Olá gente boa,
Desde que entrei na gestão pública procuro me guiar por aquilo que aprendi como produtor cultural. Mesmo vindo do palco, como cantor e compositor, foi fora dele que aprendi uma das lições mais importantes sobre o lugar da arte e da cultura. Foi trabalhando na produção de festivais e na criação de estratégias para que processos artísticos e culturais acontecessem que compreendi o quanto é fundamental o trabalho de quem está nos bastidores.
Um bom produtor é aquele que planeja, viabiliza e executa projetos culturais, fazendo a ponte entre o fazer artístico e o público. É ele quem trabalha da captação de recursos à elaboração de projetos, da logística à produção executiva. É um trabalho exaustivo, que exige criatividade, persistência e talento. Enquanto os artistas e fazedores da cultura estão no palco, existe um outro grande artista fora dele garantindo que tudo aconteça.
Ainda no meu curso de pós-graduação em Gestão Cultural tive a oportunidade de conhecer Isa Trigo, professora, doutora, atriz, diretora e uma grande agitadora cultural da Bahia. Tornamo-nos amigos e, em uma conversa, ela me disse:
— Neu, vou te apresentar a uma pessoa muito parecida com você. Afonso, da Zona da Mata pernambucana. Um produtor dos bons.
Foi assim que conheci Afonso Oliveira. Cheguei a levá-lo para um dos Encontros Culturais de Laranjeiras e, desde então, passei a acompanhar o trabalho desse amigo que Isa me apresentou.
Afonso é produtor cultural, pesquisador, consultor de políticas culturais, educador, escritor, designer, diretor artístico, curador, artista plástico e professor de produção cultural. Carioca de nascimento, mas pernambucano de coração — e talvez mais pernambucano que muitos pernambucanos.
Começou sua trajetória artística no movimento do reggae, onde trabalhou com diversos artistas, entre eles Edson Gomes. Com o tempo, sua atuação foi ganhando dimensão maior e hoje sua contribuição é muito importante para o cenário cultural de Pernambuco e de todo o Nordeste.
São mais de trinta anos de trabalho e mais de cem projetos realizados nas mais diversas linguagens: música, cinema, dança, literatura e artes visuais. Suas experiências o colocaram ao lado de grandes mestres da cultura popular pernambucana, como Mestre Salustiano e Mestre Zé Duda.
Foi a partir desse contato profundo com os mestres e com o território da Zona da Mata que Afonso começou a desenvolver um processo consistente de valorização, divulgação e salvaguarda da cultura local. Desse movimento nasce o Canavial, um conceito, uma rede e também um método de produção cultural que articula pesquisa, formação e realização artística.
Ao longo desse processo, Afonso ampliou redes, orientou produtores, trabalhou com artistas pernambucanos em turnês internacionais, formou centenas de novos produtores culturais e coordenou mais de 120 projetos envolvendo dança, cultura popular, literatura, cinema, televisão, música, gastronomia e patrimônio.
Entre 1995 e 2003, desenvolveu, em parceria com o Governo de Pernambuco e o Ministério da Cultura, um importante trabalho de valorização dos maracatus. Nesse período foram idealizadas iniciativas que contribuíram para o reconhecimento de Nazaré da Mata como Capital Estadual do Maracatu e de Goiana como Terra dos Caboclinhos, além da criação do Encontro dos Maracatus Fora de Época e da consolidação da segunda-feira de Carnaval como o Dia do Maracatu Rural.
Também produziu 25 CDs com artistas e grupos pernambucanos e, em 2012, dirigiu com o cineasta Marcelo Pedroso o filme Maracatu Atômico Kaosnavial, registrando o encontro entre Jorge Mautner e Mestre Zé Duda.
Mas talvez sua maior criação seja o Festival Canavial.
Para entender melhor essa história, precisamos voltar no tempo. No pequeno sítio de Chã de Camará, na zona rural do município de Aliança, a cerca de 65 quilômetros do Recife, viveu um dos maiores mestres da cultura popular pernambucana: Mestre Batista.
Foi ele quem formou diversos outros mestres, entre eles Mestre Salu, criador do Cavalo Marinho que leva seu nome e do Maracatu Estrela de Ouro de Aliança. Quando Mestre Batista faleceu, em 1993, parecia que parte dessa herança cultural poderia se perder.
Mas seu filho, José Lourenço, empreendedor do Recife, decidiu assumir essa missão. Em 1998, foi ele quem levou Afonso Oliveira até Chã de Camará. E ali começou uma história que transformaria a região.
Desde então, Afonso realiza o Festival Canavial, criando um espaço para apresentar ao mundo a riqueza da cultura pernambucana e brasileira. O festival se expandiu por diversos municípios da Zona da Mata, levando arte, tradição e diversidade cultural para uma região historicamente marcada por dificuldades econômicas.
Pelos palcos do Canavial já passaram nomes como a Velha Guarda da Mangueira, Jorge Mautner, Elba Ramalho, Chico César, Tribo de Jah, João Donato e Xangai. Todos se encontrando com grupos tradicionais como o Maracatu Estrela de Ouro, Caboclinho Sete Flexas, Maciel Salu, Quinteto Violado, Silvério Pessoa, Afonjah e tantos outros.
É como se Afonso tivesse criado um grande alto-falante nacional da cultura popular, dando voz e visibilidade a quem precisa mostrar sua cultura ao mundo.
Este ano o festival aconteceu em Olinda, dentro da programação dos 491 anos da cidade, patrimônio histórico do Brasil, e também nos municípios de Condado e Aliança. A programação contou com oficinas, exposições e apresentações de artistas e grupos tradicionais como Elba Ramalho, Quinteto Violado, Sambadeiras, Orquestra do Avesso, Coco das Artes, além de cortejos do Cariri Olindense e Bata-Kossô.
Estiveram presentes também a Velha Guarda do Salgueiro, com participação de Sapoty da Mangueira e Rainha Marivalda; Graça Onasilê, do Ilê Ayê; Afonjah com participação da moçambicana Saquia Rachide; além de Isaar e Dina Braga.
A programação incluiu ainda Afoxé Oxum Pandá, Mestre Matinho e os Mestres do Coco de Pernambuco, reforçando um dos pilares do festival: o intercâmbio cultural entre Brasil e África.
Confesso que me senti em casa.
Estar ali representando o Governo de Sergipe com os colegas, Fernando Montalvão e Angelo, reacendeu ainda mais minha identidade e meu orgulho de ser sergipano e nordestino. E reforçou uma certeza que carrego comigo há muito tempo: só seremos melhores quando entendermos e respeitarmos nossa identidade cultural, nossos saberes, nossos fazeres, nossos cheiros e cores.
Essa cultura rica, profunda e única não pode ser copiada.
Mas pode — e deve — inspirar o mundo
