Aos 15 anos, tive uma visão — ou talvez uma revelação além da imaginação — de uma entidade em forma de cigana, que cantava e dançava com uma energia que iluminava meu universo. Era Elis Regina, a gaúcha cuja voz me fascinava desde as primeiras notas de “Madalena” e “Arrastão”. Assistir Elis ao vivo foi uma experiência indescritível, um êxtase que alimentava minha alma. Cada letra, melodia e harmonia tocava profundamente, enquanto aquela cigana imaginária parecia me sussurrar: “Canto para você. Que bom que nos reencontramos.”
Eu, um garoto sem compreender plenamente energias e espiritualidade, chorei durante todo o show. Saí transformado, certo de que minha vida seria vivida nos palcos. Aquela cigana mexeu com todas as gavetas da minha imaginação e sentidos.
Os anos se passaram, e tornei-me artista — cantando, compondo, realizando shows e produzindo discos. Sempre buscando reavivar aquele sentimento que Elis e a cigana despertaram em mim. Muitas vezes, ela surgia sem que eu percebesse, em letras de músicas que escrevi ou de parceiros, como “Decifra teus olhos, cigana…” ou “Como cigana, roubou com teus lábios meus próximos séculos de beijos…” — palavras que só reconheci como dela muito depois.
Nessas buscas, encontrei muitas ciganas que me surpreenderam com sentimentos semelhantes e aparições diversas, todas com algo em comum: o talento. Uma delas no palco, era um furacão, uma força da natureza como itabaianense arretada. Interprete que fazia todos prestarem atenção em cada movimento e palavra. Amorosa e única, ela tornava meus sentimentos mais visíveis, me deixando sempre em dúvida: será a mesma cigana? Hoje, penso que não, mas o talento, a luminosidade e a capacidade de transmitir emoção eram características em comum.
Anos mais tarde, durante um evento no circo Amoras e Amores, uma jovem subiu ao palco para cantar em um karaokê semanal que organizávamos. Ao começar a cantar, senti novamente aquele raio de sol que me marcou aos 15 anos. Era como se a cigana tivesse voltado, inundando meu corpo e mente. A voz daquela garota me transportava para outra dimensão, enquanto um perfume familiar preenchia o ar. Então, ela se aproximou e disse: “Ei, sou sua prima.” Quando abri os olhos, vi uma menina com cabelos cacheados, o mesmo cheiro e energia da cigana da minha imaginação. Era Gena Ribeiro, uma das maiores cantoras que já presenciei, comparável à própria Elis.
Como da primeira vez, a emoção tomou conta de mim. Gena e eu nos tornamos aliados musicais; ela era minha prima e minha fã, assim como eu era fã dela. Levei Gena ao estúdio, compus músicas para ela, e juntos participamos de festivais e produções teatrais. Ela se tornou arquiteta, mãe, atriz e estava pronta para o sucesso. Mas, como da primeira vez, partiu cedo demais, deixando-me com a promessa de nunca me abandonar. Promessa dela ou da cigana? Ou seriam a mesma?
Anos depois, em um teatro, fui surpreendido novamente. Uma bailarina, grata por um favor, começou a dançar em minha frente e não a reconheci de imediato. Seus olhos fixos nos meus pareciam dizer: “Não te abandonei. Estou aqui de novo.” Fiquei perplexo. Não era a cantora, mas a dançarina. Seu nome artístico Hanna Belly, com um significado cigano de “Graciosa Beleza”. Olhe a Cigana ai. Mais uma vez, a linha entre realidade e imaginação se confundiu, e meus sentidos se agitaram. Mais uma vez, aquele raio de sol quase me fez enxergar além.
Encontrei inspiração e propósito para continuar minha jornada na arte e na cultura. Desenvolvemos uma relação de respeito mútuo, repleta de criação e beleza espiritual. Éramos parceiros e confidentes, mas, como as ciganas antes dela, Cecília ou Hanna Belly desapareceu sem explicação, deixando-me refletir sobre o que fiz para afastá-la ou deixei de fazer.
Pela vida, encontrei ciganas e ciganos que me fizeram questionar minha linhagem espiritual, pois mudaram meus estados de espírito e me fizeram flutuar em outras dimensões. Espíritos de luz, principalmente artísticos, como Saulinho Ferreira, Mestrinho, Lu Spinelli, Alberto Silveira, Patrícia Polayne, Talita Calixto, Julinho Rego, sempre que tocam ou cantam, revivo momentos que sei que não vivi nesta vida. Recentemente, conheci uma dupla maravilhosa, duas almas que se completam e, com certeza, se reencontraram: Ricardo e Rebeca Vieira. Como é encantador vê-los em cena, tocando e cantando para eles e para o universo. Duas almas que me fazem sentir parte da tribo. E na sexta-feira, no show do Duo Vieira, onde cantaram Serestas, descobri outra alma cigana: um guitarrista que é puro amor, dedicação e paixão pela música, Fred Andrade. Nunca vi um artista se divertir tanto trabalhando, que alegria e espírito encontraram seu caminho novamente, mais talento e satisfação do que faz. Encontrado no passado.
Recentemente, ao assumir uma instituição cultural, tive outro encontro inesperado. Em um dia comum, alguém bateu à minha porta. Quando abri, ela entrou como quem não queria nada, um raio de sol na madrugada. Invadiu minha sala e meu silêncio, trazendo o mesmo cheiro de sonho e vento que reconheci de imediato. Era uma jovem talentosa e dona de si, tão parecida com Gena, até o seu “Ahaaam”. Em seus olhos, havia a mesma força da cigana do tempo e o forte significado do seu nome Ellen: Raio de Sol. Dessa vez aos meus 64 anos, o Raio de Sol me fez enxergar além. A menina jornalista que gosta de cantar, dançar, fotografar, é uma arteira e traz de volta a Cigana do Tempo.
Hoje, mais calejado pela vida e buscando me entender melhor, sei que cada dia é uma oportunidade de aprendizado. Ainda assim, a pergunta é: por quê? Cantoras, bailarinas, jornalistas, trapezistas, atrizes, músicos ou figuras populares — o que mais me atrai é o talento, a magia do olhar e a força de mostrar esse talento ao mundo. Isso é loucura, devaneio, obsessão, fantasia, paixão, amor ou simples delírio de um artista? Talvez sejam apenas oportunidades que os céus nos dão para resolver nossas questões universais e conflitos humanos tão pequenos diante de outras caminhadas e aprendizados.
Acredito nisso de verdade: estamos aqui para aprender, para evoluir. Sei que essa cigana é uma parceira do tempo. Ela, responsável por mim, e eu, tentando compreendê-la e realizá-la. Um dia, quem sabe, poderemos cantar e dançar juntos à luz de uma fogueira, acesa com um raio de sol.
