Olá, gente boa,
Muita gente já sabe que sou filho de uma estanciana arretada, Susete, e neto de Dedé Sombrinha e dona Marocas. Foi durante minha infância e adolescência que passei quase todas as férias na Cidade Jardim de Sergipe.
Eu batia as sete freguesias. Ia do Bonfim à Porto D’Areia, da Santa Cruz ao Alecrim, do Centro ao bairro Alagoas. Frequentei o Cruzeiro, o XPTO e a AABB — e soltei muito buscapé pelas ruas de Estância!
Foi nesse tempo que comecei a conhecer as histórias da cidade e de seus filhos famosos e ilustres, contadas principalmente por meu avô Dedé Sombrinha e por minha tia Margarethe.
Gilberto Amado, Zé de Dome, Gumercindo Bessa, Alina Paim e tantos outros nomes sempre me fizeram compreender a importância de Estância para Sergipe. Também conheci e convivi com figuras como Félix Mendes, Rogério, Raimunda Andrelina, Jorge Maravilha, dona Zefinha da Batucada, Beto Forró, Fábio de Estância e Judite Melo, Paulo Amado entre tantos estancianos talentosos que comprovam a grande contribuição dessa cidade para a cultura e para a história sergipana.
Os talentos de Estância se espalham pelo Brasil e pelo mundo. E hoje temos uma estanciana de alto calibre: estudiosa, competente, criativa e determinada. Eu a conheci no teatro, mas, ao longo dos anos, vi seu trabalho crescer e se transformar. Ela se tornou roteirista, produtora cultural, gestora, documentarista e uma das importantes realizadoras do nosso cinema: Cacilda de Jesus.
Cacilda é uma mulher forte, batalhadora, criativa e que nunca foge de uma boa luta. Como o Barco de Fogo, quando ela passa, clareia o caminho, ilumina os nossos olhos e colore o horizonte com suas ideias e seus projetos.
Cacilda Missias de Jesus Santiago é graduada em História pela Universidade Federal de Sergipe e tecnóloga em Gestão de Empreendimentos Turísticos pela Universidade Tiradentes. É professora efetiva da Rede Estadual de Educação, atriz e produtora cultural com atuação no teatro e no cinema.
Foi diretora de produção da série De Quebrada em Quebrada, da WG Produções, contemplada pelo edital para TVs públicas de 2015, da Ancine, do Fundo Setorial do Audiovisual e do BRDE. Também escreveu o roteiro do curta-metragem A Cruz de Bela, vencedor de edital da Lei Aldir Blanc, realizado pela Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe — Funcap.
Especialista na elaboração de projetos para editais da Agência Nacional do Cinema e da Lei Rouanet, Cacilda domina uma área que exige conhecimento técnico, capacidade de planejamento, persistência e muita responsabilidade.
Mais do que acumular títulos e experiências, ela se tornou uma voz marcante na produção cinematográfica de Sergipe. Ao lado de outras mulheres importantes e qualificadas, como Lu Silva, e de espaços coletivos como o Fórum do Audiovisual, Cacilda participa ativamente da luta pelo fortalecimento do nosso cinema.
Seu trabalho vem ajudando o audiovisual sergipano a conquistar respeito, visibilidade e reconhecimento. As redes sociais e os meios de comunicação frequentemente registram sua participação em projetos, debates, festivais e ações realizadas em benefício da cultura cinematográfica do nosso estado.
Nascida no bairro operário Santa Cruz, em Estância, Cacilda carrega as histórias e as vivências de seus pais, avós e de sua comunidade. É desse chão que ela retira parte da matéria-prima que transforma em cinema.
Um grande exemplo é Corações Naufragados, filme que ela define como genuinamente sergipano. Com roteiro e produção de Cacilda, a obra mistura ficção e acontecimentos históricos para contar uma história de amor ambientada durante os ataques do submarino alemão U-507 a navios mercantes na costa sergipana, em 1942. Os episódios contribuíram decisivamente para a entrada oficial do Brasil na Segunda Guerra Mundial. O filme lança sobre esse acontecimento o olhar dos moradores e das comunidades atingidas, valorizando nossa memória e mostrando que Sergipe também ocupa um lugar importante na história do país.
Outro momento histórico foi sua participação, como produtora executiva, no longa-metragem documental Velho Chico, a Alma do Povo Xokó. A obra foi selecionada para a Mostra Competitiva de Longas-Metragens Documentais do 52º Festival de Cinema de Gramado, realizado em 2024. Entre os cinco documentários escolhidos, foi o único representante do Nordeste na categoria e teve exibição pelo Canal Brasil.
Não se trata apenas da participação em um festival. Trata-se de uma conquista simbólica para toda a produção audiovisual sergipana. Cacilda levou para uma das mais importantes vitrines do cinema brasileiro a história, a resistência, a espiritualidade e a relação do povo Xokó com o Rio São Francisco.
São prêmios, editais, processos, prestações de contas, produções, projetos e roteiros. São anos de estudo, trabalho e persistência. Mesmo com todo o seu conhecimento, experiência e comprovada capacidade profissional, Cacilda ainda esbarra na desconfiança e na falta de investimentos privados e públicos locais.
Mas ela não desiste.
A cada centímetro de sua caminhada, procura transformar seus sonhos e projetos em realidade. E essa persistência talvez seja uma de suas maiores virtudes. Cacilda sabe que produzir cinema em Sergipe é enfrentar dificuldades, mas também sabe que cada filme realizado abre caminho para os que virão depois.
Cacilda de Jesus é uma estanciana que sabe que sua luta vale a pena. Ela honra seu chão, sua ancestralidade e sua identidade. Trabalha com talento e alimenta a esperança de um futuro mais promissor para o nosso cinema e para a nossa cultura.
Pioneiros como Ivan Valença e Ilma Fontes — e o próprio Marcelo Déda, que iniciou sua relação com o audiovisual com uma câmera Super-8 nas mãos — certamente se sentiriam orgulhosos dessa mulher que ajuda a escrever um novo capítulo da história cinematográfica de Sergipe.
Eu também me sinto orgulhoso.
Orgulhoso da estanciana, da produtora, da roteirista, da professora, da atriz e da mulher que não se acomoda diante das dificuldades.
Como o Barco de Fogo de sua terra, Cacilda segue em movimento: riscando a escuridão, iluminando caminhos e mostrando ao Brasil a força das histórias sergipanas.
Viva o nosso cinema!
Viva os cineastas e trabalhadores do audiovisual sergipano!
Viva Estância!
Viva Cacilda de Jesus!
