Olá, gente boa,

Há uma frase atribuída a Efu Nyaki que diz: “metade da população brasileira são mulheres, a outra metade são filhos delas.” A imagem é poética, mas a realidade é ainda mais contundente: hoje, as mulheres são maioria — cerca de 51,5% da população brasileira. Ainda assim, continuam sendo tratadas, por muitos, como se fossem propriedade, como se seus corpos, suas escolhas e suas vidas pudessem ser controlados. E o resultado disso é trágico: vivemos uma verdadeira pandemia de feminicídio.

Faço parte de uma família que desmente qualquer ideia de fragilidade feminina. Cresci em uma casa onde minha mãe era a força central, e eu, minoria feliz. Hoje, sigo nesse mesmo caminho: ao lado da minha companheira, com minhas três filhas, minha neta e meu neto, aprendendo todos os dias o que é respeito, o que é força, o que é dignidade. São elas que me ensinam — e continuam ensinando — o verdadeiro sentido da vida.

Mas, enquanto dentro de casa aprendemos, lá fora assistimos a um cenário assustador. Crescem grupos organizados de homens — muitos deles com voz na política, nas redes sociais e até na cultura — que se alimentam do ódio, do ressentimento e da incapacidade de conviver com a igualdade. São os chamados “machos alfa”, “red pills” e outras caricaturas de masculinidade, que na verdade escondem fragilidade, medo e ignorância.

Homens que nasceram do ventre de uma mulher, mas que passam a vida tentando negar essa origem. Homens que se dizem fortes, mas que precisam humilhar, agredir e até matar para sustentar uma ideia doentia de poder. Não há força nisso. Há covardia.

E o mais grave: esse discurso não está restrito às margens. Ele ganha espaço em palanques, em mandatos, em púlpitos. Há, sim, um movimento político que tenta naturalizar a violência, relativizar o feminicídio, culpabilizar a vítima e proteger o agressor. Isso não é opinião — é cumplicidade com o crime. Eles precisam sair do armário de concreto.

Também é doloroso ver como parte desse discurso se esconde por trás da fé. Utilizam o nome de Deus para justificar preconceito, machismo, racismo e intolerância. Criam um Deus à sua imagem: punitivo, excludente, violento. Mas Deus não é isso. Nunca foi.

O que estamos vendo é uma reação desesperada de quem não aceita perder privilégios. Porque as mulheres estão avançando — e com mérito. Ocupando espaços, liderando, criando, transformando. E isso assusta quem sempre viveu confortável na desigualdade.

Mas é preciso dizer com todas as letras: não há mais espaço para retrocesso.

Como homem, eu afirmo: somos nós que precisamos mudar. Somos nós que precisamos rever nossos comportamentos, nossos silêncios, nossas omissões. Não basta não ser agressor — é preciso ser defensor. Não basta amar as mulheres da nossa vida — é preciso respeitar todas.

Como já cantou Milton Nascimento:

“Maria, Maria, é um dom, uma certa magia

Uma força que nos alerta

Uma mulher que merece viver e amar

Como outra qualquer do planeta.

E como ecoa na voz eterna de Gal Costa, interpretando Caetano Veloso:

“Respeito muito minhas lágrimas

Mas ainda mais minha risada…”

E ainda Elza Soares, que transformou dor em potência, em denúncia, em arte — uma mulher que nunca se calou.

Essas vozes não são apenas música. São resistência. São memória. São caminho.

Essa luta não é de hoje, e está longe de acabar. Mas ela precisa ser assumida por todos nós. Nas urnas, nas ruas, nas casas, nas escolas. Não podemos mais eleger quem desrespeita mulheres. Não podemos mais normalizar discursos de ódio. Não podemos mais fingir que não é conosco.

Porque é.

E enquanto uma mulher for agredida, ameaçada ou morta por ser mulher, nenhum de nós estará em paz.

Vamos escolher o lado certo da história.

Vamos defender todas elas.

E eu canto. “ELAS”

Elas são ventania e calmaria

Raiz que rompe o chão da esperança.

São faísca, são fogo, são aço

Feito o tempo, certeiras no passo.

Quitéria na luta, Anita na estrada

Núbia, feminista afiada.

Voz que não cala, punho que ergue

Eco que a história jamais encerre.

(Refrão)

Respeite elas! Forte, segura e definitiva.

Respeite elas! Feito trovão, feito brisa.

Respeite elas! Tinta que pinta o dia.

Respeite elas! Alma, essência, poesia. (Bis)

São rio que escapa do leito marcado

Desenham caminhos no chão ressecado.

São doce e são fel, são dor e são cura

Certeza e mistério, ternura e loucura.

Deixa o canto delas ecoar

Feito tambor, feito mar.

É voz de força, é chão e ar

E quem não ouve, vai naufragar.

(Refrão)

São mães, são filhas, irmãs de jornada

Madalenas, Joanas, de força sagrada.

Sabem ser guerra, sabem ser festa,

E quem duvida, que saia da fresta.

(Refrão)