Na semana passada, além de reencontrar tantos parceiros e amigos da cultura em João Pessoa, tive a alegria de assistir ao show Nordestina, da cantora paraibana Sandra Belê, natural da cidade de Zabelê, no Cariri Paraibano. Fiquei imensamente feliz, pois vi, ali no palco, a prova viva de que nossa música nordestina ainda tem salvação — e que espetáculo lindo! Um show exemplar do que significa ser nordestino em alma, som e coração.
Sandra Belê, ou Elisandra Romeria da Silva, é cantora, atriz e apresentadora de TV. Iniciou sua carreira aos 18 anos, cantando forró na banda Millenium, em sua cidade natal. Participou como atriz e cantora da microssérie “A Pedra do Reino”, exibida pela Rede Globo; cantou com Dominguinhos e com a Orquestra Sinfônica da Paraíba; além disso, é diretora de arte, graduada em Arte e Mídia pela Universidade Federal de Campina Grande.
Sandra gravou quatro álbuns solos:
- Nordeste Valente (2004)
- Se Incomode Não (2009, relançado em 2016)
- Encarnado Azul (2011)
- Prisma (EP, 2013)
Seu show Nordestina tem a força, o cheiro e a cor do nosso povo e das nossas raízes. Perguntei a Sandra de onde vem tanta energia, e ela respondeu: – “Tudo que Zabelê me deu, eu guardei na imaginação. As cantigas do Reisado, a voz do aboiador, o som do carro de boi, os banhos de açude, a sanfona do meu pai e o entrelaçar de linhas da minha mãe. Uma mistura pura, tradicional e apaixonante.”
Foi mais de uma hora de emoção, relembrando tantos momentos da minha vida, nos palcos e nas andanças da música, ouvindo ecos de Amorosa, Virgínia Fontes, Anastácia, Marinês, Elba Ramalho, Clemilda, Rita de Cássia, Marluce, e tantas outras lindas e talentosas artistas.
Bateu a saudade também dos sons de sanfonas mágicas: Dominguinhos, Luiz Gonzaga, Valtinho, Pinto do Acordeon, Genaro, Erivaldo, Erivaldinho, Cobra Verde, Edgar, e agora, claro, do nosso querido Mestrinho. Sem falar nas composições eternas de Nando Cordel, Petrônio Amorim, Ismar Barreto, Antônio Carlos du Aracaju, Jorge de Altinho, Alcimar Monteiro, Luiz Paulo, Maciel Melo, Flávio José, João da Passarada, Loirinho do Acordeon, Cebolinha do Forró, Ararão, Jackson do Pandeiro, Antônio Barros, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, e tantos outros mestres.
Ao ver e sentir a vibração de uma plateia jovem no show de Sandra Belê, fiquei ainda mais esperançoso. A nossa linda música nordestina ainda tem muito chão pela frente, muitas lutas a travar, mas carrega, no sangue e no coração de seus autores, compositores e intérpretes, a certeza da continuidade. Continuamos a construir esse país com nossa força de trabalho, criatividade e, acima de tudo, nossa cultura.
Sandra Belê é dessas raras artistas que traduzem, em voz e corpo, a alma inteira do Nordeste. Natural de Zabelê, ela emociona, encanta e acelera o orgulho de ser nordestino. Sua voz — bela, afinadíssima — carrega aquela simplicidade erudita que Ariano Suassuna tanto defendia: um dom que poucos artistas têm com tamanha naturalidade.
Como bem disseram, “Sandra Belê é divina cantando e humana vivendo.”
Cabocla boa de se querer bem, é difícil disfarçar as lágrimas ao ouvi-la. Sua voz é “mal-educada” — no melhor sentido —, sem os filtros do urbano, ressoando com a autenticidade crua de um João do Vale.
Há quem diga, com razão, que não se sabe se é ave ou borboleta. Quando Sandra canta, parece que todas as quedas d’água bramissem juntas, que uma trovoada ecoasse no sertão de Zabelê. E quando dança, ela literalmente “avoa”, arrebatando o público.
À exceção de Marinês, Amorosa e Elba Ramalho, poucas vozes femininas interpretaram Aquarela Nordestina, de Rosil Cavalcanti, com tanta competência e alma quanto Sandra Belê. Miúda de corpo, mas gigante de talento, ela dialoga com o público com seu canto e seus gestos — um espetáculo que é puro encantamento.
Sandra Belê impressiona: sua voz forte, aberta e afinada revela uma nordestina que, em cada nota, carrega a identidade profunda do povo brasileiro. Uma joia rara que merece ser ouvida, sentida e celebrada.
Viva Sandra Belê! Viva Zabelê! Viva o Nordeste!
