carreira, ele lança a música “Mas Que Tá Bom, Tá” e vê sua cidade natal, Capela, homenageá-lo durante os festejos juninos. Desde a Sarandagem até a grande festa do Mastro, o “Arraiá Mestre Correia dos Oito Baixos” virou um tributo merecido, com forró, cultura e muito amor na Praça da Matriz. Além de diversas apresentações e honrarias que reconhecem sua importância.

Vamos celebrar esses 60 anos de música, tradição e resistência. Vamos agradecer a Correia pelo trabalho incansável de manter viva a essência dos Oito Baixos e a alma da música nordestina. Correia nos orgulha. Honra o título de mestre e gigante da cultura sergipana.

No País do Forró, temos grandes sanfoneiros: Erivaldo de Carira, Erivaldinho, Valtinho e Edgar do Acordeon (in memoriam), Mestrinho, Luiz Paulo, Batista do Acordeon, Mimi do Acordeon, Glauber do Acordeon, Lucas Campelo, Ararão do Nordeste, Cobra Verde, Lourinho do Acordeon, Erik e tantos outros. E a bandeira dos Oito Baixos segue tremulando, firme, com a voz coletiva de quem diz: “Estamos aqui! Respeitem nossa tradição! Respeitem Correia, Robertinho, e a memória de Gerson Filho, Coelho e todos que fizeram do ‘pé de bode’ uma voz do Nordeste!”

Por isso, reafirmo: Robertinho e Correia são verdadeiros mestres, gênios da nossa música. Estão aqui para lembrar a todos que o forró é muito mais que um gênero musical – é identidade, é memória, é resistência. Não podemos esquecê-los.

Escrevo estas palavras em tempos de transformação, onde a ganância econômica e o desejo pelo lucro tentam reduzir nossa história e tradição a meros coadjuvantes de um espetáculo comercial. Que a voz do Oito Baixos siga ecoando, forte e vibrante, por muitas décadas ainda.

Viva Correia dos Oito Baixos! Viva o Forró! Viva a nossa cultura!