Ao completar 57 anos, no dia 30 de abril de 2017, ganhei de presente das minhas mulheres, Dona Cássia, esposa, Érica, Tatiana, Tássia, filhas e a neta, Hellen, um presente que adorei, um aparelho “Sonata”, que toca LP, CD e Mp3, além de gravar em pendreve. Uma maravilha, pois tenho guardado algumas centenas de discos de diversos artistas e gêneros musicais, inclusive os que gravei durante a minha vida artística, tanto como cantor, quanto como produtor.

O primeiro LP que peguei para escutar foi Cajueiro dos Papagaios, de 1985. O primeiro a gente nunca esquece. Foi muito especial o disco Cajueiro dos Papagaios, pois, além de participar cantando, junto com Paulo Lobo e Lula Ribeiro, tive a oportunidade de aprender a trabalhar em estúdio. Passei mais de uma semana em Recife, no estúdio “Somax”, com profissionais de muita qualidade e experiência, como o maestro Tovinho, Antônio Mariano, músico pernambucano, arranjador, técnico e produtor de primeira qualidade. Os músicos tornaram-se amigos, professores e colegas. Estiveram em outras produções realizados por mim em Recife.

Tudo começou ainda no ano de 1984, quando alguns artistas apoiaram um projeto chamado “Pró-disco”, criado por Alcides Melo. Os nomes envolvidos, além de Alcides Melo, foram Ailton Cardoso, Irmão e Tonho Baixinho, Grupo Cataluzes, Paulo Lobo, José Américo (Sucupira) e Luiz Eduardo Oliva. Acompanhando de longe, observei a movimentação e torci para que todos os envolvidos chegassem a um denominador comum. Afinal, pouco tempo antes, havia participado de um projeto de tentativa de criação da Coopermúsica. Que não frutificou, por não se conseguir chegar ao tão almejado denominador comum.

Como temia, o projeto não foi à frente, mas resultou em dois outros. A gravação do primeiro disco do Grupo Cataluzes, “Viagem Cigana”, e o projeto coletivo do disco “Cajueiro dos Papagaios”. O primeiro capitaneado, por Luiz Eduardo Oliva e Siomara Madureira, e o segundo, por mim, José Américo Leite (Sucupira) e Lula Ribeiro. Convidamos Paulo Lobo para participar e, logo no início da produção, recebemos o apoio de Luciano Nascimento. Apoio esse que virou o patrocínio e que viabilizou a realização do projeto. Sendo o primeiro projeto financiado totalmente pela iniciativa privada. A empresa foi a “Cocil Dados”, uma das primeiras do seguimento de informática no estado.

Trabalhamos na construção do disco e ficou acertado que cada um dos artistas envolvidos gravaria três canções e faríamos uma homenagem ao artista que foi para os três uma referência: Alcides Melo. A música escolhida para homenageá-lo foi “Bolero Parabelo”.

Alcides Melo, que mora em Minas Gerais, pode ser considerado um dos precursores da sergipanidade, pois naquela época teve uma grande preocupação com as formas e ritmos da nossa cultura. E sua música revelou isso. Logo cedo, aos 15 anos, participou de musicais de protesto do movimento estudantil, interpretando músicas de Juca Chaves e Ari Toledo, nos anos 60.

Alcides foi um dos compositores sergipanos mais influentes de sua geração. Liderou movimentos relacionados à música, como a criação da Coletiva de Música de Sergipe; a organização da Primeira Reunião de Gente de Música do Nordeste, na Paraíba; a fundação do Movimento Pró-cooperativa de Música de Sergipe; a idealização do Projeto Pró-disco. Fez dois shows marcantes em Aracaju: “Eletrozabumbada” e “Mamageroma. Ganhou, nos anos 70 e 80, os dois mais importantes festivais de música do estado de Sergipe: Festival Estudantil de Música, em 1971, com a música “Retirante”; Festival Sergipano de Música Popular Barasileira, em 1981, com a música “Mercado Thales Ferraz”.

Para o disco Cajueiro dos Papagaios escolhi três canções, em parceria: “Gênese”, com Alexi Pinheiro (a nossa terceira composição); “Candura”, com Genival Nunes e Gina Maynard; “Magia”, com Jorge Lins.  Lula Ribeiro escolheu as canções “Faz de Conta” e “Dom”, músicas dele e de Bobô Cruz, como também “Brejeira”, com o Jorge Lins. Paulo Lobo gravou “Por que você demora tanto?”, “Nós dois não tínhamos nada” e “Malha de bali”, canções de sua autoria.

O Cajueiro dos Papagaios foi um marco na música sergipana. O primeiro disco a ser financiado pela iniciativa privada, com três artistas da nova safra da música sergipana, além de uma excelente qualidade sonora e artística, para época. As canções demostravam os momentos que compositores e intérpretes vivenciaram. Todos da mesma geração, com influências musicais diversas e experiências diferentes.

Os mais parecidos, eu e Lula. Éramos colegas desde o primário. Participamos juntos do coral da Escola “Sagrado Coração de Jesus”. Mas, tínhamos uma vivência musical diferente. Eu estudei no Conservatório de Música, com o professor João Pires Argollo. Comecei a tocar mais cedo, desde os 9 anos de idade. Fui o primeiro a compor e participar de festival de música. Lula, por sua vez, gostava de cantar e tocar escaleta, um teclado de sopro. É um autodidata do violão. Foi ajudado pelo professor Henrique Souza com seu método “Prático rápido e eficiente”. Obra pela qual também tive oportunidade de estudar. Paulo Lobo era o mais velho e mais experiente, além de contar com toda admiração e torcida da classe artística e intelectual da cidade.

Paulo Lobo tinha um estilo definido, meio tropicalista, meio bossa novista, com qualidade de letras e melodias trabalhadas numa batida intimista do seu violão. Já Lula, na época do disco, buscava um caminho musical, fazia xotes, canções e pop. Depois do disco, trilha uma linha tropicalista e universal, da mistura do Rio de Janeiro com Aracaju.

Eu, sempre misturei, desde os idos do Conservatório, tocando clássico e jovem guarda, Villa-Lobos e Roberto Carlos. Nunca tive uma preocupação com estilo ou linha musical. Isso não me fez diferente em nada. Sempre respeitei o que queria e o que gostava de fazer. Então, podia ser canção, xote, baião, reggae ou outro estilo. Se eu gostava, tudo bem. O que mais me preocupava era a qualidade musical e a mensagem passada para quem ia ouvir, pois fazemos músicas para as pessoas.

Tenho orgulho do Cajueiro dos Papagaios. De ter participado dessa empreitada. Um disco que não foi só de Irineu, Lula e Paulo Lobo. Um disco de Sucupira, Luciano Nascimento, Jorge Lins, Alcosa, Lineu Lins, Antônio Mariano “Tovinho”, Denys Leão, Genival Nunes, Bobô Cruz, Nailson Menezes, Alcides Melo, Ida Brito e tantos outros que contribuíram para a sua realização.

Ouvindo o Cajueiro dos Papagaios, sinto o cheiro de Aracaju dos anos oitenta. Lembro de cada momento da gravação, em Recife, dos lançamentos em Aracaju, no Centro de Turismo e no Circo Amoras e Amores. Shows com Lula, em Maceió, Rio de Janeiro, Minas, para divulgar o disco.

Trinta e dois anos depois, tenho a certeza que fizemos o melhor, levando em conta a condição técnica, artística e musical. Um trabalho primoroso de capa, de autoria de Alberto Alcosa. Fotografias de Lineu Lins e Bobô Cruz. Músicas e arranjos modernos que representaram cada um dos três artistas envolvidos no trabalho.

O disco Cajueiro dos Papagaios foi uma homenagem a Aracaju e um presente ao público que teve oportunidade de escutá-lo. Um disco que estabeleceu o caminho de cada um dos artistas, um trabalho que ficou na história da música sergipana.