Olá, gente boa,
Quando fui convidado para assessorar a prefeita em 2009, eu já tinha uma convivência próxima com os mestres e brincantes da cidade. Era frequentador assíduo do Encontro Cultural e já havia produzido alguns trabalhos importantes, como o disco das Taieiras de Dona Lourdes e composições para os Lambe-Sujos, ao lado do inesquecível Zé Rolinha. Ainda assim, tratava-se de um novo e grande desafio — que aceitei com entusiasmo.
No Brasil, sequer sabemos quantas prefeituras possuem secretarias exclusivas de Cultura. Em muitas cidades, as políticas culturais acabam diluídas em pastas como Educação, Turismo ou Esporte. O fato de Laranjeiras possuir uma secretaria própria, com autonomia e identidade clara, sempre diferenciou o município. Essa estrutura ajudou a consolidar a cidade como um dos mais relevantes polos de turismo cultural de Sergipe e do Brasil.
Foi com esse espírito que aceitei a missão. Lembro-me bem quando disse à querida Dona Ione:
— Aceito, sim. Estarei secretário da “Capital da Cultura Popular”.
Ela riu e respondeu:
— É assim que quero que Laranjeiras seja tratada.
Dona Ione tinha sempre razão, conhecia, amava e sabia o que queria para sua cidade.
Em 15 de abril de 2009, iniciei na gestão municipal como Secretário Adjunto de Turismo. Logo no início, a prefeita estabeleceu três diretrizes muito claras: fortalecer Laranjeiras como polo turístico, revitalizar o Micarême e ampliar as ações de apoio e valorização dos Mestres da Cultura e do Folclore.
Aos poucos, fomos mergulhando na riqueza cultural do município. Ficava cada vez mais evidente que Dona Ione tinha plena consciência do patrimônio que administrava. Com seu apoio e confiança, realizamos uma gestão extremamente produtiva, consolidando Laranjeiras como uma referência nacional.
Naquele ano, retomamos o Micarême, que estava interrompido havia algum tempo. Importante destacar: o Micarême não é uma micareta. Trata-se de uma manifestação quase secular, com raízes históricas profundas, marcada por cortejos, fantasias e forte participação popular, sempre realizada após a Semana Santa. Um evento de grande valor simbólico, social e econômico.
Aproveitamos também a visita do Presidente Lula à cidade, durante a inauguração do Campus da UFS, para projetar nossa cultura. Mestres e fazedores entregaram presentes representativos, como o São Jorge em madeira de Ademar e o chapéu e pandeiro do Mestre Deca, do Cacumbi. A repercussão foi extraordinária, alcançando centenas de veículos de comunicação.
Participamos, pela primeira vez, das duas maiores feiras de turismo do país — o Salão do Turismo, em São Paulo, e a Feira das Américas, no Rio de Janeiro. Levamos nossa cultura material e imaterial, nossos documentários, nossos grupos e a belíssima renda irlandesa. O resultado foi expressivo, rendendo visibilidade, convites e reconhecimento institucional.
Ainda em 2009, realizamos uma série de seminários estratégicos que marcaram profundamente a cidade. Debatemos patrimônio, cultura imaterial e economia criativa, reunindo especialistas, pesquisadores e mestres da cultura popular. Esses encontros foram fundamentais para amadurecer o debate local e preparar o Encontro Cultural de 2010.
Criamos também o projeto Agosto Cultural, celebrando a emancipação da cidade e o mês do folclore, com cortejos, apresentações e intercâmbios culturais. Vieram ainda a primeira Conferência Municipal de Cultura, o Prêmio João Sapateiro de Poesia Popular e diversas outras ações que fortaleceram o calendário cultural.
Foi um ano intenso. Laranjeiras esteve presente em eventos, mostras e festivais dentro e fora de Sergipe, sempre destacando sua identidade singular.
Encerramos 2009 com uma certeza que o tempo apenas confirmou. Naquele ano, não criamos apenas projetos ou eventos — ajudamos a afirmar uma identidade. O Brasil passou a ecoar, com naturalidade e verdade, aquilo que sempre esteve diante de nós: Laranjeiras, a Capital da Cultura Popular.
Não como slogan. Não como vaidade administrativa. Mas como reconhecimento de uma história que já existia muito antes de qualquer gestão.
Uma história sustentada por manifestações que atravessam gerações, como o Lambe-Sujo e Caboclinhos, celebração centenária que resiste ao tempo como um rito de memória, pertencimento e afirmação cultural. À frente dessa tradição, um nome que o país aprendeu a respeitar: José Ronaldo, o inesquecível Mestre Zé Rolinha — guardião de saberes, símbolo de resistência, patrimônio humano de Sergipe.
O recente reconhecimento legal, sancionado pelo Governador Fabio Mitidieri, lei aprovado pela Assembleia Legislativa, não cria uma condição — apenas oficializa aquilo que o povo, a história e a cultura já haviam decretado há muito tempo. A iniciativa, proposta pelo Deputado Paulo Júnior e articulada pelo Vereador Doutor Léo, que em 2009 era um jovem integrado a cidade e a sua cultura, não é à toa que hoje é vereador do município. Essa assinatura do governador insere-se em uma visão maior do governo de Sergipe: Compreender, trabalhar e valorizar identidade cultural sergipana, que não é passado, mas destino.
Mas que não haja engano.
Títulos não sobrevivem por decreto.
Tradições não se mantêm por aplausos.
E a cultura não se preserva por discursos.
Honrar Laranjeiras como Capital da Cultura Popular exige mais do que celebrar o nome. Exige proteger suas raízes, respeitar seus mestres, fortalecer suas expressões e compreender que ali não reside apenas um município — reside uma das mais poderosas sínteses da alma sergipana, isso é um recado forte a qualquer gestão.
Porque a cultura não aceita descuido.
A história não tolera indiferença.
E a memória não perdoa omissões.
Laranjeiras não recebeu um título.
Laranjeiras carrega um legado.
E legados não se administram.
Legados se honram.
“Laranjeiras é Capital da Cultura Popular porque sua história assim determinou.”
